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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Como o medo de aceitar uma mudança pode nos fazer perder tudo

Universa

16/09/2019 04h01

(Caio Borges/UOL)

O psicanalista americano Stephen Grosz ilustra em seu livro como o novo assusta, gera medo, insegurança e como pode paralisar as pessoas impedindo-as de tomar uma atitude. O texto não trata da separação de um casal, mas dá para fazermos uma analogia. Grosz relata o que aconteceu com algumas pessoas que estavam no World Trade Center quando houve o ataque terrorista em 11 de setembro em 2001.

Quando o primeiro avião bateu na torre norte, Marissa Panigrosso estava no andar 98º andar, da torre sul, conversando com duas colegas de trabalho. Ela sentiu a explosão tanto quanto a ouviu. Uma golfada de ar quente atingiu-lhe o rosto, como se a porta de um forno tivesse acabado de se abrir. Uma onda de ansiedade varreu escritório. Marissa Panigrosso não parou para desligar o computador, ou mesmo para pegar sua bolsa. Rumou para saída de emergência mais próxima e saiu do prédio.

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As duas mulheres com quem conversava — incluindo a colega que compartilhava sua baia — não saíram. De fato, muitas pessoas no escritório ignoraram o alarme de incêndio, e também o que viram acontecer na torre norte, a 40 metros de distância. Algumas foram para uma reunião. Uma amiga de Marisa voltou depois de ter descido vários lances de escada. "Tenho de voltar para pegar as fotos do meu bebê ", disse ela. E nunca saiu de lá. As duas mulheres que ficaram para trás falando ao telefone e aqueles que haviam ido para a reunião também perderam a vida.

No escritório de Marissa Panigrosso, como em muitos outros escritórios do World Trade Center, as pessoas não entraram em pânico ou correram para sair. "Isso me pareceu muito estranho", disse Marissa. "Eu perguntei à minha amiga: 'Por que está todo mundo aí parado?'"

O que pareceu estranho a Marissa é, na verdade, a regra. Pesquisas mostraram que, quando um alarme de incêndio soa, as pessoas não agem imediatamente. Elas falam umas com as outras e tentam entender o que está acontecendo. Ficam paradas. Isso deveria ser óbvio para todos que já participaram de um treinamento de incêndio. Em vez de deixar um prédio, nós esperamos. Esperamos por mais indícios – cheiro de fumaça ou o conselho de alguém em quem confiamos. Mas há também evidências de que, mesmo com mais informação, ainda assim muitos de nós não daremos um passo.

"Após 25 anos como psicanalista, não posso dizer que isso me surpreende. Resistimos a mudança. Comprometermo-nos com uma pequena mudança, mesmo que ela seja inequivocamente do nosso interesse, é, com frequência, mais assustador que ignorar uma situação perigosa. Somos veementemente fiéis à nossa visão de mundo, nossa história. Queremos saber em que nova história estamos entrando antes de sair da velha. Não queremos uma saída se não soubermos exatamente para onde ela vai nos levar, nem mesmo – ou talvez especialmente – numa emergência. Isso é assim, apresso-me a acrescentar, quer sejamos pacientes ou psicanalistas. Hesitamos, em face da mudança, porque mudança é perda. Mas se não aceitar mais alguma mudança, podemos perder tudo." diz Grosz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.