Regina Navarro https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Fri, 23 Feb 2018 20:42:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Vejo mudanças quando leio que uma mulher assumiu a homossexualidade aos 91 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/23/vejo-mudancas-quando-leio-que-uma-mulher-assumiu-a-homossexualidade-aos-91/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/23/vejo-mudancas-quando-leio-que-uma-mulher-assumiu-a-homossexualidade-aos-91/#respond Fri, 23 Feb 2018 20:42:33 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7713

Ao escrever suas memórias, a ex-servidora inglesa Barbara Hoskins revelou manter um relacionamento com outra mulher há 20 anos Imagem: Antonio Olmos

A inglesa Barbara Hosking, funcionária pública que trabalhou com dois primeiros-ministros britânicos, Edward Heath (1970-74) e Harold Wilson (1964-70 e 1974-76)  decidiu assumir sua homossexualidade aos 91 anos. Ela mantém um relacionamento homossexual há 20 anos e revelou isso publicamente ao escrever sua autobiografia.

Ao ler essa notícia é impossível não refletirmos sobre a mudança das mentalidades em curso, ou seja, a mudança na forma de pensar e viver o amor, a sexualidade e os papéis desempenhados por homens e mulheres.

Quando eu era criança, assisti a uma cena na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, que jamais esqueci. Um jovem lia um livro sozinho sentado na areia. Alguns rapazes, que estavam na praia, perceberam que ele era homossexual e partiram para um covarde ataque. Xingavam e jogavam areia no jovem, que fugiu correndo atordoado.

Embora as estatísticas de ataques homofóbicos ainda sejam vergonhosas, a revelação de Barbara Hosking, indica a tendência de cada vez mais a homossexualidade ser percebida como tão normal quanto a heterossexualidade.

As transformações são muitas. Outro bom exemplo é em relação ao machismo. O verdadeiro supermacho, durante tanto tempo prestigiado, sempre se esforçou para corresponder ao ideal masculino de força, sucesso e poder da sociedade patriarcal.

A propaganda dos cigarros Marlboro ilustrou de forma perfeita o que povoava a imaginação das massas. A filósofa francesa Elisabeth Badinter assinala: “O homem duro, solitário porque não precisa de ninguém, impassível, viril a toda prova. Todos os homens, em determinada época, sonharam ser assim: uma besta sexual com as mulheres, mas que não se liga a nenhuma delas; um ser que só encontra seus congêneres masculinos na competição, na guerra ou no esporte. Em suma, o mais duro dos duros, um mutilado de afeto.”

Hoje, o machão está perdendo seu lugar. Cada vez mais se valoriza o homem sensível, que não se sente diminuído por ficar triste ou chorar, que fale dos seus sentimentos e aceite seus próprios fracassos.

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A incerteza no amor tem benefícios e pode manter a paixão viva https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/22/a-incerteza-no-amor-tem-beneficios-e-pode-manter-a-paixao-viva/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/22/a-incerteza-no-amor-tem-beneficios-e-pode-manter-a-paixao-viva/#respond Thu, 22 Feb 2018 07:00:39 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7705

(Ilustração: Caio Borges)

Não são poucos os casais que vivem numa relação de aparências, que pode servir de proteção do mundo exterior. Ambos podem se tornar dependentes um do outro e do próprio relacionamento. Alcançar um equilíbrio entre autonomia e dependência não é nada simples. A busca de autonomia não significa incapacidade de permanecer numa relação a dois, mas sim a recusa de pagar qualquer preço por ela.

A terapeuta de casais americana Esther Perel faz observações interessantes sobre a dependência emocional na vida a dois, que sintetizo a seguir. Quando se inicia uma relação o amor lhe agarra e você se sente poderoso e não quer que acabe. Mas também tem medo. Quanto mais você se apega, mais tem a perder. Então tenta tornar o amor mais seguro. Procura prendê-lo, torná-lo confiável.

