Regina Navarro https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Mon, 06 Apr 2020 07:00:18 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 “Estou apaixonado por outra, mas trabalho na empresa da minha mulher” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/06/estou-apaixonado-por-outra-mas-trabalho-na-empresa-da-minha-mulher/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/06/estou-apaixonado-por-outra-mas-trabalho-na-empresa-da-minha-mulher/#respond Mon, 06 Apr 2020 07:00:18 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9465

“Após 14 anos de casado, aos 45 anos, minha vida era estável e feliz com minha mulher. Administro uma empresa que ela herdou do pai, e vivemos muito bem financeiramente. O problema é que me apaixonei por outra mulher e não consigo ignorar essa realidade. Minha mulher descobriu minha relação paralela e se afastou de mim. Avisou que vai pedir o divórcio e já falou com o advogado para me dispensar da empresa. Perco casa e emprego, e a mulher por quem estou apaixonado não vai poder me sustentar. Não sei o que fazer…”

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Apesar de ser muito mais comum a mulher depender do marido, em alguns casos a situação se inverte. E não é menos dramática. Muitos devem se perguntar por que o internauta não se separa e arranja um emprego. Mas não é tão simples.

Além de todas as questões emocionais que envolvem a separação, a interferência de vínculos econômicos entre o casal dificulta qualquer decisão. Há casos em que após a separação, quem dependia do outro fica completamente sem condições de se manter. A questão é que somente a autonomia econômica pessoal permite a qualquer um dos cônjuges se separar a hora que quiser.

Veja também:

Em diversas culturas a independência econômica está diretamente ligada ao divórcio. Na tribo yoruba, da África ocidental, as mulheres sempre controlaram o comércio. Elas cultivavam a terra e depois levavam a produção para um mercado totalmente dirigido por mulheres.

Além de comida, levavam para casa dinheiro e artigos supérfluos. Essa riqueza tornava-as independentes, resultando que mais de 46% dos casamentos entre os yoruba terminavam em divórcio.

Na tribo nadza, da Tanzânia, durante a época de chuvas, os cônjuges se afastam da aldeia — cada um para um lado —, em busca de comida. Lá existem muitas raízes, frutos silvestres e pequenos animais. Quando chega a estação seca, todos se reúnem perto dos poços de água e os homens saem para caçar animais maiores.

Aí conversam, dançam e dividem a carne. Mas, homens e mulheres nadza são independentes uns dos outros para a sobrevivência diária. Na década de 1960, o índice de divórcio entre eles foi quase cinco vezes maior que o dos Estados Unidos.

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Como Manu Gavassi defende, histórias de princesas deveriam ser esquecidas? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/04/como-manu-gavassi-defende-historia-de-princesas-deveriam-ser-esquecidas/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/04/como-manu-gavassi-defende-historia-de-princesas-deveriam-ser-esquecidas/#respond Sat, 04 Apr 2020 07:00:52 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9470

Manu Gavassi, participante do BBB 20, fez uma carta aberta às garotas que crescem com histórias de princesas da Disney. Ela critica o que as histórias ensinam sobre amor e afirma desejar ter sido a última geração que foi criada sob um conceito de amor inadequado.

Concordo inteiramente com Manu Gavassi. Em Cinderela, Branca de Neve e A Bela Adormecida, a mensagem central é a impotência da mulher. O homem, ao contrário, é poderoso. Não só dirige todo o reino, como também tem o poder mágico de despertar a heroína do sono profundo com um simples beijo.

Veja também:

No entanto, o mais grave nos contos de fadas é a ideia de que as mulheres só podem melhorar de vida por meio da relação com um homem. As meninas vão aprendendo, então, a ter fantasias de salvamento, em vez de desenvolver suas próprias capacidades e talentos.

A historiadora austríaca, radicada nos EUA, Riane Eisler diz que o reconhecimento de que educar as mulheres para que se concentrem somente em agradar os homens ou na ênfase exagerada à beleza física — ou mais especificamente, padrões de beleza feminina definidos pelos homens — na realidade, se torna um obstáculo para uma relação amorosa satisfatória.

Alguns discordam, dizendo que os contos de fadas são importantes no desenvolvimento das crianças, porque elas aprenderiam a vencer obstáculos, a elaborar conflitos internos… Mas com tantas histórias interessantes que existem hoje, também com conflitos e obstáculos, vocês acham que pais e professores devem continuar contando essas histórias em que as heroínas estão quase sempre em coma?

