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O machismo prejudica o homem até em meio a uma pandemia

Universa

04/07/2020 04h00

Imagem: Getty Images

Muita gente resiste ao uso da máscara para evitar a contaminação pela Covid-19. Pesquisa da Universidade de Middlesex, no Reino Unido, e do Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas, nos EUA, concluiu que questões de gênero estão ligadas ao menor uso de máscaras — homens resistem mais a se proteger dessa forma. Eles acreditam que não serão tão afetados quanto às mulheres, e caso sejam contaminados, preveem se recuperar rapidamente, o que não corresponde à realidade.

Essa atitude não causa espanto se levarmos em conta a forma como os homens são educados em uma cultura patriarcal. Logo que um bebê nasce, os pais e as pessoas que o cercam começam a ensinar-lhe através de gestos, do jeito de falar, da escolha de brinquedos e roupas, o papel social que ele deverá desempenhar: feminino ou masculino. O clássico "homem não chora" é um bom exemplo do que os meninos ouvem. Essa ideologia de gênero — sim, porque isso é que é ideologia de gênero — continua pela vida afora. Os homens são sempre desafiados a provar sua masculinidade.

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Sem dúvida existe uma diferença nítida nas atitudes sociais dos homens e das mulheres e é fácil, então, concluir que são realmente diferentes. Na realidade, a natureza só traz a diferença anatômica e a fisiológica, tudo mais é produto de cada cultura. Há algum tempo, a propaganda dos cigarros Marlboro ilustrou de forma perfeita o que povoava a imaginação das pessoas.

A filósofa francesa Elisabeth Badinter descreve como seria esse homem: "O homem duro, solitário porque não precisa de ninguém, impassível, viril a toda prova. Todos os homens, em determinada época, sonharam ser assim: uma besta sexual com as mulheres, mas que não se liga a nenhuma delas; um ser que só encontra seus congêneres masculinos na competição, na guerra ou no esporte. Em suma, o mais duro dos duros, um mutilado de afeto."

Na vida real, homens e mulheres podem ser fortes e fracos, corajosos e medrosos, agressivos e dóceis, passivos e ativos, dependendo das circunstâncias e das características de personalidade que predominam em cada um, independentemente do sexo. O machismo não prejudica somente às mulheres. Corresponder ao ideal masculino da sociedade patriarcal — força, poder, sucesso, nunca falhar — não é nada fácil.

Mesmo no meio de uma pandemia, em que todos os esforços devem ser feitos para evitar a contaminação, muitos se arriscam desde que continuem a corresponder ao que essa masculinidade tóxica definiu como o papel do "homem de verdade".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

Blog Regina Navarro