Você assume seus primeiros compromissos e alegremente abre mão de um pouco de sua liberdade em troca de um pouco de estabilidade. Mas a emoção estava ligada a uma certa dose de insegurança. A sua excitação decorria da incerteza, e agora, ao procurar dominá-la, você acaba fazendo a vivacidade se esvair da relação.

Tentando controlar os riscos da paixão, você acabou com ela. Nasce o tédio conjugal. Embora prometa aliviar nossa solidão, o amor também aumenta nossa dependência emocional de uma pessoa. Somos propensos a acalmar nossas ansiedades através do controle. Sentimo-nos mais seguros e diminuímos a distância que há entre nós, aumentamos a certeza, as ameaças perdem a força e refreamos o desconhecido.

Existe uma forte tendência nas relações longas a valorizar mais o previsível. Mas o erotismo gosta do imprevisível. O desejo entra em conflito com o hábito e a repetição. É indisciplinado, e desafia nossas tentativas de controle.

Na vida a dois não queremos jogar fora a segurança porque nossa relação depende dela. Uma sensação de segurança física e emocional é fundamental para uma relação saudável. Mas sem um componente de incerteza não há desejo, não há frisson. A paixão numa relação é proporcional ao grau de incerteza que você pode tolerar.

No fim, modelamos um sistema de convicções, medos e expectativas – algumas conscientes, muitas inconscientes – em relação à forma de funcionamento das relações. Fazemos um pacote bem amarrado com isso tudo e o entregamos ao nosso amor.

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“Estou casada há 35 anos e me sinto profundamente sozinha” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/19/estou-casada-ha-35-anos-e-me-sinto-profundamente-sozinha/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/19/estou-casada-ha-35-anos-e-me-sinto-profundamente-sozinha/#respond Mon, 19 Feb 2018 07:00:56 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7693

(Ilustração: Caio Borges)

“Estou casada há 35 anos e me sinto profundamente sozinha, apesar de viver com o marido e dois filhos. Meu marido não conversa comigo nem me procura para o sexo. Os filhos têm suas próprias vidas. Nunca imaginei que minha vida fosse ser tão infeliz. Na juventude, antes mesmo de conhecer meu marido, sempre vinha à minha cabeça uma cena romântica que eu acreditava representar o futuro que eu teria junto à minha família: num sábado ou domingo, estaríamos todos na sala. Meu marido lendo o jornal, fumando um cachimbo; minha filha tocando piano; meu filho pedindo dinheiro para sair e eu muito feliz assistindo a tudo isso.”

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A internauta não pode ser responsabilizada sozinha por seus sonhos e frustrações. Inúmeras novelas e histórias românticas fazem sucesso desde o início do século 19, influenciando as mentalidades. O romance ideal — a perfeita expressão da fantasia romântica — é encontrado nos romances do tipo água com açúcar e nos contos de fadas, que descrevem de forma banal a promessa do mito do amor romântico.

Bonnie Kreps, cineasta e escritora canadense, relata em seu livro como essas tramas se desenvolvem. O principal aspecto da literatura convencional, assim como a fonte de sua atração, é que o leitor sabe o que esperar. Nos contos de fadas, as ideias organizadoras são a castidade e a magia: a castidade será atormentada pela maldade, salva pela bondade e recompensada, e a magia será usada nos pontos-chave.

A vida “real” para uma mulher começa com a chegada do homem que vai amá-la dessa maneira especial. A recompensa por ser uma mulher ‘real’ não é uma vida real, mas o ‘verdadeiro amor’, ou seja, a proteção contra a vida real. Nenhuma heroína romântica arquetípica leva uma vida normal e interage ativamente no mundo; ela sempre vai para o castelo e nunca mais se sabe dela.

Embora alguns digam que o amor romântico foi um enredo engendrado pelos homens contra as mulheres, para encher suas cabeças de sonhos fúteis e impossíveis, isso não explica o apelo da literatura romântica, ou o fato de as mulheres terem desempenhado um papel importante na sua difusão.

