Regina Navarro https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller 'A Cama na Varanda' e 'O Livro do Amor'. Thu, 19 Sep 2019 07:01:22 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Idosos são expulsos de asilo por orgia e desafiam nossa noção de sexo https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/idosos-sao-expulsos-de-asilo-o-que-isso-revela-sobre-sexualidade/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/idosos-sao-expulsos-de-asilo-o-que-isso-revela-sobre-sexualidade/#respond Thu, 19 Sep 2019 07:01:22 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8959

O prolongamento da vida sexual até idades mais avançadas é uma mudança marcante das últimas décadas do século 20. O aumento da expectativa de vida, com boa saúde, a difusão do ideal de juventude e a possibilidade de os mais velhos aproveitarem tanto a sociabilidade como os lazeres autônomos não os limita mais a frequentar apenas a própria família.

A direção do asilo Lar de Edith Scarborough, em Londres, surpreendeu a Inglaterra e o mundo ao decidir pela expulsão de um grupo de idosos. O motivo? Foram surpreendidos tentando fazer uma orgia ao som de rumba. As idades eram entre os 78 e 85 anos! Os idosos buscavam atividades mais excitantes para o ócio, mas a gerência do lar mandou-os embora…

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Entretanto, no caminho inverso, o Hebrew Home, em Nova York, um lar de idosos, incentiva relações sexuais entre seus residentes. As enfermeiras e cuidadoras do lar não tentaram impedir que Audrey Davison ficasse a sós no quarto com o colega. É a “política de expressão sexual” desse lar do Bronx.

Uma cuidadora fez até uma placa “Não perturbe” para pendurar do lado de fora do quarto. “Eu gostei, e ele foi um amante muito bom”, disse Davison, de 85 anos. “Isso fazia parte de nossa proximidade: tocar fisicamente e beijar.” Esses namorados desafiam as noções tradicionais do envelhecimento. Ainda bem.

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Como o medo de aceitar uma mudança pode nos fazer perder tudo https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/como-o-medo-de-perder-pode-nos-levar-a-perder-tudo-2/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/como-o-medo-de-perder-pode-nos-levar-a-perder-tudo-2/#respond Mon, 16 Sep 2019 07:01:03 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8940

(Caio Borges/UOL)

O psicanalista americano Stephen Grosz ilustra em seu livro como o novo assusta, gera medo, insegurança e como pode paralisar as pessoas impedindo-as de tomar uma atitude. O texto não trata da separação de um casal, mas dá para fazermos uma analogia. Grosz relata o que aconteceu com algumas pessoas que estavam no World Trade Center quando houve o ataque terrorista em 11 de setembro em 2001.

Quando o primeiro avião bateu na torre norte, Marissa Panigrosso estava no andar 98º andar, da torre sul, conversando com duas colegas de trabalho. Ela sentiu a explosão tanto quanto a ouviu. Uma golfada de ar quente atingiu-lhe o rosto, como se a porta de um forno tivesse acabado de se abrir. Uma onda de ansiedade varreu escritório. Marissa Panigrosso não parou para desligar o computador, ou mesmo para pegar sua bolsa. Rumou para saída de emergência mais próxima e saiu do prédio.

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As duas mulheres com quem conversava — incluindo a colega que compartilhava sua baia — não saíram. De fato, muitas pessoas no escritório ignoraram o alarme de incêndio, e também o que viram acontecer na torre norte, a 40 metros de distância. Algumas foram para uma reunião. Uma amiga de Marisa voltou depois de ter descido vários lances de escada. “Tenho de voltar para pegar as fotos do meu bebê “, disse ela. E nunca saiu de lá. As duas mulheres que ficaram para trás falando ao telefone e aqueles que haviam ido para a reunião também perderam a vida.

No escritório de Marissa Panigrosso, como em muitos outros escritórios do World Trade Center, as pessoas não entraram em pânico ou correram para sair. “Isso me pareceu muito estranho”, disse Marissa. “Eu perguntei à minha amiga: ‘Por que está todo mundo aí parado?’”

