Regina Navarro https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Thu, 23 May 2019 07:00:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Posição papai-mamãe é a mais comum, mas há motivos para provar outras https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/posicao-papai-mamae-e-a-mais-comum-mas-ha-motivos-para-provar-outras/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/posicao-papai-mamae-e-a-mais-comum-mas-ha-motivos-para-provar-outras/#respond Thu, 23 May 2019 07:00:36 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8631

Ilustração: Caio Borges

A posição sexual mais comum no Ocidente é aquela em que o casal fica face a face, com o homem por cima da mulher e a penetração se dá pela vagina. É a famosa posição papai-mamãe. Quando a Oceania foi descoberta, a posição natural entre os habitantes era o homem por trás, com a mulher de joelhos, apoiada nas mãos.

Os missionários que lá chegaram impuseram a posição papai-mamãe, por considerá-la universal e correta. Assim, o povo nativo a denominou de posição do missionário. Em nossa cultura cheia de tabus e proibições, as pessoas mais livres, que buscam realmente o prazer, desenvolvem variações que fogem do comportamento convencional. Mesmo porque, se o sexo não tem nada de criativo, se torna repetitivo, rotineiro e mecânico.

Desde a Antiguidade, chineses, indianos, árabes desenvolveram técnicas sofisticadas para o amor, que compõem os manuais sobre sexo. Para os chineses, muitos conhecimentos acumulados pelos taoístas foram registrados nos Livros de Almofadas, em que o prazer do sexo é visto como uma arte a ser dominada por ambos os parceiros no interesse do prazer mútuo.

A crença árabe de que o sexo é uma dádiva a ser desfrutada pelo homem e pela mulher é relatada no guia sexual O Jardim Perfumado. Mas de todos os tratados antigos sobre a arte de amar, nenhum teve tanto impacto na sociedade ocidental quanto o indiano Kama Sutra. Nele existem conselhos de como se aproximar do parceiro, instruções sobre como beijar, as carícias preliminares, inúmeras posições e técnicas para o ato sexual.

Muita gente se pergunta por que o sexo precisa de ensinamentos se é algo da natureza. Na realidade, não é necessária a aprendizagem quando se trata do sexo para procriação. Mas para quem estiver visando obter e proporcionar prazer, o sexo é um longo processo de aprendizagem.

São muito amplas nossas possibilidades sexuais. Podemos experimentar a sexualidade desde a simplicidade reprodutora de um casal de puritanos até um sexo extremamente prazeroso, capaz de nos transformar. E as melhores posições vão sendo criadas a cada momento entre as pessoas envolvidas.

Para que o sexo não seja impessoal, estereotipado, é importante que seja um ato de criação contínua, que se experimentem sempre novas sensações. É importante que haja total liberdade entre os parceiros, para que um possa comunicar ao outro suas áreas mais sensíveis e encontrar a posição que proporciona mais prazer. Acredito que o sexo só é bom de verdade quando os movimentos acompanham as sensações e cada posição desencadeia uma nova emoção.

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“Amo meu marido, mas não consigo sentir desejo por ele” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/amo-meu-marido-mas-nao-consigo-sentir-desejo-por-ele/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/amo-meu-marido-mas-nao-consigo-sentir-desejo-por-ele/#respond Mon, 20 May 2019 07:00:00 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8623

Ilustração: Caio Borges

“Tenho 24 anos, sou casada há seis anos, e não consigo mais sentir desejo sexual por meu marido. No início eu sempre queria, mas agora nem pensar. Sinto que o amo e gosto de estar com ele, mas por mais que eu tente não consigo sentir desejo. Já pensei em desistir do meu casamento, mas temos dois filhos pequenos , que adoram o pai. Isso me faz perder a coragem. O que me dói muito é saber que ele tem muito desejo por mim.”
***

O sexo é o maior problema vivido pelos casais numa relação estável —namoro ou casamento. É muito comum mulheres fazerem sexo com seus parceiros fixos sem nenhuma vontade, por obrigação. Sempre foi assim. O casamento por visar apenas à união econômica e política das famílias, nunca foi considerado lugar de prazer sexual. Acreditava-se que era algo muito sério para se misturar a emoções tão fugazes.

No século 12, havia o consenso de que entre o casal poderia haver estima, mas nunca o amor sensual, o desejo. O impulso do corpo seria a perturbação, a desordem. Contudo, as mulheres não podiam se esquivar do dever conjugal e deveriam, portanto, se dobrar às exigências do marido. Exatamente como, 800 anos depois, muitas continuam fazendo.