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O amor materno é inerente às mulheres? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/15/o-amor-materno-e-inerente-as-mulheres/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/15/o-amor-materno-e-inerente-as-mulheres/#respond Thu, 15 Feb 2018 06:00:15 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7690

Cena do filme “Sem Amor”

No filme russo “Sem Amor”, concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o menino Alyosha, de 12 anos, não é amado pelos pais. Eles estão se separando — cada um já com novo relacionamento — e o filho ouve a discussão em que nenhum dos dois quer ficar com ele. O filme é ousado ao mostrar uma mãe que não nutre nenhum sentimento amoroso pelo filho.

Afinal, desejar ser mãe é da natureza da mulher ou um modelo que assimilamos? A forma como as mães se relacionavam com os filhos, nos séculos 17 e 18, deixa claro que não somente o desejo de ter filhos mas também o amor materno não são inerentes às mulheres. É um sentimento que pode ou não se desenvolver, dependendo dos interesses sócio econômicos de um grupo.

Naquele período, a amamentação passou a ser considerada ridícula e repugnante e não era considerado digno de uma mulher amamentar seu próprio filho. Só para se ter uma ideia, das 20 mil crianças nascidas em Paris, em 1780, menos de mil foram amamentadas pelas mães. Todas as outras foram morar com amas de leite.

A criança era um empecilho para a mãe, já que era muito deselegante cuidar de uma criança. Muitas vezes os pais a entregavam imediatamente à ama, sendo comum organizarem uma festa para comemorar o nascimento, mesmo sem a criança estar na casa.

É evidente que o sentimento de amor materno sempre existiu, não em todas as mulheres, mas em todas as épocas e lugares. A exaltação desse amor como valor natural e favorável à espécie e à sociedade é que constitui novidade.

Sem dúvida, as crianças lucraram muito, mas é importante assinalar que a construção do amor materno não foi motivada por uma questão humanitária, para minorar o sofrimento a que eram submetidas. A principal razão foi a necessidade de mais gente para fazer frente à nova ordem econômica que surgia nas sociedades industrializadas.

A mãe que hoje conhecemos, amorosa, dedicada e culpada, começou a ser fabricada no final do século 18. Houve uma revolução das mentalidades onde a imagem da mãe, seu papel e sua importância modificaram-se radicalmente. Passados 200 anos, ninguém questiona o amor materno. Acredita-se que é um instinto, um amor espontâneo da mãe pelo filho. Não se fala, porém, da árdua luta de mais de cem anos para que todos absorvessem essa nova ideologia.

Atualmente, a rejeição aos modelos tradicionais de comportamento permite que se percebam com mais clareza os próprios desejos. Ter ou não ter filhos passa a ser uma opção individual, longe da cobrança de corresponder às expectativas criadas para a mulher .

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O Carnaval do “não é não!” é novidade e pegou alguns de surpresa https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/14/o-carnaval-do-nao-e-nao-e-novidade-e-pegou-alguns-de-surpresa/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/14/o-carnaval-do-nao-e-nao-e-novidade-e-pegou-alguns-de-surpresa/#respond Wed, 14 Feb 2018 17:08:53 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7697

“Vou beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é carnaval.” Quarta-feira de cinzas não é mais o fim da folia. Até o final de semana vamos assistir a muitos beijos e abraços. Impossível não perceber a sensualidade solta e a excitação brilhando no olhar das pessoas. Desejo de beijar, de fazer sexo, mas com muita urgência; afinal, o tempo é limitado.

De onde vem a liberdade para as pessoas se tocarem e se sentirem, mesmo sem se conhecerem? Para onde vai o medo de sexo, suas normas e regras, que durante todo o ano contêm e limitam o prazer? De onde surge tanta ousadia?

O Carnaval parece também funcionar como um período em que homens e mulheres dão uma trégua à censura que se impõem durante o ano. Há mais coragem para experimentar o sexo casual, sem compromisso e com camisinha, claro.

Mas este ano há uma novidade. “Não é não!” “Chega de assédio!” Dizem as mulheres no corpo. O problema é que desde que o sistema patriarcal se instalou, há cinco mil anos, elas foram consideradas inferiores aos homens, que nunca se importaram com suas recusas e faziam o que queriam.