O que pareceu estranho a Marissa é, na verdade, a regra. Pesquisas mostraram que, quando um alarme de incêndio soa, as pessoas não agem imediatamente. Elas falam umas com as outras e tentam entender o que está acontecendo. Ficam paradas. Isso deveria ser óbvio para todos que já participaram de um treinamento de incêndio. Em vez de deixar um prédio, nós esperamos. Esperamos por mais indícios – cheiro de fumaça ou o conselho de alguém em quem confiamos. Mas há também evidências de que, mesmo com mais informação, ainda assim muitos de nós não daremos um passo.

“Após 25 anos como psicanalista, não posso dizer que isso me surpreende. Resistimos a mudança. Comprometermo-nos com uma pequena mudança, mesmo que ela seja inequivocamente do nosso interesse, é, com frequência, mais assustador que ignorar uma situação perigosa. Somos veementemente fiéis à nossa visão de mundo, nossa história. Queremos saber em que nova história estamos entrando antes de sair da velha. Não queremos uma saída se não soubermos exatamente para onde ela vai nos levar, nem mesmo – ou talvez especialmente – numa emergência. Isso é assim, apresso-me a acrescentar, quer sejamos pacientes ou psicanalistas. Hesitamos, em face da mudança, porque mudança é perda. Mas se não aceitar mais alguma mudança, podemos perder tudo.” diz Grosz.

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No Tinder, ex-dançarina mostra que pode sentir prazer depois dos 80 anos https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/14/sentir-prazer-depois-dos-80-anos/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/14/sentir-prazer-depois-dos-80-anos/#respond Sat, 14 Sep 2019 07:00:37 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8947 Reprodução/Facebook

Hattie Retroage, de 83 anos, que busca parceiros sexuais no Tinder

 

Aos 83 anos, a ex-dançarina Hattie Retroage quer mudar a visão da sociedade sobre o envelhecimento. Ela usa o Tinder para dar match com homens mais novos e já teve encontros com mais de 50 pretendentes. “O objetivo da minha vida é mudar a terrível e decrépita visão do envelhecimento e transformá-la em algo emocionante. Vou reivindicar um novo jeito de envelhecer”, declarou.

Muitas pessoas, que eram jovens e se casaram antes da liberação dos anos 1960, carregaram pela vida uma moral sexual rígida e repressora. Foram criados com uma visão do sexo, bem diferente da que se tem hoje, e havia pouco espaço para o prazer.

Naquela época, o homem, quando arranjava trabalho, procurava uma “boa moça” para se casar. Só seria escolhida a que se esforçasse para corresponder às expectativas dele e, principalmente, deixasse claro que desejo sexual não fazia parte da sua vida. Ela deveria cuidar da casa e dos filhos, cumprir seu dever conjugal, mesmo sem desejo algum, para agradar e servir ao marido.

Entretanto, quem está com mais de 70 anos e conseguiu se livrar dos antigos preconceitos, passando a aceitar o sexo como importante e natural esbarra agora em outro obstáculo. É a crença tão difundida socialmente de que na velhice as pessoas são assexuadas, como se sexo e juventude fossem sinônimos.

Assim, o homem estaria condenado à impotência e a mulher, depois da menopausa, não se interessaria mais pelo assunto. Mas nada disso é verdade. Apesar de toda a transformação fisiológica que ocorre com o envelhecimento, não existe limite para o exercício da sexualidade e, sem dúvida, homens e mulheres podem ter muito prazer sexual até o fim da vida.

E parece que é exatamente isso que Hattie Retroage tenta provar com a sua liberdade.

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“Meu marido saiu de casa. Agora eu alterno entre ódio e desespero” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/meu-marido-saiu-de-casa-agora-eu-alterno-entre-odio-e-desespero/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/meu-marido-saiu-de-casa-agora-eu-alterno-entre-odio-e-desespero/#respond Thu, 12 Sep 2019 07:01:15 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8929

“Estamos casados há 12 anos e não temos filhos. Sempre achei que vivíamos bem. Tínhamos algumas brigas e o sexo estava meio morno. Mas jamais pensei que meu marido proporia a separação, como fez agora. Ele disse que é irreversível e já saiu de casa. Nem sei onde está morando. Estou péssima, alternando entre o ódio que sinto dele e o meu desespero pela sua ausência.”