Até a década de 1940, a importância da atração sexual entre o casal se colocava depois de vários outros aspectos como a fidelidade, as qualidades de caráter, e principalmente da divisão das tarefas e preocupações. As mudanças começaram a ocorrer mais claramente em meados do século 20.

A valorização do amor conjugal sob todos os pontos de vista, sobretudo o sexual, começa a se manifestar. A ausência de desejo sexual só passou a chamar a atenção, e se tornar um problema, quando o amor e o prazer sexual se tornaram fundamentais na vida a dois. As expectativas não realizadas levam à frustração.

Alguns casais se amam, manifestam carinho entre eles, mas vivem juntos como se fossem irmãos. Não é raro a escassez de sexo progredir até a ausência total. Já ouvi muita gente propondo uma solução aparentemente simples: “Tem que ser criativo!” O que esquecem, nesse caso, é que o tesão é que leva à criatividade e não o contrário. Muitos têm dificuldade de entender essa situação, porque acreditam que amar uma pessoa significa naturalmente sentir desejo sexual por ela.

A questão é que pode haver prazer sexual pleno desvinculado de qualquer aspiração romântica, assim como é possível amar muito uma pessoa e não ter desejo sexual algum por ela. A terapeuta de casal belga Esther Perel diz: “Ironicamente, o que contribui para uma intimidade gostosa nem sempre contribui para um sexo gostoso. O aumento da intimidade afetiva muitas vezes é acompanhado por uma diminuição do desejo sexual. A desintegração do desejo parece ser uma consequência não intencional da criação de intimidade.”

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Ter um pré-candidato gay à presidência dos EUA ajuda a repensar família https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/ter-um-pre-candidato-gay-a-presidencia-dos-eua-ajuda-a-repensar-familia/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/ter-um-pre-candidato-gay-a-presidencia-dos-eua-ajuda-a-repensar-familia/#respond Fri, 17 May 2019 20:39:16 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8626

Pete Buttigieg é prefeito de uma cidade de Indiana, nos EUA, e quer ser o novo presidente norte-americano. Foto: Derek Henkle/AFP

O prefeito de uma cidade em Indiana, EUA, Pete Buttigieg, quer enfrentar Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020, pelo partido democrata. Ele é casado com outro homem, Chasten Glazman, e a visibilidade que o casal gay tem alcançado na mídia — que os mostra como uma família feliz — está contribuindo para a reflexão sobre os direitos da comunidade LGBT e também sobre que significa realmente uma família.

Com toda a mudança de mentalidade que observamos é fundamental pensarmos sobre as novas famílias. Ao contrário dos que só aceitam a “família tradicional”, a História nos mostra que ela se apresenta de várias formas.

Até mais ou menos 5 ou 6 mil anos atrás, desconhecia-se o vínculo entre sexo e procriação. Não se imaginava que os homens tivessem alguma participação no nascimento de uma criança, o que continuou sendo ignorado por milênios. A fertilidade era considerada característica exclusivamente feminina.

A ideia de casal era desconhecida. Cada mulher pertencia igualmente a todos os homens e cada homem a todas as mulheres. O casamento era por grupos. As crianças tinham vários pais e várias mães e só havia a linhagem materna. O casal só surgiu quando se passou a domesticar os animais e se descobriu, observando a fêmea que não procriava quando isolada, que o macho participava da processo.

Na Grécia, no século 5 a.C., o cidadão grego tinha a esposa — para lhe dar filhos, que se tornariam cidadãos gregos —, a concubina, a cortesã e os efebos — jovens rapazes. Antes das transformações do final do século 18, as famílias eram bem grandes — pai, mãe, tios, sobrinhos, avós —, permaneciam próximas ou, como no campo, viviam juntas no mesmo lugar. Esse tipo de família, pela força de sua união, dava segurança e proteção às pessoas.

Com a revolução industrial, o casal deixou o campo e, nos centros urbanos,  os maridos foram trabalhar em fábricas ou escritórios. Surge a família nuclear — pai, mãe e filhos—   isolada e pequena demais. Nessa nova família o homem sai para o trabalho e a mulher se fecha no espaço privado do lar, cuidando dos filhos. Mas a família nuclear não é a única organização possível ou mesmo a única forma saudável de família.

Nas últimas décadas a família foi se transformando radicalmente. Após a revolução sexual, na década 70, surgiu um novo tipo de família: pais separados que formam nova união e agregam os filhos de casamentos anteriores com os filhos do casamento atual.