Respeitar a mulher é uma novidade tão grande, que a maioria nem sabe do que se trata. Muitos criticam o movimento contra o assédio, alegando que agora não podem mais seduzir, paquerar, conquistar uma mulher. Os homens que pensam dessa forma têm que, com urgência, começar um treinamento. Perceber os sinais que a mulher desejada lhes passa antes de tomar qualquer atitude.

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“Meu marido só pensa em alcançar o seu prazer e pronto” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/12/meu-marido-so-pensa-em-alcancar-o-seu-prazer-e-pronto/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/12/meu-marido-so-pensa-em-alcancar-o-seu-prazer-e-pronto/#respond Mon, 12 Feb 2018 06:00:18 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7675

(Ilustração: Caio Borges)

“Sou casada há nove anos e tenho uma grande frustração: o sexo. Meu marido parece que não me percebe quando estamos na cama; só pensa em alcançar o seu prazer e pronto. Quando tento sugerir alguma coisa ele diz para eu ficar quietinha. Tudo é muito rápido e não dá tempo de eu sentir prazer. Já conversei com ele, mas nada muda.”

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Quando se pergunta se algumas pessoas fazem sexo melhor do que outras, muita gente responde que não. Afirmam que uma boa relação sexual depende exclusivamente do amor entre os parceiros. Como isso não é verdade, imagino ser mais uma tentativa conservadora de negar que sexo e amor são coisas totalmente distintas. Por mais que duas pessoas se amem, a relação sexual pode ser de baixa qualidade, com pouco prazer.

Não são poucos os homens que vão para o ato sexual ansiosos em cumprir uma missão: provar que são machos. A preocupação em não perder a ereção é tanta que fazem um sexo apressado, com o único objetivo de ejacular, e pronto.

A mulher, com toda a educação repressora que teve, ainda se sente inibida em sugerir a forma que lhe dá mais prazer. Acaba se adaptando ao estilo imposto pelo homem, principalmente por temer desagradá-lo. Fazer sexo mal é isso: não se entregar às sensações e fazer tudo sempre igual, sem levar em conta o momento, a pessoa com quem se está e o que se sente.

As pessoas que gostam de verdade de sexo e o sabem fazer bem não têm preconceito nem vergonha, consideram o sexo natural, fazendo parte da vida. A busca do prazer é livre e não está condicionada a qualquer tipo de afirmação pessoal. Então, o sexo é desfrutado desde o primeiro contato, e se cria o tempo todo junto com o parceiro, até muito depois do orgasmo.

O único objetivo é a descoberta de si e do outro, numa troca contínua de sensações, em que cada movimento é acompanhado de nova emoção. Sendo assim, o sexo deixa de ser a busca de um prazer individual para se tornar um poderoso meio de transformar as pessoas.

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Falta de sexo já pode ser considerada caso de saúde pública? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/08/falta-de-sexo-ja-pode-ser-considerada-caso-de-saude-publica/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/08/falta-de-sexo-ja-pode-ser-considerada-caso-de-saude-publica/#respond Thu, 08 Feb 2018 13:34:49 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7682

O sexo sempre teve destaque na história da humanidade. Dependendo da época e do lugar, foi glorificado como símbolo de fertilidade e riqueza, ou condenado como pecado. A condenação do sexo surgiu com o patriarcado, há cinco mil anos. No início, restringia-se às mulheres, para dar ao homem a certeza da paternidade, mas com o cristianismo a repressão sexual generalizou-se.

A partir das décadas de 1960/70 a moral sexual sofreu grandes transformações, mas o sexo continua sendo um problema complicado e difícil. Muitas pessoas dedicam um tempo enorme de suas vidas às suas fantasias, desejos, medos e culpa sexuais.

Muitos fazem sexo em menor quantidade do que gostariam e com menos qualidade do que poderiam. O UOL foi em busca de estudos científicos que comprovam os benefícios de uma vida sexual ativa e prazerosa para a saúde física e mental de homens e mulheres.

