Regina Navarro Lins

"Estou casada há 14 anos e me sinto profundamente sozinha"

Regina Navarro Lins

18/06/2018 04h00

Ilustração: Caio Borges

“Estou casada há 14 anos e me sinto profundamente sozinha. Parei de trabalhar depois que meus filhos gêmeos nasceram. Tentei voltar quando eles foram para a escola, mas não consegui emprego.  Aos poucos fui me afastando dos amigos e das atividades que eu gostava . Há alguns anos sou dona de casa e mãe. Meu marido chega tarde do trabalho, sempre estressado, e quase não conversamos. Nos finais de semana ele se tranca no escritório para pôr o trabalho em dia ou dorme para se recuperar do cansaço da semana. E dizem que todos devem se casar para não se sentirem sozinhos… Me sinto uma covarde, mas não vejo solução; dependo dele em tudo. ”

***

Na busca de segurança afetiva, qualquer preço é pago para evitar tensões decorrentes de uma vida autônoma. Por medo da solidão as pessoas suportam o insuportável tentando manter a estabilidade do vínculo, e não raro se tornam dois estranhos ocupando o mesmo espaço físico. Como mecanismo de defesa, surge a tendência a não se pensar na própria vida. Tenta-se acreditar que casamento é assim mesmo.

A filósofa e escritora francesa Elisabeth Badinter é bastante dura na avaliação que faz da maioria dos casais, quando diz: “Na verdade, o casal, longe de ser um remédio contra a solidão, frequentemente ressalta os seus aspectos mais detestáveis. Ele estabelece uma tela entre si e os outros, enfraquece os laços com a coletividade. Ao nos fazer abdicar de nossa liberdade e independência, torna-nos ainda mais frágeis, em caso de ruptura ou de desaparecimento do outro. Aquela ou aquele que fica é então devolvido à solidão total, ao isolamento e à rejeição, complemento sem objeto direto, resíduo inutilizável de um par. Solidão total, a partir do momento em que o indivíduo não existe em si mesmo, e que também não existe a coletividade na qual ele continuaria a ter seu lugar. ‘Nós’ desaparecido, resta a metade de alguma coisa, enferma, débil, não viável, como um recém-nascido que não tivesse ninguém para alimentá-lo e vesti-lo, entregue às garras do medo.”

Contudo, acredito que um casamento pode ser ótimo. Mas para isso as pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois, como, por exemplo, a ideia de que os dois vão se transformar num só; a crença de que um terá todas as suas necessidades atendidas pelo outro; não poder ter nenhum interesse em que o amado não faça parte; o controle de qualquer aspecto da vida do outro. É fundamental que haja respeito total ao outro, ao seu jeito de pensar e de ser e às suas escolhas; liberdade de ir e vir, ter amigos em separado e programas independentes. Caso contrário, a maioria das relações, com o tempo, se tornam sufocantes.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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