Regina Navarro https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Fri, 22 Feb 2019 07:00:28 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 A cada 16 horas há uma morte por homofobia no país; de onde vem esse ódio? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/22/a-cada-16-horas-ha-uma-morte-por-homofobia-no-pais-de-onde-vem-esse-odio/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/22/a-cada-16-horas-ha-uma-morte-por-homofobia-no-pais-de-onde-vem-esse-odio/#respond Fri, 22 Feb 2019 07:00:28 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8441

Foto: Getty Images

Uma pesquisa somou as denúncias de assassinato da população LGBT registradas entre 2011 e 2018 pelo Disque 100 (um canal criado para receber informações sobre violações aos direitos humanos), pelo Transgender Europe e pelo GGB (Grupo Gay da Bahia), totalizando 4.422 mortos no período. Isso equivale a 552 mortes por ano ou uma vítima de homofobia a cada 16 horas no país.

Num estudo, realizado há três anos, com profissionais LGBT, entre 18 e 50 anos, de 14 estados brasileiros, 40% dos entrevistados disseram que já sofreram discriminação direta. E todos relataram ter sofrido discriminação velada no trabalho. Por medo de serem discriminados, demitidos ou terem sua capacidade profissional colocada em xeque, muitos profissionais preferem manter em segredo sua orientação sexual.

Enquanto na Grécia Clássica, há 2500 anos, a homossexualidade era tão valorizada a ponto de ter sido criado o Batalhão Sagrado de Tebas – quadro de tropas de choque composto inteiramente de casais homossexuais –, nos 2 mil últimos anos ela foi considerada pecado, crime e, a partir do século 19, doença.

Apesar de, hoje, a homossexualidade não ser mais considerada doença — em 1973, a Associação Médica Americana a retirou dessa categoria —, a discriminação continua, sendo os gays hostilizados e agredidos. A homofobia deriva de um tipo de pensamento que equipara diferença a inferioridade.

Alguns estudos indicam que os homofóbicos são pessoas conservadoras, rígidas, favoráveis à manutenção dos papéis sexuais tradicionais. Quando se considera, por exemplo, que um homem homossexual não é homem, fica clara a tentativa de preservação dos estereótipos masculinos e femininos, típicos das sociedades de dominação que temem a igualdade entre os sexos.

A homofobia reforça a frágil heterossexualidade de muitos homens. Ela é, então, um mecanismo de defesa psíquica, uma estratégia para evitar o reconhecimento de uma parte inaceitável de si. Dirigir a própria agressividade contra os homossexuais é um modo de exteriorizar o conflito e torná-lo suportável.

E pode ter também uma função social: um heterossexual exprime seus preconceitos contra os gays para ganhar a aprovação dos outros e assim aumentar a confiança em si mesmo.

Há ainda outro motivo possível. Estudo feito por pesquisadores da Universidade Brock, de Ontario, no Canadá, concluiu que adultos de baixo QI ou com dificuldades cognitivas são mais conservadores e preconceituosos (racismo, homofobia, machismo etc). O estudo foi publicado pela revista Psychological Science.

Por mais que se denuncie o absurdo que o ódio e a frequente agressão aos gays representam, a homofobia não deixará de existir num passe de mágica. Seu fim depende da queda dos valores patriarcais que, já em curso, vem trazendo nova reflexão sobre o amor e a sexualidade.

Caminhamos para uma sociedade de parceria, e se nela o desejo de adquirir poder sobre os outros não for preponderante, a homossexualidade deixará de ser tratada como anomalia, passando a ser percebida como expressão normal da sexualidade, apenas diferente da maior.

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Orgasmo feminino foi aceito há pouco tempo e isso ainda prejudica a mulher https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/21/orgasmo-feminino-foi-aceito-ha-pouco-tempo-e-tabu-ainda-prejudica-a-mulher/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/21/orgasmo-feminino-foi-aceito-ha-pouco-tempo-e-tabu-ainda-prejudica-a-mulher/#respond Thu, 21 Feb 2019 07:00:27 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8437

Ilustração: Caio Borges

O orgasmo, do grego orgasmós, de orgân, ferver de ardor, é definido como o mais alto grau de excitação sexual e portanto o prazer físico mais intenso que um ser humano pode experimentar. Durante longos séculos a mulher foi privada desse prazer, já que o orgasmo feminino não está vinculado à procriação.