Quais são os benefícios para a sua vida?

  • Melhora a memória e torna você mais inteligente
  • Alivia a dor de cabeça/ Rejuvenesce
  • Combate o estresse e o mau humor
  • Favorece o rendimento no trabalho
  • Ajuda a viver mais
  • Mantém a forma em dia
  • Até o solitário tem benefícios!

Diante de todos esses dados, observamos um paradoxo. Um número grande de pessoas – solteiras ou casadas – não faz sexo. Elas desejam muito, mas não têm com quem. Se levarmos a sério todos os estudos científicos, e acredito que devemos levar, só podemos concluir que estamos diante de um caso de saúde pública. Será que o Ministério da Saúde não deveria se pronunciar?

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De Cinderela a Valente: o que as histórias infantis trazem de bom? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/08/de-cinderela-a-valente-o-que-as-historias-infantis-trazem-de-bom/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/08/de-cinderela-a-valente-o-que-as-historias-infantis-trazem-de-bom/#respond Thu, 08 Feb 2018 06:00:05 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7679

(Divulgação)

Acredito que os contos de fadas tragam prejuízos às crianças. O mais grave é a ideia de que as mulheres, como em Cinderela, só podem ser salvas da miséria, ou melhorar de vida, por meio da relação com um homem. As meninas vão aprendendo, então, a ter fantasias de salvamento, em vez de desenvolver suas próprias capacidades e talentos.

Entretanto, as mentalidades estão mudando. É o que mostra novos desenhos animados em que as personagens femininas são fortes e independentes, e de forma alguma buscam encontrar um homem para viver um romance e que dê significado à sua vida. “Nosso destino está dentro de nós, você só precisa ser valente o bastante para vê-lo”. Está sentença da personagem Merida, sintetiza o argumento da animação Valente, dos Estúdios Disney.

Merida é uma princesa escocesa, filha do rei Fergus. Sua mãe, a rainha Elinor, busca adaptá-la aos padrões que a sua estatura dentro do Reino exige. Tenta lhe ensinar boas maneiras, a história do reino, lições para que se torne uma boa rainha, e espera que ela se case. Mas a princesa Merida é diferente; não quer se casar e nem ser igual à sua mãe. Ela quer poder viver o seu próprio destino, e não aquele que a mãe e as outras pessoas do reino esperam dela.

Apreende as habilidades, que só os homens exercitam naquelas paragens e época. A habilidade, por exemplo, com o Arco e Flecha. Todos os jovens do reino querem ganhar o seu coração e tornarem-se reis ao se casarem com ela. É criado um campeonato de arco e flecha para escolher o indicado, mas, após vários atiradores chegarem perto do centro do alvo, é Merida quem faz o melhor acerto.

Nesse sentido, Valente ultrapassa as narrativas tradicionais do gênero, apresentando uma jovem que não deseja encontrar o príncipe encantado e compete em pé de igualdade com os homens. O resultado positivo de toda essa mudança é que, no Ocidente, cada vez menos mulheres, se dispõem a ajustar sua imagem às exigências e necessidades masculinas.

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“Tento descobrir um meio de ganhar dinheiro, porque dependo do meu marido” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/05/tento-descobrir-um-meio-de-ganhar-dinheiro-porque-dependo-do-meu-marido/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/05/tento-descobrir-um-meio-de-ganhar-dinheiro-porque-dependo-do-meu-marido/#respond Mon, 05 Feb 2018 06:00:15 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7665

(Ilustração: Caio Borges)

“Logo que terminei a faculdade, me casei. Nunca trabalhei. Hoje, com 43 anos e três filhos, tento descobrir um meio de ganhar dinheiro, porque dependo totalmente do meu marido. Nossas brigas são sérias e frequentes. Nessas ocasiões, ele me retira o talão de cheques da conta conjunta, a chave do carro, e não me deixa dinheiro nem para o ônibus. Minha última tentativa rumo à independência econômica parecia promissora. Comecei a confeccionar camisetas de malha com estampas feitas à mão por mim. As amigas adoraram e as vendas se intensificaram. Mas, de repente, não sei o que aconteceu comigo. Uma loja encomendou um número grande de camisetas. Só que eu não consigo ter ânimo nem para comprar a malha. Acho que agora não dá mais, já passou do dia combinado para a entrega.”