Nenhum tipo de família pode realmente ser reconhecido pela exclusão de todos os outros. Portanto, não é difícil imaginar que, dentro de algum tempo, casais homossexuais — com seus filhos, adotivos ou não—, famílias de três adultos, só para citar dois exemplos, serão tão comuns e bem aceitos como qualquer outro. A nova família surge, livre de conceitos discriminatórios.

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Pênis passou a ser adorado quando homem percebeu seu papel na gravidez https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/penis-passou-a-ser-adorado-quando-homem-percebeu-seu-papel-na-gravidez/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/penis-passou-a-ser-adorado-quando-homem-percebeu-seu-papel-na-gravidez/#respond Thu, 16 May 2019 07:00:49 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8617

Ilustração: Caio Borges

Enquanto o homem acreditava que a fertilidade era característica exclusivamente feminina, havia o mito de que a vida pré-natal das crianças começava nas águas, nas pedras, nas árvores ou nas grutas, antes de serem introduzidas por um sopro no ventre de sua mãe humana. Mas quando o homem começou a domesticar os animais, percebeu surpreso que para a procriação é necessário o sêmen do macho.

O homem, enfim, descobriu seu papel imprescindível num terreno onde sua potência havia sido negada. Nessa época, há mais ou menos cinco mil anos, a fertilidade era tudo, e a fertilidade humana e a dos campos estavam estreitamente ligadas. E o homem se via transformado em fertilizador da terra. Afirmando que era seu sêmen que implantava a vida no útero da mulher, passou a considerá-la como uma simples caverna protetora.

Foi quase natural que o pênis se tornasse objeto de adoração e fé religiosa. O fenômeno do culto fálico se espalhou por todo o mundo antigo e é representado em vários monumentos em diferentes lugares.

Em alguns templos dedicados a divindades fálicas, o deus esculpido em madeira era visitado com tanta frequência por mulheres esperançosas, que não conseguiam engravidar, que o pênis se desgastava pelo manuseio, pelos beijos, fricções e sucções a que era submetido.

Para solucionar o problema, os sacerdotes fabricavam um falo, muito comprido, que emergia de um orifício entre as coxas do deus.  Quando a ponta se desgastava, eles, por trás da estátua, davam marteladas, empurrando um pouco o pênis.

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“Meu pai, com um tom de voz autoritário, perguntou: Você é ou não é homem?” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/meu-pai-com-um-tom-de-voz-autoritario-perguntou-voce-e-ou-nao-e-homem/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/meu-pai-com-um-tom-de-voz-autoritario-perguntou-voce-e-ou-nao-e-homem/#respond Mon, 13 May 2019 07:00:35 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8607  

Ilustração: Caio Borges

“Minhas lembranças sobre a consciência da condição de homem não são as melhores, embora eu saiba que não estou só. Como filho único e com muitos primos, tive pouco contato com as meninas e quando tinha ficava tímido. Acho que eu estava com uns 12 ou 13 anos quando a filha de uma amiga de minha mãe, da minha faixa de idade, mas muito “descolada” me abraçou e eu me encolhi. Meu pai e dois primos, que estavam por perto, debocharam de mim. Lembro de ter ficado trêmulo. Meu pai se aproximou e, com um tom de voz autoritário, perguntou: ‘Você é ou não é homem?’. E ordenou que eu correspondesse ao abraço. Todos riram de mim. Nunca vou esquecer o constrangimento que senti”

***

As sociedades patriarcais utilizam métodos variados para transformar um menino em “homem de verdade”, mas essa identidade masculina é adquirida com grande esforço. A menstruação da menina, no início da adolescência, não deixa dúvidas de sua identidade feminina. Nesse momento ela passa de menina a mulher. No homem, ao contrário, um processo educativo deve substituir a natureza.

Pela atividade sexual que desempenha o homem toma consciência de sua identidade e virilidade. É considerado homem quando seu pênis fica ereto e “come” uma mulher. E isso deve acontecer o mais cedo possível. De maneira explícita ou não é pressionado pelos amigos ou pelo próprio pai, às vezes de forma patética.

Várias sociedades utilizam ritos de iniciação para que o menino se afaste do mundo das mulheres e renasça homem. Esses rituais comportam três etapas bastante dolorosas: a separação da mãe e do mundo feminino; a transferência para um mundo desconhecido; a passagem por provas dramáticas e públicas.