Até meados do século 19, quando o amor ainda não fazia parte do casamento, havia uma regra para a vida do casal. Era o dever conjugal a ser cumprido, principalmente na cama. Caso um dos dois cônjuges recusasse o ato sexual, recorria-se ao confessor que censurava e podia negar a absolvição e a comunhão.

Na era vitoriana, há 150 anos, o prazer sexual das mulheres era inaceitável. A falta de desejo sexual era um importante aspecto da feminilidade. O ponto de vista oficial da época foi bem expresso por Lord Acton, famoso médico inglês, que escreveu: “Felizmente para a sociedade, a ideia de que a mulher possui sentimentos sexuais pode ser afastada como uma calúnia vil.”

Num compêndio para esposas e mães zelosas, escrito em 1840, o conceito vitoriano da função da mulher é estabelecido com clareza: “A função peculiar da mulher é zelar com paciente assiduidade em torno da cama dos doentes; vigiar os frágeis passos da infância; informar aos jovens os elementos do conhecimento e abençoar com sorrisos os amigos que se estão consumindo no vale de lágrimas.”

O neuropsiquiatra alemão Krafft-Ebing, estudioso da patologia sexual, encarava a sexualidade como uma espécie de doença repugnante.  Sobre as mulheres ele era categórico: “Se ela for normalmente desenvolvida e mentalmente bem criada, seu desejo sexual será pequeno. Se assim não fora, o mundo todo se transformaria num prostíbulo e o casamento e a família, impossíveis. Não há dúvida de que o homem que evita as mulheres e a mulher que busca os homens são anormais.”

Em meados do século 20, o orgasmo feminino passou a ser admitido mas com muita cautela. A mulher que gozava sem amor era tida como ninfomaníaca, ao passo que o homem casado que frequentava os bordéis era considerado normal. Apesar de a pílula e da revolução sexual dos anos 1960/70 terem permitido que a mulher se tornasse mais livre no sexo, com tanto tempo de repressão não é difícil entender porque 2/3 delas não conseguem atingir o orgasmo.

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“Não suporto viver sozinha. Não vejo sentido nenhum na minha vida” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/18/nao-suporto-viver-sozinha-nao-vejo-sentido-nenhum-na-minha-vida/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/18/nao-suporto-viver-sozinha-nao-vejo-sentido-nenhum-na-minha-vida/#respond Mon, 18 Feb 2019 07:02:57 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8422

“Estou casada há oito anos e tenho três filhos. Há algum tempo nosso casamento não vai bem; discutimos por qualquer motivo. De qualquer forma, nunca pensei que meu marido seria capaz de propor a separação. Ele já se mudou e não estou suportando viver sozinha. Meus filhos são adolescentes e têm suas próprias atividades; quase não param em casa. Não tenho ânimo pra nada e não vejo sentido nenhum na minha vida sem ele.”

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“Todas as vezes em que me separo, sofro muitíssimo como se tivessem me arrancado um pedaço.  Mas o que mais tenho tentado na vida é ser inteira e sozinha. Ficar em pé nas minhas próprias pernas, para que o outro não precise me dar nada, a não ser seu carinho, sua vontade de estar comigo, seu bom humor. Se ele for embora, vou sofrer, mas não vou morrer”, me disse, há alguns anos, a grande atriz Marília Pêra.

Mas nem sempre é isso o que acontece. A história da internauta é igual à de muitas pessoas que, ao encontrar um parceiro, o transformam em única fonte de interesse. Quando fracassa esse projeto amoroso, a pessoa perde o referencial na vida e sua autoestima fica abalada. A questão é que no Ocidente somos incentivados, desde muito cedo, a acreditar só ser possível encontrar a realização afetiva através da relação amorosa fixa e estável com uma única pessoa. A propaganda a favor é tão poderosa que a busca da “outra metade” se torna incessante e muitas vezes desesperada.

Se surge um parceiro disposto a alimentar esse sonho, pronto: além de se inventar uma pessoa, atribuindo a ela características que geralmente não possui, se abdica facilmente de coisas importantes, imaginando que, agora, nada mais vai faltar. E o mais grave: com o tempo passa a ser fundamental continuar tendo alguém ao lado, pagando-se qualquer preço, mesmo quando predominam as frustrações.  Não ter um par significaria não estar inteiro, ser incompleto, ou seja, totalmente desamparado.