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Ao contrário do homem, que é estimulado a ser independente desde que nasce, a maioria das mulheres não é criada para defender-se e cuidar de si própria. Por mais que estude e faça planos profissionais para o futuro, muitas alimentam o sonho de um dia encontrar alguém que irá protegê-la e dar significado à sua vida, não dando ênfase a uma profissão que a torne de fato independente.

Em muitos casos, o movimento de emancipação e as exigências práticas da vida não permitem que a mulher se esconda sob a proteção do pai ou marido. Mas a liberdade a assusta. Foi ensinada a acreditar que, por ser mulher, não é capaz de viver por conta própria, que é frágil, com absoluta necessidade de proteção. Muitas acreditam até que serem sustentadas é um direito que têm pelo fato de serem mulheres. Desde a infância, a mulher desenvolve uma grande dúvida interna quanto a sua competência e, quando porventura surge uma chance de conseguir independência, pode se assustar e voltar atrás.

O movimento feminista da década de 60 fez com que as mulheres se rebelassem contra o eterno papel de donas de casa e mães. Mas não são poucas as que acreditam que ser mulher significa ajustar sua imagem de acordo com as necessidades e exigências dos homens.

Contudo, as mentalidades estão mudando. Hoje, cada vez mais mulheres questionam a suposição de nossa cultura de que a verdadeira felicidade é estar envolvida com um homem. Ter ou não um homem ao lado está aos poucos deixando de ser a questão básica da vida. Mas ainda são poucas as que buscam se libertar dos papéis “femininos” a elas atribuídos. A grande maioria mantém os padrões de comportamento tradicionais, variando apenas o grau.

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Você também vive um conflito amoroso e sexual? Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas. Ela pode ser comentada aqui no blog e sua identidade não será revelada.

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Facebook censura nudez na arte, mais ou menos como na Idade Média https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/03/facebook-censura-nudez-na-arte-mais-ou-menos-como-na-idade-media/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/02/03/facebook-censura-nudez-na-arte-mais-ou-menos-como-na-idade-media/#respond Sat, 03 Feb 2018 13:20:46 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=7669

A obra “A Origem do Mundo”, do pintor francês Gustave Courbet (1818-1877), Foto: Sebastian Bozon/AFP

Um professor francês denunciou que o Facebook desativou sua conta por ele ter reproduzido uma foto da obra  A origem do mundo, do pintor francês Gustave Courbet (1818-1877), que está no Museu d’Orsay, em Paris, desde 1995. O quadro mostra o abdômen e a vulva de uma mulher em primeiro plano. O Facebook nega ter encerrado a conta do internauta por esse motivo. O tribunal francês dará o veredicto em 15 de março.

É incrível como a nudez e o sexo ainda têm tantos tabus e preconceitos. E isso também atinge a arte. Na Idade Média, por exemplo, antes de serem exibidas para o público, as estátuas tinham seus órgãos genitais tapados, ou o pênis quebrado com um martelinho especial. O Davi, de Michelangelo, antes de ser exibido em Florença, em 1504, recebeu uma folha de figueira, só retirada em 1912.

W. Reich, profundo estudioso da sexualidade humana na primeira metade do século 20, diz que o recalcamento — resultado da interiorização da repressão sexual — enfraquece o ‘Eu’ porque a pessoa, tendo que constantemente investir energia para impedir a expressão dos seus desejos sexuais, priva-se de parte de suas potencialidades.

Freud vê  três origens para o sofrimento humano: a força superior da natureza, a fragilidade dos nossos corpos e a inadequação das normas que regulam as relações mútuas dos indivíduos na família, no Estado e na sociedade. Não é difícil perceber que a doutrina de que há na nudez e no sexo algo pecaminoso é totalmente inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela vida afora.

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