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“Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa…” Há separações em que a hostilidade e o ódio pelo outro chegam a níveis extremos. Parece ser um sentimento de ter sido traído na crença de que por meio daquela relação amorosa se estaria a salvo do desamparo, encontrando a mesma satisfação que havia no útero da mãe, quando dois eram um só.

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A separação surge então como testemunho da impossibilidade desse retorno ao estado de fusão, a essa identidade que se busca no outro. O parceiro, imagina-se, preenchia uma falta. O ressentimento, a raiva e o ódio são causados pela constatação de que ao ir embora o outro deixou uma lacuna, frustrando a expectativa de se complementarem.

Quando fracassa o projeto amoroso, a pessoa perde o referencial na vida e sua autoestima fica abalada. A questão é que no Ocidente somos incentivados, desde muito cedo, a acreditar só ser possível encontrar a realização afetiva através da relação amorosa fixa e estável com uma única pessoa.

Na maioria dos casamentos as pessoas abrem mão da liberdade e da independência — incluindo aí amigos e interesses pessoais — e por isso se tornam mais frágeis em caso de separação. O desespero que se observa em algumas pessoas durante e após a separação se deve também ao fato de cada experiência de perda reeditar vivências de perdas anteriores.

Assim, não se chora somente a separação daquele momento, mas também todas as situações de desamparo vividas algum dia e que ficaram inconscientes. Acredito que a condição essencial para ficar bem sozinho seja o exercício da autonomia pessoal. Isso significa, além de alcançar nova visão do amor e do sexo, se libertar da dependência amorosa exclusiva e “salvadora” de alguém.

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“Não quero ter filhos, mas me olham como se eu fosse anormal” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/09/nao-quero-ter-filhos-mas-me-olham-como-se-eu-fosse-anormal/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/09/nao-quero-ter-filhos-mas-me-olham-como-se-eu-fosse-anormal/#respond Mon, 09 Sep 2019 07:00:17 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8920

“Estou casada há cinco anos, mas não quero ter filhos. Já disse isso claramente várias vezes. O problema é que a pressão que sofro do meu marido e da família está se tornando insuportável. Estou terminando meu mestrado e já pensando no doutorado. Não tenho dúvida de que um filho vai me impedir de crescer profissionalmente. De uns tempos pra cá sinto que todos com quem convivo me olham de forma meio estranha, como se eu fosse anormal.”

 

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Em todas as épocas e lugares foi comum o homem repudiar a mulher e se casar novamente. Para isso não faltavam pretextos e um dos mais convincentes era o não nascimento de um filho.

Afinal, ele queria mais braços para ajudá-lo no trabalho. A forma como as mães se relacionavam com os filhos, nos séculos 17 e 18, deixa claro que não somente o desejo de ter filhos, mas também o amor materno, não são inerentes às mulheres. É um sentimento que pode ou não se desenvolver.

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Naquele período, a amamentação passou a ser considerada ridícula e repugnante e não era digno uma mulher amamentar seu próprio filho. Só para se ter uma ideia, das 21 mil crianças nascidas em Paris em 1780, menos de mil foram amamentadas pelas mães. Todas as outras foram morar com amas de leite.

No século 19, houve grande mudança. Várias teorias foram criadas sustentando que o único prazer da mulher era ter filhos e criá-los, e que ela não se interessaria por sexo. Seu aparelho genital serviria tão-somente à procriação.

O fato de ser capaz de ter filhos passou a significar que os desejaria naturalmente. Hoje, ainda há mulheres que acreditam desejar filhos sem que esse desejo realmente exista. Afinal, a cobrança da família e dos amigos é tanta que, em muitos casos, elas temem ser taxadas de egoístas e de pouco sensíveis.

Mas as mentalidades estão mudando. Apesar de ser difícil escapar dos modelos impostos, as últimas pesquisas mostram que aumenta cada vez mais o número de mulheres que não deseja ter filhos.