Acredito que a condição essencial para ficar bem sozinho seja o exercício da autonomia pessoal.  Isso significa, além de alcançar nova visão do amor e do sexo, se libertar da dependência amorosa exclusiva e “salvadora” de alguém.  O caminho fica livre para um relacionamento mais profundo com os amigos, com crescimento da importância dos laços afetivos.

É com o desenvolvimento individual que se processa a mudança interna necessária para a percepção das próprias singularidades e do prazer de estar só.  E assim fica para trás a ideia básica de fusão do amor romântico, que transforma os dois numa só pessoa. E quando se perde o medo de ser sozinho, se percebe que não ter um par amoroso não significa necessariamente solidão.

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Menina ganhar festa por 1ª menstruação é um grande sinal de mudança https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/15/menina-ganhar-festa-por-1a-menstruacao-e-um-grande-sinal-de-mudanca/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/15/menina-ganhar-festa-por-1a-menstruacao-e-um-grande-sinal-de-mudanca/#respond Fri, 15 Feb 2019 14:24:04 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8432

Reprodução

Uma menina britânica de 11 anos ganhou uma festa com bolos e presentes em comemoração à primeira menstruação. Quem organizou tudo foi a mãe, que quis contribuir para que a filha abraçasse a transição sem vergonha ou preconceitos. “Quero que minha filha seja educada, confiante, forte e que não tenha vergonha do seu corpo e abrace a vida de mulher com orgulho”, declarou no seu instagram.

Essa atitude da mãe deixa claro a mudança na forma de perceber o sangue menstrual, tabu em outras épocas e culturas. Observando a História constatamos que, sendo os órgãos sexuais de mulheres e homens tão diferentes, tornam-se de alguma forma misteriosos para o outro sexo. A vagina, vista como perigo ameaçador, não é visível e suas propriedades são estranhas.

“No inconsciente e nos mitos, a vagina é representada alternadamente como uma força devoradora, devastadora, insaciável, uma caverna com dentes, que causa pesadelos e, finalmente, a morte. Esse medo quase universal é ligado ao do sangue. Primeiro, o sangue menstrual, assustador e doentio, já que é objeto de uma imensa quantidade de tabus, mas também o sangue da defloração, que se acredita trazer azar”, diz a filósofa francesa Elisabeth Badinter.

Os baruya, da Nova Guiné, assumem postura de nojo e repulsa diante da menstruação. O escoamento do seu sangue menstrual ameaça a virilidade do homem e, consequentemente, o domínio dos homens sobre a sociedade.

As mulheres baruyas, durante a menstruação ficam isoladas de seu grupo social, em tenda aparte, proibidas de tocar em alimentos ou em outras pessoas. Elas devem evitar passar por cima de qualquer objeto estendido no solo e nunca, sob pena de morte, da lareira da casa, mesmo apagada: seu sexo poderia se abrir e poluir o lugar onde ela cozinha o alimento que vai à boca do homem.

No ato sexual, é proibido a mulher ficar por cima do parceiro, pois os líquidos que enchem sua vagina poderiam espalhar-se sobre o ventre do homem. E mesmo que a mulher chupe o pênis do homem (para se alimentar do esperma benéfico) este jamais deve aproximar sua boca do sexo da mulher, que deixa escorrer líquidos maléficos. Badinter assinala que, entre os baruya, não é tanto a cavidade vaginal que é temida, mas os venenos que ela secreta.

A menina britânica, que festejou a primeira menstruação, é um sinal de que a distinção entre masculino e feminino, que tanto sofrimento causa às mulheres, caminha para o seu fim.

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O amor não existe “desde sempre”. Ele foi construído e está mudando https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/14/o-amor-nao-existe-desde-sempre-ele-foi-construido-e-esta-mudando/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/14/o-amor-nao-existe-desde-sempre-ele-foi-construido-e-esta-mudando/#respond Thu, 14 Feb 2019 06:01:24 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8425

É comum se pensar no amor como se ele nunca mudasse. A forma que amamos é construída socialmente, e em cada época e lugar se apresenta de um jeito. Crenças, valores, expectativas, determinam a conduta íntima de homens e mulheres. Podemos acompanhar sua origem, desenvolvimento e transformações observando a História.

