Regina Navarro https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Thu, 18 Oct 2018 07:00:34 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Dependência emocional e amor se confundem; é o seu caso? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/18/dependencia-emocional-e-amor-se-confundem-e-o-seu-caso/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/18/dependencia-emocional-e-amor-se-confundem-e-o-seu-caso/#respond Thu, 18 Oct 2018 07:00:34 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8229

Ilustração: Caio Borges

A dependência emocional entre um casal é encarada por todos com naturalidade porque se confunde com amor. Essa dependência que se tem do outro pode levar as pessoas a continuarem juntas, acomodadas, dando a impressão de estarem anestesiadas. E quando alguém fica junto por hábito ou dependência emocional, não é raro desencadear um sentimento de ódio pelo outro, mesmo que inconsciente.

Para o psicoterapeuta americano Scott Peck, um erro comum sobre o amor é a ideia de que dependência é amor. Ele considera esse um conceito equivocado com o qual os psicoterapeutas se confrontam diariamente. O seu efeito verifica-se de um modo mais dramático em indivíduos que tentam ou ameaçam se suicidar ou se tornam deprimidos em reação à rejeição ou a uma separação do cônjuge ou de um amante.

Essa pessoa diz “Eu não quero viver, eu não posso viver sem o meu marido (mulher, namorada, namorado), eu amo-o tanto”. Quando Peck responde, como faz frequentemente, “Isso é um erro, não ama o seu marido (mulher, namorado, namorada)”, “O que é que quer dizer?” é a pergunta em tom irritado do paciente, “Acabei de lhe dizer que não posso viver sem ele (ou ela)”.

O psicoterapeuta tenta explicar, “o que me descreve é parasitismo, não amor. Quando precisa de outra pessoa para sua sobrevivência, é um parasita dessa pessoa. Não existe escolha nem liberdade na sua relação. É mais uma questão de necessidade do que de amor. O amor é o exercício da escolha livre. Duas pessoas sentem amor uma pela outra apenas quando são capazes de viver uma sem a outra mas escolhem viver uma com a outra.”

A dependência seria definida como a incapacidade de se sentir realizado ou de agir adequadamente sem a certeza de que se é motivo de cuidado para outra pessoa. A dependência em adultos fisicamente saudáveis é sempre uma manifestação de um problema emocional. Por fim, se continuam na terapia, todos os casais aprendem que a verdadeira aceitação da sua própria individualidade e da do outro e a independência são as únicas fundações sobre as quais se pode basear um relacionamento amoroso adulto.

]]>
0
“Desde que quis me divorciar, minha ex sabota o convívio com nossas filhas” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/15/desde-que-quis-me-divorciar-minha-ex-sabota-o-convivio-com-nossas-filhas/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/15/desde-que-quis-me-divorciar-minha-ex-sabota-o-convivio-com-nossas-filhas/#respond Mon, 15 Oct 2018 07:00:56 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8220

Ilustração: Caio Borges

“Sou engenheiro, tenho 43 anos, e desde que me separei, há três anos, pago um preço alto; a minha vida virou um inferno. Eu e minha mulher vivíamos mal, as brigas eram constantes, parecíamos dois inimigos sob o mesmo teto. Nossas duas filhas eram testemunhas do rancor que havia entre nós. Pedi o divórcio e ela reagiu muito mal. Tenta sabotar de todas as formas meu contato com as meninas. A cada 15 dias é uma batalha para conseguir estar com elas. Não quero desistir delas, porque as amo demais.”

***

Não tenho dúvida de que o divórcio é, muitas vezes, a melhor opção, apesar de geralmente ser um período bem difícil. Há ainda uma agravante: a sensação de fracasso, já que desde criança todos aprendem que o casamento é o lugar onde uma pessoa pode se realizar afetivamente. Acrescente-se a isso a baixa autoestima que ocorre nessas situações e as inseguranças pessoais que reaparecem. O resultado são separações em que a hostilidade e o ódio pelo outro chegam a níveis extremos. E isso pode ocorrer com qualquer um, independente do sexo.