Para as que julgam que sua realização pessoal depende do êxito profissional, a questão da maternidade se coloca em outros termos. E a crescente rejeição aos modelos tradicionais de comportamento permite que se percebam com mais clareza os próprios desejos.

Ter ou não ter filhos passa a ser uma opção individual, longe da cobrança de corresponder ao modelo imposto de mulher ideal.

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A homofobia do prefeito perdeu para a luta por liberdade https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/07/a-homofobia-do-prefeito-perdeu-para-a-luta-por-liberdade/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/07/a-homofobia-do-prefeito-perdeu-para-a-luta-por-liberdade/#respond Sat, 07 Sep 2019 15:35:13 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8924

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), tentou recolher das prateleiras da Bienal Internacional do Livro do Rio a HQ “Vingadores – A Cruzada das Crianças” sob a alegação de que a obra da coleção Graphic Novels da Marvel, onde dois super-heróis namorados se beijam, traz “conteúdo sexual para menores.” O recolhimento não chegou a acontecer, porque todos os exemplares na Bienal já tinham sido vendidos.

A atitude de Crivella foi duramente criticada pela relatoria especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, por editores, autores, pela OAB, e por grande parte da população, que considerou censura.

Em um comunicado, o órgão ligado à OEA (Organização dos Estados Americanos) indicou que a “proteção das crianças não pode ser utilizada como pretexto para impedir que crianças e adolescentes tenham acesso a obras em qualquer formato que representam a diversidade de orientação sexual e identidade de gênero que faz parte das pessoas”.

Será que é verdade que toda a censura que observamos no Brasil hoje está nos afastando dos países mais adiantados do Ocidente e nos associando à mentalidade repressora de países como a Arábia Saudita? Será que, como diz o blogueiro Josias de Souza, do Uol, o prefeito do Rio Marcelo Crivella, ex bispo da Igreja Universal, está mesmo confundindo a prefeitura com púlpito? É grave. Afinal, pessoas do mesmo sexo podem se casar e homofobia é crime.

Apesar de, hoje, a homossexualidade não ser mais considerada crime, pecado ou doença, a discriminação continua, sendo os gays hostilizados e agredidos. A homofobia deriva de um tipo de pensamento que equipara diferença a inferioridade. E quem são os homofóbicos?

Alguns estudos indicam que são pessoas conservadoras, rígidas, favoráveis à manutenção dos papéis sexuais tradicionais. E não podemos nos esquecer da pesquisa realizada pela Universidade de Ontário, Canadá, e publicada na revista Psychological Science. Ela revelou que pessoas menos inteligentes são mais conservadoras, preconceituosas e racistas.

Concordo com o sociólogo inglês Anthony Giddens quando diz que hoje, a ‘sexualidade’ tem sido descoberta, revelada e propícia ao desenvolvimento de estilos de vida bastante variados. É algo que cada um de nós “tem”, ou cultiva, não mais uma condição natural que um indivíduo aceita como um estado de coisas preestabelecido.

O reconhecimento de diversas tendências sexuais corresponde à aceitação de uma pluralidade de formas de viver, o que vem a ser uma atitude política. O valor radical do pluralismo não deriva de seus efeitos de choque — pouca coisa atualmente nos choca —, mas do efeito de se reconhecer que a “sexualidade normal” é simplesmente um tipo de estilo de vida, entre outros.

A mentalidade sexual predominante nos últimos 50 anos é resultado de uma longa trajetória cultural. Atualmente, nos parece óbvio que os direitos sexuais dos indivíduos são mais importantes do que qualquer noção de moral. Há os que sofrem por se sentir impotentes para fazer escolhas livres, mas o fim de muitos tabus é só uma questão de tempo.

Diante da repercussão negativa que a atitude do prefeito está tendo, devemos nos sentir gratos pelos milhares de homens e mulheres que lutaram e sofreram por nosso direito à liberdade.