O amor cortês, surgido no século 12, foi a primeira manifestação do amor recíproco. Ele deu origem ao amor romântico, que durante séculos não pôde fazer parte do casamento. Na Renascença, século 16, a mulher é contemplada com reverência quase religiosa, e surgem questionamentos a respeito do amor. As mulheres foram divididas entre santas e pecadoras. No Iluminismo, século 18, o amor cai em desprestígio; a Idade da Razão desprezou a emoção e insistiu que o intelecto do homem é que devia governar-lhe as ações.

No século 19, o controle das emoções foi sendo suplantado por uma atitude resumida na palavra “sensibilidade”. O amor começa aos poucos a entrar no casamento. O início do século 20, com o automóvel e o telefone, traz uma grande novidade – o encontro marcado. A partir de 1940, o amor romântico entrou no casamento para valer. Antes os casamentos ocorriam por interesses familiares. Agora, a maioria das pessoas anseia pelo amor romântico, que é específico do Ocidente.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a destruição de Hiroshima e Nagasaki, a ameaça da bomba atômica paira na cabeça dos jovens. Com o sentimento de insatisfação que isso provoca, eles começam a questionar os valores daquela sociedade e de seus pais. O advento da pílula anticoncepcional, aliado ao momento crítico, prepara o terreno para a Revolução Sexual. Estamos hoje num momento em que antigos valores estão sendo profundamente questionados.

Como em toda transição, observamos comportamentos díspares —alguns muito libertários e outros bastante conservadores. Não são poucos os que ainda temem viver de forma diferente da que estão acostumados. Afinal, o novo assusta e o desconhecido gera insegurança. Contudo, acredito que o predomínio das novas formas de amar seja apenas uma questão de tempo.

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“Meu marido se apaixonou por outra mulher e foi viver com ela” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/11/meu-marido-se-apaixonou-por-outra-mulher-e-foi-viver-com-ela/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/11/meu-marido-se-apaixonou-por-outra-mulher-e-foi-viver-com-ela/#respond Mon, 11 Feb 2019 06:02:16 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8408

(Caio Borges)

“Tenho 36 anos e acabei de me separar. Nossa relação não ia bem, já estávamos bem afastados….mas eu nunca imaginei que o pior pudesse acontecer: meu marido se apaixonou por outra mulher e foi viver com ela. Não tenho filhos, mas tenho um trabalho que sempre gostei e muitos amigos. Só que agora não tenho vontade de fazer nada e nem de ver ninguém. Acordo no meio da noite chorando….e com essa tristeza profunda passo o resto do dia.”

***

O desespero que se observa em algumas pessoas durante e após a separação se deve também ao fato de cada experiência de perda reeditar vivências de perdas anteriores. Assim, não se chora somente a separação daquele momento, mas também todas as situações de desamparo vividas algum dia e que ficaram inconscientes. Em alguns casos, o objeto do amor na verdade nada significa, mas sua falta pode ser sentida de forma dramática.

Nem todos desejam morrer quando o vínculo conjugal se rompe. Quando um dos parceiros comunica ao outro que quer se separar, aquele que de alguma forma não deseja isso pode sofrer num primeiro momento e pouco depois sentir que lucrou bastante com o fim do casamento. A aquisição de uma nova identidade — agora não mais vinculada ao ex-marido — pode proporcionar uma sensação de renascimento.

Embora a separação seja uma experiência difícil para a maioria dos casais, algumas pessoas sofrem muito, outras menos e há até quem sinta um certo alívio. Se existir a crença de que o casamento é uma união para a vida toda e de que só é possível ser feliz formando um par amoroso, o fim do casamento pode ser vivido como uma tragédia.

Se, ao contrário, o vínculo conjugal for considerado temporário — enquanto for satisfatório para ambos —, e não se buscar através dele a satisfação das necessidades infantis, a separação pode não ser simples, mas é sentida como natural e portanto as dificuldades devem ser superadas o mais rápido possível.

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O fim de um casamento é apenas a solução de um problema, não uma tragédia https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/09/o-fim-de-um-casamento-e-apenas-a-solucao-de-um-problema-nao-uma-tragedia/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/09/o-fim-de-um-casamento-e-apenas-a-solucao-de-um-problema-nao-uma-tragedia/#respond Sat, 09 Feb 2019 06:00:06 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8418  

Foto: Getty Images

O número de divórcio de pessoas com mais de 50 anos quase dobrou nos últimos 10 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Mas as pessoas com mais de 60 ou 70 também estão se divorciando.