O outro aspecto, que já deveria estar sendo discutido mais amplamente, é a situação do homem atual. Muitos passaram a questionar a identidade masculina, desejosos de se libertar dos papéis tradicionais a eles atribuídos. Não mais subjugados ao mito da masculinidade, acreditando na igualdade entre os sexos, buscam uma vida afetiva com suas parceiras livres de obrigações e cobranças, que só servem para impedir uma relação verdadeira com elas. Mas nem todas as mulheres se deram conta disso.

Muitas continuam alimentando a mesma forma de pensar e agir de sempre: a mulher é frágil, desamparada, necessitando desesperadamente de um homem ao lado, que lhe dê amor e proteção e, mais do que tudo, que dê um significado à sua vida. Ao mesmo tempo em que qualquer homem é visto como perigoso, sempre disposto a enganar.

Dentro dessa ótica, a separação é percebida como um ataque, merecendo, portanto, ser revidado. O simples fato de um homem não desejar mais a continuidade do casamento o transforma de imediato no déspota opressor, tão conhecido na história do patriarcado. Com os estereótipos masculinos falando mais alto, surge o desejo de vingança. E para que ela tenha êxito, não se pode aceitar que a meta de todos deveria ser a busca de uma vida realmente satisfatória.

É certo que a mudança das mentalidades demora algumas vezes mais de cem anos para se concretizar, mas isso não importa, desde que se abra um espaço definitivo para a autonomia de homens e mulheres. Enquanto isso, sorte de quem tem coragem para aproveitar este momento, em que, felizmente, a culpa e os sacrifícios estão sendo substituídos pela possibilidade de prazer.

]]>
0
Ciúme sem limite levou mulher a agredir mesária. Por quê? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/12/ciume-sem-limite-levou-mulher-a-agredir-mesaria-por-que/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/12/ciume-sem-limite-levou-mulher-a-agredir-mesaria-por-que/#respond Fri, 12 Oct 2018 14:10:07 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8223 No domingo passado, numa sessão eleitoral, na cidade de Arapongas (PR), uma mulher agrediu a mesária e foi presa. O motivo? A vítima pegou na mão do marido da ciumenta para registrar a biometria e foi agredida com socos no rosto e no corpo. Agora, a agressora responde por lesão corporal.

Muitos reeditam a mesma forma primária de vínculo com a mãe, fazendo com que o antigo medo infantil de ser abandonado reaparece.  Se o amor é a solução de todos os problemas e se o convívio amoroso é a única forma de atenuar o desamparo, a pessoa amada se torna imprescindível. Não se pode correr o risco de perdê-la. O controle, a possessividade e o ciúme passam, então, a fazer parte do amor.

Nesses casos, o desejo de uma vida livre fica em segundo plano, sufocado pelas inseguranças pessoais que privilegiam esse mecanismo de controle. Como são poucos os que se sentem autônomos, observa-se uma busca generalizada de vínculos amorosos que permitam aprisionar o parceiro, mesmo que seja à custa da própria limitação.

Há alguns anos entrevistei várias pessoas sobre o ciúme. Selecionei uma das respostas, que me parece bem interessante.

“O ciúme é um produto da opacidade do outro. O outro é sempre opaco pra nós. Eu não tenho a menor ideia do que você está pensando de mim nesse momento, e vice-versa. Em suma: você não tem acesso à minha subjetividade, nem eu à sua. A relação entre dois seres é marcada pela ausência de garantia. Por maior que seja a prova de amor dada, ela pode não ser verdadeira. Essa possibilidade de falsear é que é a mola do ciúme. Ciúme é a contrapartida da ausência de garantia.” (Luiz Alfredo Garcia-Roza – escritor e professor de Filosofia)

]]>
0
Sem medo da solidão: o futuro aponta para uma nova forma de estar só https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/11/sem-medo-da-solidao-o-futuro-aponta-para-uma-nova-forma-de-estar-so/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/11/sem-medo-da-solidao-o-futuro-aponta-para-uma-nova-forma-de-estar-so/#respond Thu, 11 Oct 2018 07:00:01 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8216

Ilustração: Caio Borges

Na nossa cultura existe a crença de que para viver bem é necessário ter um par amoroso fixo e estável. A busca então da “alma gêmea” se torna incessante e, muitas vezes, desesperada. Mas muitos já estão se livrando dessa crença. O futuro aponta para uma nova forma de estar só.