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Amor nada convencional: eles moram na mesma cidade e se veem a cada 15 dias https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/05/amor-nada-convencional-eles-moram-na-mesma-cidade-e-se-veem-a-cada-15-dias/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/05/amor-nada-convencional-eles-moram-na-mesma-cidade-e-se-veem-a-cada-15-dias/#respond Thu, 05 Sep 2019 07:00:19 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8915

Quando estava escrevendo meu último livro, “Novas Formas de Amar”, entrevistei Carol para o capítulo “Vida a dois fora da curva”. Ela vive uma relação amorosa bem diferente da maioria. É professora universitária, separada há muitos anos do primeiro casamento, e namora Fred. Eles moram na mesma cidade, mas só se encontram de 15 em15 dias e é raro se falarem nesse intervalo. Selecionei alguns trechos do que Carol me contou.

Quando vocês começaram o relacionamento?
Conheci o Fred em 2008, exatamente na entrada dos meus 50 anos. Ele tinha 53. Estamos juntos há nove anos. Eu vinha de três casamentos, de tentativas variadas de convivência: um casamento sem filhos, um casamento com filhos e um casamento em casas separadas. Tinha muita certeza de que não desejava casar de novo, pois as investidas anteriores já tinham me passado o atestado de “incompetência” para morar junto.

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Por quê?
Sempre achei dificílimo manter o amor na relação cotidiana. Os desgastes das banalidades do dia a dia me distraíam completamente das coisas boas do relacionamento e, quando dava por mim, as relações estavam acomodadas e, o que mais incomodava — a mim e ao parceiro — sem tesão.

Mas o amor continuava?
Sim. Só que virava uma relação de muito amor, mas de amor fraterno. Mesmo morando em casas separadas percebi que eu trazia pra relação os mesmos vícios dos casamentos anteriores, sobretudo a patrulha e o certificado de propriedade. E era justamente essa sensação de posse que amornava a forma com que eu me relacionava.

O que os amigos dizem desse namoro?
Interessante que algumas pessoas confundem e acham que evitamos uma relação mais profunda, quando é justamente o contrário. A liberdade de
sermos quem somos nos aproxima demais. Tenho certeza de que posso contar com ele para o que eu precisar e a qualquer hora, e vice-versa.

Como surgiu esse relacionamento tão diferente da maioria?
Como ele estava em Brasília, nos encontrávamos de 15 em 15 dias, o que era ótimo, pois no fim de semana que não nos encontrávamos, eu podia continuar fazendo as coisas de que gostava e que não incluem o outro: meu trabalho (que amo!), os encontros com amigos que não têm a ver com ele, um domingo de leitura e estudo, uma caminhada solitária pela Lagoa [Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro] etc. Tudo sempre foi muito leve, divertido, pois nos damos bem e temos temperamentos semelhantes. Depois dos 50, não há mais como a gente se juntar para o desprazer, né? Descobrimos que adoramos viajar e somos excelentes companheiros de viagem. Então, vivemos com o pé no mundo, sempre que podemos.

O que fez vocês decidirem, apesar de morarem na mesma cidade, se encontrarem somente de 15 em 15 dias?
Passados uns três anos desse namoro, ele veio transferido de volta pro Rio. Daí, crise no casal: como passar a se ver toda semana?!? Ficamos um pouco preocupados dessa proximidade mudar as coisas entre a gente, pois estávamos muito acostumados com os encontros quinzenais. Foi então que Fred propôs: “E não dá pra gente continuar se vendo de 15 em 15 dias?”.  Nossa! Aquilo foi espetacular! Realmente, não tinha sentido mudar nada, só porque ele ia voltar pro Rio. Então, nos mantemos até hoje com esse jeito de levar a vida a dois, mesmo morando a 20 minutos de distância um do outro.

Vocês se falam nesse intervalo?
Mandamos torpedos ou nos telefonamos quando dá saudade mesmo. Não temos a menor obrigação de nada. Fred abomina aquela pergunta “O que você fez hoje?”, e eu o entendo. Um não tem que saber, burocrática e obrigatoriamente, do dia do outro. Às vezes passamos horas no telefone! Ambos falamos muito. Mas não há uma frequência. A saudade é o que determina, mesmo. E é uma delícia quando, no meio do dia, aparece um torpedo apaixonado ou apimentado.

