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"Ao lado da cama dela eu vi algemas, chicote e máscara. Saí correndo"

Universa

29/06/2020 04h00

Ilustração: Caio Borges/UOL

"Estamos sujeitos a surpresas desagradáveis em novos relacionamentos, mas algumas são especialmente surpreendentes. Conheci uma mulher muito atraente, e, após o segundo encontro, ela me convidou para ir  à casa dela. Adorei o convite, e fomos. Depois de alguns beijos seguimos para o quarto, e ela entrou no banheiro. Olhando em torno vi um suporte, ao lado da cama, com chapéus e alguns objetos estranhos pendurados: um par de algemas, um chicote e uma máscara. Isso me assustou. Calcei os sapatos e fingi que tinha recebido uma mensagem para resolver um problema familiar sério e saí correndo." 

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 De nada adiantou o austríaco Leopold von Sacher-Masoch ficar indignado. Não teve jeito: de famoso escritor e amante inventivo, seu nome foi mesmo rebaixado ao nível de patologia sexual. No livro Vênus das Peles, seu maior sucesso, ele descreve sua fantasia de ser dominado e chicoteado por uma mulher vestida apenas com um casaco de pele.

No final do século 19, esses atos foram classificados como perversão da vida sexual, o "masoquismo". As práticas sexuais usadas por aqueles que sentem prazer em dominar ou em infligir ao outro dor física ou emocional receberam o nome de sadismo devido aos romances do Marquês de Sade, escritos um século antes.

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Não vamos falar aqui sobre o sadismo e o masoquismo que buscam sofrimento. O estereótipo do sádico como criminoso brutal se aplica a uma minoria. Na realidade, a grande parcela procura de chicotes, algemas, correntes, assim como de suítes com jaulas em motel, grades de ferros e vários outros apetrechos, visa a aumentar o prazer sexual sem machucar.

A base do sadomasoquismo é o antagonismo entre domínio e submissão, poder e desamparo. É uma prática sexual tão comum que o psicanalista inglês Anthony Storr pergunta se haverá por acaso algum casal de amantes que não tenha brincado de alguma versão do velho jogo em que um domina e o outro é subjugado, ou que não tenha atormentado um ao outro de brincadeira, fingindo dar um beijo e recuando? Em 1954, o pesquisador americano Alfred Kinsey já havia registrado que mais da metade de homens e mulheres reagiam eroticamente a mordidas. Não muito diferentes de vários animais.

Nesse tipo de sadomasoquismo há um consenso e uma negociação entre as partes, de forma que um dos parceiros pode interromper o jogo a qualquer momento. Apesar de o masoquismo ser mais associado às mulheres, devido ao treinamento de submissão e passividade que sempre receberam, vários estudos mostram a inversão dos papéis sociais no sexo.

Os prazeres masoquistas fazem parte das fantasias de homens e mulheres em proporções praticamente iguais, principalmente ser amarrado e subjugado durante as atividades sexuais. E uma pesquisa concluiu que ambos os sexos preferem que o outro seja o sádico. Nem Batman escapa. No filme em que Michelle Pfeiffer interpreta a Mulher-Gato, vestida de borracha colada à pele para lembrar uma dominadora, ele é amarrado por ela a uma cama. Os produtores cortaram a cena, mas as aulas que ela tem com um "mestre do chicote" continuaram.

Não há um consenso geral a respeito das causas do sadomasoquismo. Alguns, como a historiadora americana Riane Eisler, acreditam que, como a erotização da violência e da dominação foi central na construção social do sexo, a maioria de nós se excita, em graus variados, com essas fantasias.

Para outros essa prática sexual reedita sensações de prazer e poder relacionadas com conflitos do início da vida. Há ainda os que defendem a ideia de que, se dessa forma o prazer aumenta e não faz mal a ninguém, não é necessário explicações e deve-se aceitar com naturalidade. E você, o que pensa do sadomasoquismo?

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

Blog Regina Navarro