Quando tudo é concluído, o menino é considerado um homem. Em diferentes culturas e épocas observa-se a preocupação de que os filhos sejam contaminados pelas mães. Acreditam que se não forem afastados delas, não é possível se tornarem homens adultos. Geralmente o primeiro ato de iniciação masculina é arrancar o filho da mãe entre os 7 e os 10 anos.

Os sambia da Nova Guiné anunciam o começo da iniciação dos meninos pelo som das flautas. Eles são arrancados de suas mães e levados para a floresta onde durante três dias são chicoteados até sangrar para a pele se abrir, estimulando o crescimento. As surras são dadas com folha de urtiga e eles devem sangrar pelo nariz. Só assim acreditam poder se livrar dos líquidos femininos que os impedem de se desenvolver. Depois de separados, os meninos não podem mais falar, tocar ou mesmo olhar para suas mães até atingir plenamente o estado de homem, isto é, quando se tornarem pais.

No Ocidente, onde os rituais de iniciação não são claramente definidos, a masculinidade necessita ser provada durante toda a vida de um homem, sempre havendo o risco de se ver diminuído ao nível de condição feminina. Para corresponder ao ideal masculino da nossa cultura o homem tem que rejeitar uma parte de si mesmo, lutando para não se entregar à passividade e à fraqueza.

No momento atual, estamos em pleno processo de transformação no que diz respeito à valorização da virilidade. Já é possível sentir sinais do desprestígio do machão. O homem que fica triste e chora adquire um novo valor: o do homem sensível.  No entanto, a mudança das mentalidades demora algumas vezes mais de cem anos para se concretizar, mas isso não importa, desde que se abra um espaço definitivo para a autonomia de homens e mulheres.

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Maternidade e autoestima https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/11/maternidade-e-autoestima/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/11/maternidade-e-autoestima/#respond Sat, 11 May 2019 13:40:40 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8610

Ilustração: Caio Borges

Num estudo com 410 mulheres —189 mães e 221 sem filhos — a conclusão foi: 35% das mães entrevistadas consideram sua autoestima acima da média, enquanto 21% das mulheres sem filhos pensam o mesmo. E mais: 12% das mães veem sua autoestima abaixo da média, ante as 22% sem filhos com a mesma opinião.

O condicionamento cultural é tão forte desde cedo, que chegamos à idade adulta sem saber o que realmente desejamos e o que aprendemos a desejar. Da mesma forma, a crença e os valores do grupo social em que se vive faz a pessoa se sentir valorizada, com autoestima elevada, se corresponde às expectativas sociais.

A ideia de vocação para a maternidade é bonita de se acreditar, mas tem pouco a ver com a realidade. Em todas as épocas e lugares, nos últimos cinco mil anos, foi comum o homem repudiar a mulher e se casar novamente. Para isso, não faltavam pretextos. Um dos mais convincentes era o não nascimento de um filho. Afinal, ele queria ter herdeiros, ou seja, mais braços para ajudá-lo no trabalho.

A forma como as mães se relacionavam com os filhos, nos séculos 17 e 18, deixa claro que não somente o desejo de ter filhos mas também o amor materno não são inerentes às mulheres. É um sentimento que pode ou não se desenvolver.

Naquele período, a amamentação passou a ser vista como ridícula e repugnante e não era considerado digno de uma mulher amamentar seu próprio filho. Só para se ter uma ideia, das 21 mil crianças nascidas em Paris, em 1780, menos de mil foram amamentadas pelas mães — e numa época em que não havia mamadeiras! Todas as outras foram morar com amas de leite, geralmente longe da família.

Apesar de ser difícil escapar dos modelos impostos, aumenta cada vez mais o número de mulheres que não desejam ter filhos. A rejeição aos modelos tradicionais de comportamento permite que se percebam com mais clareza os próprios desejos. Ter ou não ter filhos passa a ser uma opção individual, longe da cobrança de corresponder às expectativas criadas para a mulher. Sem que isso tenha alguma relação com a sua autoestima.

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“Gostava de sexo com minha mulher, mas meu cérebro era feminino”, diz trans https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/09/gostava-de-sexo-com-minha-mulher-mas-meu-cerebro-era-feminino-diz-trans/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/09/gostava-de-sexo-com-minha-mulher-mas-meu-cerebro-era-feminino-diz-trans/#respond Thu, 09 May 2019 07:00:39 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8604

Ilustração: Caio Borges

Conversei com uma economista e professora universitária americana, de 62 anos. Durante vários anos, ela viveu como homem e com a mulher e os três filhos. Após a cirurgia de redesignação sexual, passou a viver integralmente como mulher e trocou o nome para Rusty. Casou-se com outra mulher trans, que também havia feito a cirurgia. Na entrevista a seguir, ela relata como foi essa transformação.