 

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A infidelidade pode fazer seu casamento durar mais? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/02/a-infidelidade-pode-fazer-seu-casamento-durar-mais/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/04/02/a-infidelidade-pode-fazer-seu-casamento-durar-mais/#respond Thu, 02 Apr 2020 07:00:22 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9457

 “A monogamia praticada, pelo menos de modo formal, nas sociedades patriarcais causa muitos problemas. O hábito acarretando ao mesmo tempo exigência e tédio gera uma tendência à separação”, diz o geneticista e antropólogo francês Jacques Ruffié. O autor enuncia as diversas fases por que passa a vida da maioria dos casais:

 – Uma fase de início, durante a qual tudo é maravilhoso, cada um idealizando o outro e se esforçando para satisfazê-lo. Ao mesmo tempo o casal se afasta do resto do mundo: enfim, sós!

Veja também:

2a – Uma fase de primeira crise com o contato do real; é preciso garantir o fim do mês. Os defeitos mais gritantes começam a ser percebidos. Essa fase é geralmente superada graças à atração recíproca, ainda viva, que um parceiro sente pelo outro. É o momento mais favorável para instaurar um verdadeiro diálogo em pé de igualdade, a fim de se chegar a um equilíbrio;

Senão:

3a – Uma série de crises vão se suceder, agravando-se e podendo acarretar:

a) a ruptura. A vida em comum torna-se insuportável;

b) em alguns casos, o casal se retrai por uma espécie de reflexo de autodefesa e reprime a sua agressividade.

4a – Mas o equilíbrio obtido pode ser apenas provisório. Uma calmaria aparente muitas vezes disfarça um aumento de rancor e de incompreensão. É então que uma crise mais violenta, porque adiada, explode no momento em que menos se espera;

5a O casal pode persistir ao preço de muitas renúncias. Cada um se despersonaliza, procurando assemelhar-se ao outro. Rompe-se com os amigos pessoais;

6a – Existem, enfim, crises fecundas, onde os dois protagonistas tomam consciência dos seus limites, de suas próprias forças e da realidade de um fracasso parcial. A fantasia ideal do início dá lugar a uma versão mais realista. Cada um se torna mais autônomo. Mas é preciso saber que o equilíbrio jamais é definitivo, pois o casal é formado por dois seres vivos, inteligentes, que evoluem.

Para Ruffié, o laço conjugal, juridicamente fixo e inalterável, no plano biológico é uma ficção que nossa fraqueza amorosa e nossa instabilidade afetiva assinam. Ele diz: “Se os casais deixassem de associar a fidelidade à sexualidade seria positivo para o casamento, na medida em que a mudança periódica de parceiros provoca, a cada vez, um aumento do desejo sexual”.

Você concorda com o antropólogo?

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“Meu marido foi embora, e agora todo mundo me pergunta sobre um namorado” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/30/meu-marido-foi-embora-e-agora-todo-mundo-me-pergunta-sobre-um-namorado/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/30/meu-marido-foi-embora-e-agora-todo-mundo-me-pergunta-sobre-um-namorado/#respond Mon, 30 Mar 2020 07:00:43 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9448

“Logo depois que fizemos 20 anos de casados, meu marido quis se separar.  Contou que estava apaixonado por outra mulher e foi embora. Fiquei mal. Cuidar sozinha da casa e dos filhos e não ter um parceiro meu lado… Mas o pior é ouvir a pergunta de todos à minha volta: “Quando você vai arranjar um namorado? Me sinto desvalorizada e fico sempre com a sensação de que estou falhando em alguma coisa.”

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No mundo ocidental, as pessoas amam estar amando. Apaixonam-se pela paixão. Estamos aprisionados pelo mito do amor romântico e pela ideia de que só é possível haver felicidade se existir um grande amor. Principalmente as mulheres. Não importa muito se a relação amorosa seja limitadora ou tediosa. Qualquer coisa é melhor do que ficar sozinha.

Fundamental é ter um homem ao lado, o resto se constrói — ou se inventa. Busca-se, portanto, desesperadamente, o amor. Acredita-se tanto nisso que a sua ausência abala profundamente a autoestima de uma pessoa e faz com que se sinta desvalorizada. O caso da internauta ilustra bem como, ainda hoje, muitas mulheres se sentem quando não têm um parceiro amoroso.

Veja também:

E quando começam o namoro com um homem, depositam nele a expectativa de nunca mais ficarem sozinhas, de se sentirem completas, estabelecendo então uma relação de dependência.