Mais pessoas vão perceber que viver sozinho não significa solidão. Contudo, a condição essencial para ficar bem sozinho é o exercício da autonomia pessoal. Isso significa, além de alcançar nova visão do amor e do sexo, se libertar da dependência amorosa exclusiva e “salvadora” de alguém.

O caminho fica livre para um relacionamento mais profundo com os amigos, com crescimento da importância dos laços afetivos. É com o desenvolvimento individual que se processa a mudança interna necessária para a percepção das próprias singularidades e do prazer de estar só.

“O que caracteriza e diferencia a amizade do amor não é a inexistência de trocas eróticas. Estas poderiam até existir nas amizades, se não tivéssemos a mentalidade que temos a respeito do que pode ou não ser feito em termos sexuais”, me disse certa vez o psicoterapeuta e escritor Flávio Gikovate. Ao afastarmos a ideia da fusão com o outro poderemos estabelecer um relacionamento afetivo e sexual mais sofisticado do que o amor romântico e apropriado a esse futuro de pessoas sós e autônomas.

Pela primeira vez na história humana, algumas pessoas de países ocidentais começaram a escolher seus parentes, criando uma nova rede de parentesco baseada na amizade, e não no sangue. Segundo a antropóloga americana Helen Fisher, as associações são compostas de amigos. Os membros se falam regularmente e compartilham suas vitórias e dificuldades.

Quando um adoece, os outros cuidam dele. Essa rede de amigos é considerada como uma família, que Fisher acredita poderá gerar novos termos de parentesco, novos tipos de política de seguro, novos parágrafos nos planos de saúde, novos acordos de aluguel, novos tipos de desenvolvimento de moradia e muitos outros planos legais e sociais.

 

 

]]>
0
“Pensei que me livraria de um marido autoritário me separando. Me enganei” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/08/pensei-que-me-livraria-de-um-marido-autoritario-me-separando-me-enganei/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/08/pensei-que-me-livraria-de-um-marido-autoritario-me-separando-me-enganei/#respond Mon, 08 Oct 2018 07:00:59 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8206

Ilustração: Caio Borges

“Tenho 36 anos, um filho de oito, e estou separada há dois anos. Até eu me decidir pela separação, o processo foi bem difícil, mas acreditei que a partir de então estaria livre de um marido déspota. Hoje, vejo como me enganei.  Trabalho muito, mas não consigo arcar sozinha com o aluguel, colégio do filho, plano de saúde e todas as outras despesas. Isso significa que sou obrigada a me comunicar com ele. A minha vida está um inferno. Qualquer coisa que lhe desagrade é pretexto para desaparece no final do mês, sem pagar a metade da despesa, e me deixar cheia de dívidas. Quando reaparece é pra me controlar o tempo todo. Não posso namorar nem trazer amigos em casa.”

***

Desde cedo somos levados a acreditar que a vida só tem graça se encontrarmos um grande amor. Se acontece, a expectativa é a de que vamos nos sentir completos para sempre, nada mais nos faltando. Isso é impossível, evidente, mas as pessoas se esforçam para acreditar e só desistem depois de fazer inúmeras concessões inúteis.

E quando a frustração se torna insuportável, então se separam.  Em alguns casos o ódio surgido entre o casal resulta do sentimento de ver traída a expectativa que tanto alimentaram.  Imaginavam que através da relação amorosa se colocariam a salvo do desamparo, e que encontrariam a mesma satisfação que tinham no útero da mãe, quando os dois eram um só.

Além disso, deixar de ser amado ou desejado afeta a autoestima, e as inseguranças reaparecem. A pessoa se sente desvalorizada, duvidando de possuir qualidades. E para piorar tudo, na maioria dos casamentos, homens e mulheres abrem mão da liberdade e da independência, tornando-se mais frágeis em caso de ruptura.