O casamento mudou mais nos últimos 50 anos do que em todo o período de sua existência. No início do século 20, na maioria dos países ocidentais, o casamento constituía um contrato duradouro e não era permitido que fosse rompido, a não ser em casos de faltas graves cometidas por um dos cônjuges. Entre elas estavam o abandono do lar, adultério, alcoolismo e violência física.

Hoje, o fim de um casamento é apenas a solução de um problema e não uma tragédia. Um paciente, que atendi no consultório, advogado aposentado, de 73 anos, decidiu pedir o divórcio à sua mulher, com quem está casado há 38, e me disse:

“Nossa vida é muito sem graça há bastante tempo. Nós temos temperamentos diferentes. Eu quero aproveitar a vida, sair, me divertir, viajar e Estela só pensa em paparicar os netos. Sinto desejo sexual por outras mulheres, mesmo porque para a minha parece que sexo não existe. Assim, não dá. Há algum tempo penso em morar sozinho e fazer o que quiser da minha vida. Tomei coragem. Estou livre para o que der e vier.”

A auto realização das potencialidades individuais passa a ter outra importância, colocando a vida conjugal em novos termos. Acredita-se cada vez menos que a união de duas pessoas deva exigir sacrifícios. Observa-se uma tendência a não se desejar mais pagar qualquer preço apenas para ter alguém ao lado.

Surgem conflitos na tentativa de harmonizar a aspiração de individuação com uma vida a dois, mas homens e mulheres estão cada vez menos dispostos a sacrificar seus projetos pessoais.

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Por que confundir ciúme com amor pode tornar um “propriedade” do outro? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/07/por-que-confundir-ciumes-com-amor-pode-tornar-um-propriedade-do-outro/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/07/por-que-confundir-ciumes-com-amor-pode-tornar-um-propriedade-do-outro/#respond Thu, 07 Feb 2019 06:03:27 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8412

É difícil entender porque uma pessoa se comporta como dona de outra.  Há casos em que essa situação dura a vida toda do casal. Duas perguntas são inevitáveis: por que será que alguém aceita ser propriedade de outra? Por que será que alguém precisa ser o proprietário do outro?

Uma explicação possível se encontra no fato de aprendermos desde cedo a ser ciumentos nas relações amorosas. A criança tem ciúme da mãe porque se a mãe desaparecer, ela morre. É uma questão de sobrevivência. Na vida adulta, ao entrar em uma relação amorosa, a dependência infantil reaparece com bastante força.

No parceiro é depositada a certeza de ser cuidado e de não ficar só. A distância faz sentir o desamparo, da mesma forma que se sentia quando a mãe se ausentava. A dependência emocional que se estabelece torna comum depositar no outro a garantia de não ficar só. O medo da solidão e do desamparo leva à exigência de que o parceiro não tenha olhos para mais ninguém.

Há os que se iludem com a ideia de que é possível encontrar a complementação por meio da relação com outra pessoa. Mas ninguém completa ninguém. Sem perceber é comum se reeditar inconscientemente com o parceiro nossas necessidades infantis. Dessa forma, passamos a considerar o outro tão indispensável à nossa vida, que a possessividade e o cerceamento da liberdade sobrecarregam a relação.

Muitos acreditam até que o parceiro deve estar sempre pronto para suprir todas as necessidades do outro, adivinhando pensamentos e desejos. A crença de que existe alguém de quem dependemos para sermos felizes, alimenta o pavor de perdê-lo e, assim, o desejo de posse se manifesta. Por acreditar que o ciúme faz parte do amor, se aceitam os mais variados tipos de violência, atitudes que não escondem o total desrespeito à liberdade do outro.

Um não se sentir dono do outro, as pessoas saberem que estão juntas por prazer e não por qualquer outro motivo, só enriquece a relação. Além de permitir que se viva sem limitações, coisa tão rara em quem está casado ou namorando. Não tem jeito, é necessário saber com clareza como desejamos uma vida a dois.

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“Minha namorada diz não sou carinhoso nem no sexo e me cobra para mudar” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/04/minha-namorada-diz-nao-sou-carinhoso-nem-no-sexo-e-me-cobra-para-mudar/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/04/minha-namorada-diz-nao-sou-carinhoso-nem-no-sexo-e-me-cobra-para-mudar/#respond Mon, 04 Feb 2019 06:00:49 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8404

Ilustação: Caio Borges

“O meu namoro de um ano não vai nada bem. Minha namorada me cobra mais carinho físico. Não sei o que ocorre, mas nunca fui de pegar, abraçar, acariciar… Ela diz que até na hora do sexo não sou carinhoso. Talvez isso se deva à forma como fui criado. Não me lembro de um carinho do meu pai, um beijo sequer; minha mãe também sempre foi muito fria. Desde pequeno eu observava com curiosidade a relação de alguns amigos com seus familiares: beijos e abraços. Lá em casa nunca houve isso.”