Concordo com a escritora canadense Bonnie Kreps quando diz que nessa busca incessante do amor romântico, a mulher, na nossa cultura, quando encontra um par, se torna a Bela Adormecida ao avesso. “Quando é beijada pelo homem (príncipe) não é despertada, ao contrário, adormece para quem é, para quem ele é, para a realidade. Adormece e se esforça para ficar adormecida.”

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Masturbação: o prazer libertador em tempos de coronavírus https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/28/masturbacao-o-prazer-libertador-em-tempos-de-coronavirus/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/28/masturbacao-o-prazer-libertador-em-tempos-de-coronavirus/#respond Sat, 28 Mar 2020 07:00:31 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9445

(Caio Borges/Arte)

A Prefeitura de Nova York recomendou que as pessoas se masturbem para evitar a propagação do coronavírus na cidade. “A masturbação não irá propagar o coronavírus, especialmente se você lavar as mãos com água e sabão antes e depois”, diz o texto. Não se sabe por que, mas o documento foi excluído do site oficial da cidade. Será preconceito?

Já houve época em que se acreditou que a masturbação causava loucura, ataques epiléticos, reumatismo, acne, asma, idiotice, impotência, cegueira e, por mais incrível que pareça, crescimento de pelos na palma das mãos.  Qualquer atividade sexual que não levasse à procriação era considerada crime ou pecado.

Veja também:

Na Inquisição o acusado de masturbação era tido como herege e condenado a morrer na fogueira. Sempre se falou mais da masturbação masculina, embora existam relatos de extirpação do clitóris, para impedir que a mulher se masturbasse.

Existem peças terríveis de museu, que ilustram bem a obsessão contra o que chamavam de “vício solitário”. Uma delas é um anel de metal com quatro pregos voltados para dentro, que tinham a função de impedir a ereção. Era ajustado ao pênis do jovem à noite e garantia um sono sem ereções.

Mas a dor… Menos doloroso e mais sofisticado era um detector de ereção ligado a um fio que ficava ao lado do quarto dos pais do jovem. À mais leve ereção, uma espécie de sino tocava, alertando os pais para a ereção do filho.

Entretanto, a masturbação faz parte da sexualidade normal. Meninos e meninas começam a praticá-la na infância e fazem isso até a velhice. Independente da idade, representa valiosa contribuição para melhor conhecimento do próprio corpo e das emoções, e o mais importante, proporciona prazer.

Geralmente se relaciona masturbação a um ato adolescente, mas isso não passa de mais uma tentativa de controlar a liberdade sexual das pessoas.  Dessa forma, há adultos se sentem inadequados por se masturbar, principalmente se têm parceiros fixos. Preocupante e anormal é quando traz sentimentos de culpa, comprometendo seriamente a vida sexual.

Mas, felizmente, as mentalidades estão mudando. Numa província da Espanha, a Secretaria de Educação criou o curso “O prazer está em suas mãos” para ensinar masturbação nas escolas a jovens de 14 a 17 anos e  derrubar mitos negativos sobre o tema.

Os conteúdos vão de anatomia e fisiologia sexual até técnicas de masturbação e uso de objetos eróticos. É claro que os conservadores protestaram e ameaçaram entrar na Justiça. Mas para a Secretária de Educação o novo curso “não devia escandalizar ninguém, principalmente, porque todos nós fomos adolescentes e todos nós temos sexualidade”.

Por conta dos preconceitos encontramos pessoas culpadas e amedrontadas com seus próprios desejos e com a forma de realizá-los. Isso impede que a masturbação se torne a experiência libertadora e satisfatória que pode ser.

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Muitos defendem a fidelidade, mas você quer mesmo ser fiel? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/26/muitos-defendem-a-fidelidade-mas-poucos-querem-se-manter-fieis/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/26/muitos-defendem-a-fidelidade-mas-poucos-querem-se-manter-fieis/#respond Thu, 26 Mar 2020 07:00:35 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9438

Numa conversa com uma médica ginecologista, ouvi o seguinte relato: “Um marido me procurou desesperado por ser portador de gonorreia. Aos prantos me pediu que não acabasse com sua felicidade conjugal, mas sua mulher precisava ser medicada. Chamei minha cliente no consultório e a mediquei. Comprovei depois que ela não estava com gonorreia. Aí, ela me contou que seu professor de inglês estava com gonorreia e achava que tinha passado para ela há um mês. Ela era portadora assintomática e passou a doença para o marido.”