Assim, o parceiro rejeitado não é o único a sofrer.  Quem não deseja mais permanecer junto, tem que, muitas vezes, limitar a própria vida para não provocar situações constrangedoras por conta das mágoas do ex parceiro.

 

]]>
0
É possível encontrar o amor depois dos 80 anos https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/06/e-possivel-encontrar-o-amor-depois-dos-80-anos/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/06/e-possivel-encontrar-o-amor-depois-dos-80-anos/#respond Sat, 06 Oct 2018 13:35:44 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8210

Sob o título “Amor após os 80”, o jornal espanhol El País publicou matéria ilustrada por varias fotos de idosos em suas camas, sós ou acompanhados. As imagens retratam momentos de contentamento por estarem com alguém ao lado ou em contato via celular. Pessoas comuns contam como se conheceram. Selecionei dois casos.

Bartolo, que enviuvou após chegar aos 80 anos e se desesperou, pensou em suicídio, mas finalmente, encontrou uma companheira por via de um programa de TV. Carmem, de 81 anos recebeu dele o apelido de “o remédio”. Em seu primeiro encontro, ela sugeriu a ele que tomasse uma ducha. Ao sair do banho, Carmen o esperava nua. “Estava há oito anos e meio sem ter relações sexuais e quando ele me encostou tive um choque”, lembra ela. Ela não fazia sexo há oito anos. Estão juntos desde então.

Encarnación, também viúva com mais de 80 anos, confessa que possui desejo por sexo como uma garota de 15. Também num programa de TV para amor entre idosos encontrou um namorado. Ele lhe perguntou se ela possuía “pelinhos lá embaixo” e ela sugeriu que ele não se excedesse tão rápido.

Muitos estranham que pessoas nessa idade sintam desejo sexual, mas não há limite de idade para a prática de sexo segundo os principais estudos sobre o tema, mas sobram preconceitos contra a velhice — os idosos seriam improdutivos, incapazes de mudanças, senis. Isso os levariam a serem considerados assexuados, como se sexo e juventude fossem sinônimos. Por essa lógica, o homem estaria condenado à impotência e a mulher, após a menopausa, não se interessaria mais pelo assunto.

Para o antropólogo francês Michel Bozon, o prolongamento da vida sexual até idades mais avançadas é uma mudança marcante das últimas décadas do século 20. O aumento da expectativa de vida, com boa saúde, à difusão do ideal de juventude e à possibilidade de os mais velhos aproveitarem tanto a sociabilidade quanto os lazeres autônomos, não os limita mais a frequentar apenas a própria família. A autonomia cada vez maior dessas pessoas faz com que os preconceitos tradicionais contra a sexualidade na velhice recuem. E satisfação dos mais velhos em relação à sua vida sexual também aumentou bastante.

Não é difícil imaginar que o aumento da longevidade, aliado aos avanços da medicina e a novas técnicas de reposição hormonal para a mulher e medicamentos para manter a ereção do homem, conduz ao desenvolvimento de uma nova mentalidade quanto ao sexo praticado por pessoas idosas, até aquelas com bem mais de 70 anos.

]]>
0
Medo da solidão, que acomete casados e solteiros, é como estar acorrentado https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/04/medo-da-solidao-que-acomete-casados-e-solteiros-e-como-estar-acorrentado/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/04/medo-da-solidao-que-acomete-casados-e-solteiros-e-como-estar-acorrentado/#respond Thu, 04 Oct 2018 07:00:05 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8203

Ilustração: Caio Borges

Somente a partir da década de 1940 passamos a associar mais intimamente casamento a amor. A entrada do amor romântico fez do casamento o meio para as pessoas realizarem suas necessidades afetivas, sendo a sociedade ocidental a única a assumir o risco de ver esse tipo de união ser estabelecido sobre o amor de um casal.

Imagina-se que assim se alcançará uma complementação total, que as duas pessoas se transformarão numa só, que nada mais irá lhes faltar e, para isso, fica implícito que cada um espera ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro. Em pouco tempo essas expectativas se mostram incompatíveis com a realidade, e as frustrações vão se acumulando. Não podia ser de outra forma, o amor é uma emoção e o casamento é um compromisso, uma instituição com leis, regras e normas.