Quando não é o fim de semana de se encontrarem, você fica preocupada com o que ele pode estar fazendo, se está saindo ou transando com outra mulher?
Eu prefiro me concentrar nas minhas coisas, sabe? Faz tempo que entendi que não há controle sobre o outro. O que tiver que rolar, vai rolar, eu estando na cola ou não. E vice-versa! Então, não ficamos rastreando um ao outro. Temos uma coisa bem definida: se perguntar, é porque quer ouvir a resposta. Sinceramente? Prefiro nem perguntar! (risos)

Bate insegurança? Ciúmes?
Não. A distância/proximidade não é determinante pra nada. Tenho as minhas inseguranças, mas não sinto que são potencializadas por eu não estar “controlando”. Ciúme eu teria se o percebesse num movimento para outra pessoa. Como não estou vendo, não tenho.

Muitos dizem que em um relacionamento assim se corre mais risco de perder o outro. Você acredita nisso?
Não. Justamente porque não é a convivência que determina a estabilidade da relação. Penso até que estamos juntos há tanto tempo porque não nos
“possuímos”, não nos cobramos, porque sabemos dar espaço para o outro viver suas coisas. Queremos parecido.

Vocês se sentem livres pra transar com outras pessoas? Combinaram alguma coisa sobre isso?
Nunca houve um patrulhamento nesse sentido. Nunca senti necessidade de combinar, mas deixei claro que não quero saber, a não ser que seja algo que interfira na nossa relação, uma paixão, por exemplo. Se acontecer, vou morrer de ciúme, mas está no rol das coisas que não podemos controlar.

Quais as vantagens de um relacionamento dessa forma?
A maior vantagem é eu não me perder de mim, continuar tendo noção do que é meu e o que é do outro, pois já tive uma tendência a me embolar. Nesses nove anos juntos, poucas vezes perdemos essa percepção de nossa
individualidade. Quando aconteceu, conversamos e corrigimos a rota. Como ele diz, “o difícil é justamente não mudar nada”. Amo o Fred pelo que ele é, e não por uma promessa de segurança. A outra grande vantagem é que, nesse hiato, morremos de saudades um do outro e ficamos ansiosos pra chegar o dia do encontro. Sabe lá o que é isso depois de tanto tempo de relacionamento? Nossa convivência é uma delícia. Somos felizes e sabemos.

E as desvantagens?
Sinceramente? Desconheço.

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“Me vestir de mulher dá muito prazer, mas não tenho tesão algum por homens” https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/02/me-vestir-de-mulher-da-muito-prazer-mas-nao-tenho-tesao-algum-por-homens/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/09/02/me-vestir-de-mulher-da-muito-prazer-mas-nao-tenho-tesao-algum-por-homens/#respond Mon, 02 Sep 2019 07:00:23 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8895

Sou casado, só transei com mulheres e nunca senti vontade de fazer sexo com homens. Um dia, minha esposa brincou dizendo que gostaria de me ver usando a calcinha e o sutiã dela. Por brincadeira experimentei….e gostei. Depois disso, várias vezes me vesti de mulher e me maquiei, mesmo estando sozinho em casa. Isso me dá um grande prazer. Tenho pensado sobre esse meu comportamento. Não sei bem do que se trata, mas a única certeza que tenho é que só sinto tesão por mulheres.

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Crossdresser é a pessoa que sente desejo de se vestir como o sexo oposto. É uma variação sutil do travesti por não implicar, necessariamente, orientação homossexual. Muitos crossdressers costumam se manter no completo anonimato, usando trajes do sexo oposto reservadamente. Alguns relatam que só se sentem em paz quando se “montam”, ou seja, se vestem e se maquiam como mulher, mesmo que estejam sozinhos. Outros tornam público seu desejo.

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O crossdresser pode ser, e muitas vezes é, um cidadão bem colocado na sociedade e com um perfil conservador. Podemos então concluir que são homens que se travestem, mas na maioria das vezes permanecem heterossexuais. Segundo estatísticas americanas, 4% dos homens são crossdressers, assumidos ou não.