Muitos homens e mulheres defendem a fidelidade conjugal, no entanto, poucos se contentam com um único parceiro sexual, mesmo enfrentando altos riscos. O adultério sempre foi punido com crueldade pelo mundo afora: açoitamento público, decepação do nariz e das orelhas, morte por apedrejamento, fogo, afogamento, etc. Não é incrível que os seres humanos, ainda assim, se envolvam em aventuras extraconjugais? Mas a infidelidade acontece a toda hora, em todos os lugares, com as pessoas comuns e com as famosas.

Veja também:

O número de mulheres que têm relações extraconjugais tem se igualado ao dos homens e o sexo fora do casamento começa cada vez mais cedo para ambos os sexos. O conflito entre o desejo e o medo de transgredir é doloroso. A fidelidade não é natural e sim uma exigência externa. Com toda a vigilância que os casais se impõem, a fidelidade conjugal geralmente exige grande esforço.

Assim, as restrições que muitos têm o hábito de estabelecer por causa do outro ameaçam bem mais uma relação do que a “infidelidade”. Mesmo porque reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. Quando a fidelidade não é espontânea nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto, e o parceiro que teve excessiva consideração tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a se considerar vítima, a se tornar intolerante, inviabilizando a própria relação.

Apesar dos conflitos, medos e culpas, da expectativa dos parentes e amigos, dos costumes sociais estimularem que se invista toda a energia sexual em uma única pessoa — marido ou esposa —, homens e mulheres são profundamente adúlteros.

 

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“Casamento me traz mais tristezas que alegrias, mas tenho pavor da solidão” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/23/casamento-me-traz-mais-tristezas-que-alegrias-mas-tenho-pavor-da-solidao/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/23/casamento-me-traz-mais-tristezas-que-alegrias-mas-tenho-pavor-da-solidao/#respond Mon, 23 Mar 2020 07:00:10 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9431

 

“Quando me casei eu tinha tantos sonhos! Agora, vejo que a vida a dois me traz mais dissabores do que alegrias. Não consigo me separar.Tenho um bom emprego, que daria para viver sozinha, mas não consigo imaginar essa hipótese. Estamos juntos há 18 anos, e sei que minha vida seria muito difícil sem a presença do meu marido. Tenho pavor da solidão!”

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A internauta não está sozinha; é comum ouvirmos queixas a respeito do casamento.  Por que isso acontece? Talvez o primeiro passo seja perceber que os modelos tradicionais de relacionamento são insatisfatórios e causam sofrimento. Poucos têm coragem de tentar novos caminhos. O desconhecido assusta, dá medo, e por isso, apesar das frustrações, quase todos recorrem ao que já conhecem.

Veja também:

Na maioria das vezes, as relações estáveis — e aí tanto faz ser namorado ou casado, morar junto ou não — se tornam tediosas. São tantas regras a seguir, tantas concessões a fazer…  O sexo também é um grave problema para a maioria. Além de todas as cobranças do dia a dia, a excessiva intimidade anula a emoção que havia antes, tornando-o meio burocrático. Mas apesar de tudo os dois continuam juntos, se agarrando um ao outro e à relação, como náufragos aguardando um milagre acontecer.

Neste momento, observamos que diminui a disposição para sacrifícios só para ter alguém ao lado. Para haver chance de se viver a dois sem tantas limitações, homens e mulheres precisam efetuar grandes mudanças na maneira de pensar e de ser. Acredito que para uma relação a dois valer a pena, alguns fatores são primordiais:

  • Total respeito ao outro e ao seu jeito de ser, suas ideias e suas escolhas.
  • Nenhuma possessividade ou manifestação de ciúme que possa limitar a vida do parceiro.
  • Poder ter amigos e programas em separado.
  • Nenhum controle da vida do parceiro, mesmo porque é um assunto que só diz respeito à própria pessoa.

Poucos concordam com essas ideias, na medida em que é comum se alimentar a fantasia de que só controlando o outro há a garantia de não  ser abandonado. Chegamos, então, a um ponto crucial: para haver uma relação amorosa gostosa entre duas pessoas, elas têm que estar juntas somente pelo prazer da companhia, e não reproduzindo a mesma dependência emocional que tinham com a mãe quando eram crianças. Como conseguir isso?  O primeiro passo é desenvolver a capacidade de viver bem sozinho.  É descobrir o prazer da própria companhia.