O historiador inglês Theodore Zeldin afirma que o medo da solidão assemelha-se a uma bola e uma corrente que, atados a um pé, são um obstáculo à vida plena, tal e qual a perseguição, a discriminação e a pobreza. Se a corrente não for quebrada, para muitos a liberdade continuará um pesadelo.

Segundo ele, a crença mais gasta, pronta para a lixeira, é que os casais não têm em quem confiar salvo neles próprios, o que é tão infundado quanto a crença de que a sociedade condena os indivíduos à solidão. Na realidade, existe tanta solidão entre os casados quanto entre os solteiros, e de qualquer modo ela não é uma praga moderna. Os hindus dizem, em um dos seus antigos mitos, que o mundo foi criado porque o Ser Original se sentia solitário.

Aceitar isso talvez seja o primeiro passo para relacionamentos amorosos mais ricos e criativos, longe da expectativa de que o outro nos livre da condição de seres solitários. O terapeuta e escritor Roberto Freire não tem dúvida de que risco é sinônimo de liberdade e que o máximo de segurança é a escravidão.

Freire acredita que a saída é vivermos o presente através das coisas que nos dão prazer. A questão, diz ele, é que temos medo, os riscos são grandes e nossa incompetência para a aventura nos paralisa. Entre o risco no prazer e a certeza no sofrer, acabamos sendo socialmente empurrados para a última opção.

]]>
0
“Não tenho namorado, apenas casos esporádicos. Isso me frustra” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/01/nao-tenho-namorado-apenas-casos-esporadicos-isso-me-frustra/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/10/01/nao-tenho-namorado-apenas-casos-esporadicos-isso-me-frustra/#respond Mon, 01 Oct 2018 07:00:59 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8196

Ilustração: Caio Borges

“Tenho 26 anos e meu único namoro acabou há quatro anos. Desde então não tive nenhum outro namorado fixo, apenas casos esporádicos. Acabo sempre frustrada. Não desisto da ideia de que tenho que encontrar o homem da minha vida, aquele que vai me amar, proteger e me dar segurança. Quero me casar e ter filhos. Não sei o que estou fazendo de errado, mas nenhum dos meus encontros resultou numa relação legal. Acho a vida assim tão sem sentido!”

***

Ao contrário do homem, que é estimulado a ser independente desde que nasce, a maioria das mulheres não é criada para defender-se e cuidar de si própria. Quando adolescente, continua sendo treinada para a dependência. Não deve sair sozinha, seus horários são mais controlados, é cobrada a permanecer mais tempo em casa.

Por mais que estude e faça planos profissionais para o futuro, alimenta o sonho de um dia encontrar alguém que irá protegê-la e dar significado à sua vida, não dando ênfase a uma profissão que a torne de fato independente. O principal objetivo para a maioria continua sendo o casamento, visto como insubstituível fonte de segurança.

Em muitos casos, o movimento de emancipação e as exigências práticas da vida não permitem que a mulher se esconda sob a proteção do pai ou marido. Mas a liberdade a assusta. Foi ensinada a acreditar que, por ser mulher, não é capaz de viver por conta própria, que é frágil, com absoluta necessidade de proteção. Muitas acreditam até que serem sustentadas é um direito que têm pelo fato de serem mulheres. E para essas, ser mulher significa ajustar sua imagem de acordo com as necessidades e exigências dos homens.

 

]]>
0
Casamento e exclusividade sexual https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/09/29/casamento-e-exclusividade-sexual/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/09/29/casamento-e-exclusividade-sexual/#respond Sat, 29 Sep 2018 14:36:27 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8199

(Foto: Getty Images)

Na Índia, a lei permitia até cinco anos de prisão para qualquer homem que tivesse relações sexuais com uma mulher casada sem o consentimento do seu marido.

As mulheres não tinham autorização para apresentar nenhum tipo de ação por adultério, nem poderiam ser julgadas responsáveis por esse motivo — a questão era sempre relacionada aos homens.

