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Regina Navarro Lins

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Monogamia em xeque prova que quem ama também trai

Universa

05/10/2019 04h00

"Acho que a coisa mais corajosa que fiz foi tomar a decisão de permanecer em meu casamento", disse a ex-primeira-dama, dos EUA, Hillary Clinton. Após o escândalo sexual envolvendo o então presidente e a estagiária Monica Lewinsky, em 1998. Muitos a criticaram por continuar casada com um homem "infiel". Mas será que fidelidade tem a ver com sexualidade?

Um dos pressupostos mais universalmente aceitos em nossa sociedade é o de que o casal monogâmico é a única estrutura válida de relacionamento sexual, sendo tão superior que não necessita ser questionado. Na verdade, nossa cultura coloca tanta ênfase nisso, que uma discussão séria sobre o assunto dos relacionamentos alternativos é muito rara.

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A questão é que as sociedades que adotam a monogamia têm dificuldades em comprovar que ela funciona. Ao contrário, parece haver grandes evidências, expressas pelas altas taxas de relações extraconjugais, de que a monogamia não funciona muito bem, pelo menos pra nós ocidentais. A antropóloga americana Helen Fisher concluiu que nossa tendência para as ligações extraconjugais parece ser o triunfo da natureza sobre a cultura.

A terapeuta de casais belga Esther Perel diz: "Ter mais de um desejo pode ser o maior tabu da intimidade moderna, mas amontoar a totalidade de uma libido nos estreitos limites domésticos e concordar com um mundo de desejos pré retraídos também é, para alguns, autotraição, no sentido mais pleno."

Trocar ideias a respeito de exclusividade sexual não é simples; provoca a ira dos conservadores e preconceituosos e ataques de todos os tipos.  Essa discussão só será realmente possível quando a fidelidade deixar de ser um imperativo.

"A infidelidade é o problema que é porque assumimos a monogamia como algo indiscutível; como se fosse a norma. Talvez devêssemos pensar na infidelidade como o que não precisa se justificar, assumi-la com uma naturalidade sem mortificações, para termos condições de refletir sobre a monogamia. Podemos crer que partilhar seja uma virtude, mas parecemos não acreditar em partilhar aquilo que mais valorizamos na vida: nossos parceiros sexuais.", diz o psicoterapeuta inglês Adam Phillips, que escreveu um livro sobre o tema.

O amor romântico defende a ideia de que quem ama só tem olhos para o amado, não se interessa por mais ninguém. Isso não é verdade, mas muitos acreditam e quando descobrem que seu parceiro (a) se relacionou com outra pessoa, concluem que não são amados. Sem dúvida, requer coragem poder ter uma visão do tema diferente daquela que é aceita na nossa cultura como verdade absoluta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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