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Aumentará a violência doméstica no isolamento do coronavírus? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/21/aumentara-a-violencia-domestica-no-isolamento-do-coronavirus/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/21/aumentara-a-violencia-domestica-no-isolamento-do-coronavirus/#respond Sat, 21 Mar 2020 07:00:41 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9426

Ilustração: Caio Borges

A melhor coisa a fazer para evitar que mais gente seja contaminada pelo coronavírus é o isolamento social, ou seja, as pessoas ficarem nas suas casas. Mas me chamou a atenção a seguinte matéria que li em Universa:

ONU alerta: casos de violência doméstica podem aumentar durante isolamento.

Veja também:

Foi lançado o documento “Covid-19 na América Latina e no Caribe: como incorporar mulheres e igualdade de gênero na gestão da resposta à crise”, elaborado pela ONU Mulheres. Entre as orientações está o cuidado com as vítimas de violência. De acordo com as informações divulgadas, em contextos emergenciais tal como o desencadeado pela pandemia, aumentam os riscos de violência doméstica contra as mulheres e meninas, uma vez que podem ocorrer mais tensões em casa.

 Isso é preocupante. A mulher sempre foi extremamente maltratada pela violência do homem, considerada banal no lar. No entanto, ela tinha que aguentar e sofrer sem se queixar. Na Idade Média (séculos 5 ao 15), o marido tinha o direito e o dever de punir a esposa e de espancá-la para impedir “mau comportamento” ou para mostrar-lhe que era superior a ela. Até o tamanho do bastão usado para surrá-la tinha uma medida estabelecida. Se não fossem quebrados ossos ou a fisionomia da esposa não ficasse seriamente prejudicada, estava tudo certo.

 A violência doméstica continuou de variadas formas. Foi somente na década de 1970, com as iniciativas das feministas, que se começou a estudar o impacto da violência conjugal sobre as mulheres. Mesmo assim muitas continuam sendo agredidas por seus maridos ou companheiros.

 A psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen, que estudou profundamente o tema, diz: “Embora as consequências da violência física sejam mais facilmente percebidas, as mais graves são as psicológicas. As marcas de uma agressão física desaparecem, ao passo que as ofensas, as humilhações deixam marcas indeléveis. Por essa razão, para ajudar as mulheres é essencial levar em conta todos os aspectos da violência, e não apenas a violência física.”

Para Marie-France, a violência psicológica trata-se de um maltrato muito sutil: muitas vezes as vítimas dizem que o medo começa com um olhar de desprezo, uma palavra humilhante, um tom ameaçador. Trata-se de, sem desferir qualquer golpe, causar um mal-estar no parceiro ou parceira, de criar uma tensão, de amedrontá-lo, a fim de mostrar o próprio poder. Há, evidentemente, um grande prazer em dominar o outro com um simples olhar ou uma mudança no tom de voz. Quanto mais frequentes e mais graves as agressões, menos a mulher tem meios psicológicos de se defender.

Os efeitos da violência conjugal são devastadores para a saúde física e mental das mulheres e de seus filhos. Acredito que só haverá mudança nesse tipo de relacionamento entre homem e mulher quando cada vez mais todos se unirem para se livrar dessa mentalidade patriarcal, que prejudica a ambos os sexos. O apoio de homens e mulheres às lutas feministas por respeito e igualdade de direitos é um bom começo.

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Por que está cada vez mais difícil continuarmos casados? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/19/por-que-esta-cada-vez-mais-dificil-continuarmos-casados/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/19/por-que-esta-cada-vez-mais-dificil-continuarmos-casados/#respond Thu, 19 Mar 2020 07:00:56 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9421

Não são poucas as mulheres solteiras, com mais de 35 anos, que lamentam nunca terem se casado. A ansiedade para encontrar um par amoroso fixo e estável é constante. Na nossa cultura se acredita que só é possível estar bem vivendo uma relação amorosa, e é comum se buscar no casamento realização afetiva e prazer sexual. Mas não foi sempre assim.

Na Idade Média o casamento era considerado algo muito sério para que dele fizesse parte o amor, que não era nem cogitado. A partir do final do século 18, o amor no casamento passou a ser uma possibilidade e no século 20 tornou-se tão valorizado que é difícil imaginá-lo como inovação recente.

Veja também:

Na primeira metade do século 20, uma mulher se considerava feliz se seu marido não deixasse faltar nada em casa e fizesse todos se sentirem protegidos. Para o homem, a boa esposa seria aquela que cuidasse bem da casa e dos filhos e, mais que tudo, mantivesse sua sexualidade contida. As mudanças começaram a ocorrer mais claramente após a década de 40. O casamento por amor passou a ser sinônimo de felicidade e, por conseguinte, uma meta a ser alcançada por todos.