***

Muitas mães rejeitam um contato mais prolongado com seus filhos com base na falsa suposição de que dessa forma eles se tornarão profundamente dependentes delas. Não são poucos os pais que evitam beijar e abraçar os filhos homens, porque temem que assim se tornem homossexuais. Mesmo dois grandes amigos se limitam a expressar afeto dando tapinhas nas costas um do outro, enquanto as amigas trocam beijinhos impessoais quando se encontram.

A pele, o maior órgão do corpo, até há pouco, foi negligenciada. Ashley Montagu, um especialista americano em fisiologia e anatomia humana, se dedicou, por várias décadas, ao estudo de como a experiência tátil, ou sua ausência, afeta o desenvolvimento do comportamento humano. A linguagem dos sentidos, na qual podemos ser todos socializados, é capaz de ampliar nossa valorização do outro e do mundo em que vivemos, e de aprofundar nossa compreensão em relação a eles.

O sexo tem sido considerado a mais completa forma de toque. Em seu mais profundo sentido, o tato é a verdadeira linguagem do sexo. É principalmente através da estimulação da pele que tanto o homem quanto a mulher chegam ao orgasmo, que será tanto melhor quanto mais amplo for o contexto pessoal e tátil.

Um ditado francês diz que uma relação sexual é a harmonia de duas almas e o contato de duas epidermes.  E por sermos criação contínua neurologicamente e podermos combinar nossa capacidade de movimento e contato com a nossa sensibilidade de pele, é possível ficar muito tempo acariciando alguém sem repetir nunca a mesma sensação.

Montagu acredita que a estimulação tátil é uma necessidade primária e universal. Ela deve ser satisfeita para que se desenvolva um ser humano saudável, capaz de amar, trabalhar, brincar e pensar de modo crítico e livre de preconceitos.

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Morta por desejar a separação https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/01/morta-por-desejar-a-separacao/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/02/01/morta-por-desejar-a-separacao/#respond Fri, 01 Feb 2019 14:26:13 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8400

A aposentada Veiguima Martins, assassinada pelo marido após pedir a separação. Foto: Reprodução/Facebook

Antes de ser esfaqueada e ter o corpo incendiado pelo marido, Veiguima Martins, de 56 anos, pretendia se separar. Em março de 2018, ela já havia prestado queixa contra o marido por violência doméstica, depois que ele a ameaçou com uma faca. O episódio teria se repetido mais de uma vez durante o casamento, que durou dez anos

Para o psicólogo americano David Buss, um refrão comum aos matadores emitido para suas vítimas ainda vivas é: “Se eu não posso ter você, ninguém pode.” As mulheres estão sob um risco maior de serem assassinadas quando realmente abandonaram a relação, ou quando declararam inequivocamente que estão partindo de vez.

Buss apresenta dados de seus estudos sobre o tema. De 1333 assassinatos de parceiras no Canadá mostra que mulheres separadas têm de cinco a sete vezes mais possibilidades de serem assassinadas por parceiros do que mulheres que ainda estão vivendo com os maridos. O tempo de separação parece ser crucial. As mulheres correm o maior risco nos primeiros dois meses depois da separação. Os primeiros meses depois da separação são especialmente perigosos, e precauções devem ser tomadas por pelo menos um ano.

Os homens nem sempre emitem ameaças de matar as mulheres que os rejeitam, claro, mas tais ameaças devem sempre ser levadas a sério. Eles ameaçam as esposas com o objetivo de controlá-las e impedir sua partida. A fim de que tal ameaça seja acreditada, violência real tem que ser levada a cabo. Os homens às vezes usam ameaças e violência para conseguir controle e impedir o abandono.

Penso ser fundamental que homens e mulheres, se quiserem viver de forma mais satisfatória, reflitam sobre como se vive o amor na nossa cultura, principalmente no que diz respeito à dependência amorosa e possessividade. Depois do crime, o criminoso passional não costuma fugir. Alguns se suicidam, morrendo na certeza de que o ser amado não pertencerá a mais ninguém.

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