Quando você decidiu fazer a transição?

Eu tinha os genitais de homem, mas no cérebro eu era mulher. Tomei a decisão de fazer a cirurgia porque não suportava mais me relacionar com as pessoas no papel de homem. Quando eu tinha mais de 40 anos, o velho desejo de ser mulher entrou novamente no meu cérebro. Eu estava tão cansada… Resolvi então me deixar livre para seguir meu caminho, encontrar meus verdadeiros desejos.

Você gostava de transar com mulher?

Sempre. Transei com muitas mulheres. Antes de entrar nesse  processo de transição, fui completamente heterossexual, atraído por mulheres. Tive, talvez, três ou quatro experiências com homens.

Sua companheira atual também fez a cirurgia de redesignação sexual. Você se considera lésbica?

Eu sou bissexual. A minha companheira é lésbica. Ela não gosta de sexo com homens.

O que você sentiu depois da cirurgia?

Num primeiro momento, a sensação é de renascimento. Uma alegria total. Meu cérebro era de mulher, a mudança foi somente nos genitais. Eu não podia mais suportar uma vida como homem. Quando todos falavam comigo como se eu fosse homem, sentia um grande ataque à minha identidade.

Como foi sua infância e adolescência?

Muitos transexuais contam que apanhavam… Eu não vivi isso. Fui atleta, tinha muitas atividades. Eu não era muito forte, mas joguei todos os esportes na escola e me esforçava para ser muito brava, em certo sentido… usava palavrões. Me esforçava para que minha voz fosse mais grave…tentava esconder isso. Eu namorava garotas. Em certas ocasiões eu gostava de me vestir de mulher.

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“Nossa vida é um verdadeiro inferno. As brigas são cada vez mais violentas” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/06/nossa-vida-e-um-verdadeiro-inferno-as-brigas-sao-cada-vez-mais-violentas/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/06/nossa-vida-e-um-verdadeiro-inferno-as-brigas-sao-cada-vez-mais-violentas/#respond Mon, 06 May 2019 07:00:47 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8589

Ilustração: Caio Borges

“Estamos casados há 14 anos, mas nossa vida é um verdadeiro inferno. As brigas se sucedem; cada vez mais violentas. Na última, a gritaria foi tanta que o síndico mandou o porteiro ligar pelo interfone para nos alertar que outros moradores estavam reclamando. Meu marido me controla, me sufoca, reclama de tudo e não admite que eu discorde dele em nada. Há vezes em que fico tão desesperada que perco o controle. O pior é que não conseguimos tomar a decisão de nos separar.”

***

A infelicidade conjugal não é nenhuma novidade. Já em 1922, nos Estados Unidos, o juiz Lindsay fez o seguinte comentário: “O casamento tal como existe é um verdadeiro inferno para a maioria das pessoas que o contraem. Isto é um fato indiscutível. Desafio a quem quer que seja a chegar a uma conclusão contrária, depois de observar a procissão de vidas arruinadas, de homens e mulheres infelizes e miseráveis, de crianças abandonadas que passam pelo meu tribunal.”

É provável que o casamento da internauta se situe no extremo desse inferno que se denomina infelicidade conjugal. Nem todos os casamentos são assim. O grau de insatisfação e infelicidade é muito variado. E na maior parte dos casos, nem tão evidente. Existem até casais que se sentem felizes com seu relacionamento, embora tudo indique que, como dizia o psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa, “a maior parte dos casamentos, durante a maior parte do tempo, são de precários a péssimos”.

Acredito que um casamento pode ser ótimo. Mas para isso é necessário haver total respeito ao outro e ao seu jeito de ser, suas ideias e suas escolhas. Nenhuma possessividade ou manifestação de ciúme que possa limitar a vida do parceiro. Poder ter amigos e programas em separado. E não haver nenhum tipo de controle da vida do parceiro.