Da mesma forma que antes era inadmissível casar por amor, surge uma crítica severa a quem se casa sem amor. Entretanto, a modificação radical dos costumes se inicia na década de 60, com o advento da pílula anticoncepcional. A mulher reivindica o direito de fazer do seu corpo o que bem quiser, e assim a sexualidade se dissocia pela primeira vez da procriação.

O modelo de casamento romântico, para a vida toda, em que deve ser alcançada a complementação total entre os parceiros, passa a ser questionado.

E agora, a quantas anda o casamento? Tudo indica que se torna cada vez mais difícil permanecer casado. A autorrealização das potencialidades individuais passa a ter outra importância, colocando a vida conjugal em novos termos. Acredita-se cada vez menos que a união de duas pessoas deva exigir sacrifícios.

Observa-se uma tendência a não se desejar mais pagar qualquer preço apenas para ter alguém ao lado. É necessário que o outro enriqueça a relação, acrescente algo novo, possibilite o crescimento individual.

Não é nada fácil harmonizar a aspiração de individuação com o casamento, mas homens e mulheres estão cada vez menos dispostos a sacrificar seus projetos pessoais. Portanto, é provável que, do ponto de vista afetivo-sexual, o grande conflito que se vive neste momento se situe entre o desejo de simbiose – fusão com o outro – e o desejo de liberdade.

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“Percebi que poderia me ligar muito a ela e dei um jeito de cair fora” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/16/percebi-que-poderia-me-ligar-muito-a-ela-e-dei-um-jeito-de-cair-fora/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2020/03/16/percebi-que-poderia-me-ligar-muito-a-ela-e-dei-um-jeito-de-cair-fora/#respond Mon, 16 Mar 2020 07:00:23 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=9406

 

“Conheci uma mulher bem interessante, e começamos a sair. Nas duas primeiras vezes foi ótimo, mas no terceiro encontro dei um jeito de cair fora. Acho que percebi que podia me entregar muito a ela, que poderia ficar dependente e, depois, sofrer. Sei que a magoei, mas não é a primeira vez que faço isso. O pior é que aconteceu a mesma coisa nos meus dois namoros anteriores”

***

Os romanos desenvolveram a ideia de prudência, de lutar contra o amor, visando evitar o sofrimento. O poeta-filósofo Lucrécio disse em seu livro que o amor sexual apaixonado devia ser cuidadosamente evitado:

“Esse tipo de amor forma hábito; provoca atos frenéticos e irracionais, consome as energias do amante, e desperdiça-lhe a substância. O homem prudente afasta seus pensamentos para longe do amor, sabendo que o amor é uma doença. Se o homem sente falta de afeto, trate de satisfazer-se com as relações mais fáceis sem deixar-se perturbar pelas emoções.”

Veja também:

Mas se alguma mulher começa a afetar o homem prudente, inspirando-lhe amor: “O homem prudente deliberadamente lhe estuda os defeitos, de modo a contemplá-la em retrato de corpo inteiro. Ao invés de lhe admirar loucamente, ele percebe que ela é suja, que possui seios balançantes e que faz uso da linguagem sem escrúpulos. O homem prudente lembra a si mesmo que até a mais bela mulher faz as mesmas coisas que a mulher feia: sua, elimina dejetos e abafa os cheiros corporais com perfume. O homem racional não se deixa ludibriar.”, diz o poeta.

Passaram-se dois mil anos e muitas pessoas ainda sentem medo de amar. Evitam qualquer relação mais frequente, tentando evitar intimidade com o outro. Muitas vezes a pessoa rompe, magoa a outra pessoa, cria situações de brigas. Pode criar expectativas impossíveis. O medo é das consequências do amor — não ser gostado, ser abandonado, ser trocado por outro, etc… Isso limita bastante a vida da pessoa.

Relacionamentos superficiais podem ser usados como válvula de escape para driblar o medo da entrega amorosa, mas nem sempre as pessoas se dão conta disso. Assim surgem desculpas do tipo: “ninguém quer relação séria”, “não era isso o que eu queria” ou “não dou sorte, mesmo”. Sabotar-se nem sempre é uma atitude consciente, mas aqueles que se identificam com as situações acima descritas precisam investigar o que acontece dentro de si mesmo, lembrando que a responsabilidade não está necessariamente no parceiro.

 

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