A Corte Suprema da Índia descriminalizou agora o adultério, apesar de considerá-lo um motivo legítimo para o divórcio.

Não existe cultura em que o adultério seja desconhecido, e parece não haver nada que consiga fazê-lo deixar de existir. É impressionante que apesar de todas as punições, homens e mulheres, de qualquer época e de qualquer lugar, se envolvam em relações extraconjugais.

Com tanto em jogo, é difícil entender como se arriscam a praticar sexo fora do casamento. Isso, parece ser irresistível como uma droga. Tão irresistível a ponto de as pessoas se arriscarem a serem mutiladas e/ou executadas.

A antropóloga americana Helen Fisher acredita que homens e mulheres têm prazer na variedade sexual: “Naquelas sociedades que não têm padrões duplos nas questões sexuais, e em que são permitidas várias relações, as mulheres utilizam tão ansiosamente suas oportunidades quanto os homens.”

O pesquisador Alfred Kinsey concordava: “Mesmo naquelas culturas que tentam com mais rigor controlar o coito extraconjugal feminino, está absolutamente claro que tal atividade ocorre, e em muitos casos ocorre com considerável regularidade.”

Apesar de nosso tabu cultural contra a infidelidade na nossa cultura, são muito comuns as relações extraconjugais. Todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, religião – nos estimulam a investir nossa energia sexual em uma única pessoa.

Mas na prática uma porcentagem significativa de homens e mulheres casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros.

Durante muito tempo se acreditou que só os homens tinham relações múltiplas. Mas quando surgiu a pílula, e as mulheres entraram no mercado de trabalho, houve uma mudança no comportamento feminino.

O psicólogo italiano Willy Pasini diz que o cenário não é mais o mesmo, e que hoje o remorso da mulher quase desapareceu completamente. As pesquisas confirmam isso, como a do New York Post que concluiu que nove entre 10 mulheres não nutrem qualquer tipo de sentimento de culpa.

]]>
0
Por que é difícil falar contra a exclusividade sexual obrigatória? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/09/27/por-que-e-dificil-falar-contra-a-exclusividade-sexual-obrigatoria/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2018/09/27/por-que-e-dificil-falar-contra-a-exclusividade-sexual-obrigatoria/#respond Thu, 27 Sep 2018 07:00:23 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8193

Ilustração: Caio Borges

Trocar ideias a respeito de exclusividade sexual não é simples; provoca a ira dos conservadores e preconceituosos e ataques de todos os tipos. Essa discussão só será realmente possível quando a fidelidade deixar de ser um imperativo.

O psicoterapeuta e escritor inglês Adam Phillips considera que “a infidelidade é o problema que é porque assumimos a monogamia como algo indiscutível; como se fosse a norma. Talvez devêssemos pensar na infidelidade como o que não precisa se justificar, assumi-la com uma naturalidade sem mortificações, para termos condições de refletir sobre a monogamia. Podemos crer que partilhar seja uma virtude, mas parecemos não acreditar em partilhar aquilo que mais valorizamos na vida: nossos parceiros sexuais.”

O amor romântico defende a ideia de que quem ama só tem olhos para o amado, não se interessa por mais ninguém. Isso não é verdade, mas muitos acreditam e quando descobrem que seu parceiro se relacionou com outra pessoa, concluem que não são amados.

“Tão arraigada é nossa fé na monogamia que a maioria dos casais, sobretudo heterossexuais, raramente toca abertamente no assunto. Não tem necessidade de discutir o que é um dado. Preferimos matar uma relação que questionar sua estrutura.”, diz a terapeuta de casais belga Esther Perel.

Na nossa cultura,  muitos defendem a exclusividade sexual. Mesmo entre os psicoterapeutas parece predominar a ideia de que maturidade emocional é ter um par amoroso estável, duradouro e exclusivo. A não exclusividade é muitas vezes interpretada como temor da intimidade, de aprofundar a relação. Penso ser fundamental uma reflexão sobre essa questão que gera tanto sofrimento.

]]>
0