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Como a nudez se tornou obscena na história https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/04/noivos-e-convidados-nus-no-casamento/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/04/noivos-e-convidados-nus-no-casamento/#respond Sat, 04 May 2019 07:00:57 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8591

(Foto: Arquivo Pessoal)

No próximo dia 25, em um sítio no interior de São Paulo, haverá o primeiro casamento naturista católico no Brasil. Os noivos são praticantes do naturismo já há bastante tempo e o casamento será em evento organizado pelo grupo Nós Naturistas – que congrega adeptos do naturismo e dissemina valores dessa filosofia de vida. Noivos e convidados estarão nus.

Muitos se chocam com essa notícia. Mas nem sempre a nudez foi tabu. Na Antiguidade a nudez era percebida de forma bem diferente da nossa. O conceito de obscenidade era desconhecido. Muitas vezes as imagens dos órgãos sexuais masculinos e femininos eram exageradas, mas vistas com naturalidade. Muitos santuários espalhados pelo mundo mostram representações de vulvas e falos, inclusive com deuses possuidores de falos monumentais.

Mas isso mudou. São Jerônimo (347 – 420), alguns séculos depois, afirmou que uma virgem adulta jamais devia banhar-se e, na verdade, devia envergonhar-se de ver sua própria nudez. Na Idade Média, mesmo no casamento, o nu coloca a pessoa numa situação perigosa. A representação de cônjuges nus em um leito pode ser percebida como um sinal de luxúria.

No século 19, na Inglaterra, a nudez total, por ocasião do dever conjugal, é considerada o cúmulo da obscenidade. Era comum os casais jamais terem se visto sem roupa. Há registros de camisolas com furos na altura da vagina por onde o homem penetrava a mulher. Francisco I, rei das Duas Sicílias ao visitar a exposição do Museu Nacional, em 1819, com sua esposa e filha, ficou tão envergonhado com o nu de algumas obras de arte que decidiu escondê-las numa câmara secreta, acessível apenas a pessoas de idade mais avançada e “consciência moral”.

No século 20, a descoberta do corpo está diretamente ligada ao progresso da higiene íntima. Mesmo assim as pessoas ainda não ousavam se mostrar nuas. Entre as duas guerras, as proibições da Igreja e da medicina perdem a força. Quando as mulheres começaram a usar maiôs e a andar de bicicleta, o corpo foi aos poucos se revelando.

Entretanto, a mudança de mentalidade não ocorre ao mesmo tempo para todos. Há casos de repressão à nudez e situações que mostram a aceitação cada vez maior do corpo nu como algo natural.

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Com medo da solidão, muitos casais suportam o insuportável https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/02/com-medo-da-solidao-muitos-casais-suportam-o-insuportavel/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/05/02/com-medo-da-solidao-muitos-casais-suportam-o-insuportavel/#respond Thu, 02 May 2019 07:00:23 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8585

Ilustração: Caio Borges

A dor da separação é comparada por alguns ao sofrimento diante da morte de uma pessoa querida. Romper uma relação é resultado de um processo lento, muitas vezes inconsciente. Um desgaste cotidiano, que vai liquidando o prazer de viver junto.

Mas a percepção de que o casamento traz mais frustrações do que alegrias é uma conclusão difícil. Muitas vezes tenta-se rejeitar os motivos que levam à separação, movidos pelas expectativas depositadas na vida a dois.

Apesar de a prática de se separar se tornar cada vez mais comum, poucos vivem a relação amorosa como algo temporário, enquanto for satisfatório para ambos. Concretizar uma separação não é nada fácil, na medida em que a vida a dois induz a uma relação de dependência emocional.

É comum então se negar os aspectos insatisfatórios e permanecer junto um tempo muito maior do que o desejado. Temendo a solidão, muitos suportam o insuportável para manter o vínculo, e não raro se tornam dois estranhos que ocupam o mesmo espaço físico.

Desde cedo somos levados a acreditar que a vida só tem graça se encontrarmos um grande amor. Se acontece, a expectativa é a de que vamos nos sentir completos para sempre. Isso é impossível, evidente, mas as pessoas se esforçam para acreditar e só desistem depois de fazer muitas concessões desnecessárias. Acabam se separando quando suportar as frustrações deixa de ser possível.

Para o filósofo francês Pascal Brukner “a vida a dois não é nenhum maratona em que se deva aguentar o maior tempo possível e, de outro, o importante é a qualidade dos vínculos, que devemos saber romper quando se degradam. A brevidade não é um crime, assim como a persistência nem sempre é uma virtude: certos encontros fugazes podem ser uma obra-prima da concisão, deixando marcas para sempre, e convívios de meio século se revelarem, às vezes, torturas de tédio e renúncia.”

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