O documentário “Tudo sobre meu pai”, do cineasta norueguês Even Benestad, sobre o respeitado médico Esben Benestad, que costuma vestir-se de mulher, é bom registro do tema. Usando o farto material de registro familiar, em filmes super 8 da abastada classe média do norte da Europa, Even pôde mostrar como foi sua vida e a da irmã ao lado do pai crossdresser.

Um dos raros especialistas no tema, no país é o psiquiatra e psicoterapeuta paulista Ronaldo Pamplona. Numa conversa, perguntei o que ele entende por crossdresser:

“O travesti é completamente diferente do crossdresser. Existem homens que se travestem, mas são heterossexuais. Tive um paciente, alto executivo de 50 anos, que havia sido casado e tem dois filhos. Ele tinha essa necessidade desde pequeno. Achava que poderia ser a expressão de uma homossexualidade; foi atrás e percebeu que não tinha nada a ver com isso. Ele então comprou um apartamento onde se travestia e ficava sozinho. Disse que isso lhe trazia uma sensação de paz profunda. A sua mulher descobriu, se separaram. Anos depois ele conheceu outra mulher e logo fez questão de que ela soubesse. Essa então aceitou a sua condição.”

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Fluidez sexual: por que é tão difícil aceitar a bissexualidade https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/31/por-que-e-tao-dificil-aceitar-que-a-bissexualidade/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/31/por-que-e-tao-dificil-aceitar-que-a-bissexualidade/#respond Sat, 31 Aug 2019 07:00:39 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8904

“Sou muito bem resolvida com a minha sexualidade. As pessoas deveriam se preocupar com a censura que está ocorrendo no Brasil, os vetos em relação a projetos voltados à comunidade LGBT. Se tivesse mais instrução, educação, não haveria essa comoção em relação ao fato de eu ser livre”, disse a atriz Débora Nascimento, numa entrevista. Em outro momento, ela afirmou ao youtuber Matheus Massafera se relacionar com mulher e assumir gostar de pessoas.

Débora não está sozinha. A atriz e diretora americana, Jodie Foster, por exemplo, teve seu desejo sexual por mulheres revelado num livro escrito por seu próprio irmão. Entrevistada pelos jornais, declarou: “Tive uma ótima educação, que nunca me fez diferenciar homens e mulheres.”

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Em 1975, a famosa antropóloga Margareth Mead declarou: “Acho que chegou o tempo em que devemos reconhecer a bissexualidade como uma forma normal de comportamento humano. É importante mudar atitudes tradicionais em relação à homossexualidade, mas realmente não deveremos conseguir retirar a carapaça de nossas crenças culturais sobre escolha sexual se não admitirmos a capacidade bem documentada (atestada no correr dos tempos) de o ser humano amar pessoas de ambos os sexos”.

O pesquisador americano Alfred Kinsey acredita que a homossexualidade e a heterossexualidade exclusivas representam extremos do amplo espectro da sexualidade humana. Para ele, a fluidez dos desejos sexuais faz com que pelo menos metade das pessoas, sinta, em graus variados, desejo pelos dois sexos.

A psicóloga americana June Singer diz que a maioria das pessoas acredita pertencer a uma das três categorias: heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Caso não se aceitem membros de uma categoria fixa, buscam modificações para se enquadrarem numa delas.

“Acredito que essas categorias sexuais, quando usadas como rótulos, fixam na mente uma ideia que não deveria ser fixa, mas extremamente fluida. Nós só estamos encapsulados numa categoria quando deixamos que isso aconteça conosco”, conclui ela.

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Casais que evitam brigar “por causa das crianças”: você pensa no outro? https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/29/casais-que-evitam-brigar-por-causa-das-criancas-voce-pensa-no-outro/ https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2019/08/29/casais-que-evitam-brigar-por-causa-das-criancas-voce-pensa-no-outro/#respond Thu, 29 Aug 2019 07:00:18 +0000 https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/?p=8884

Há casais em que os ressentimentos dominam a relação, e eles não são capazes de se unir nem de se separar. Um tenta “derrubar o outro” sempre que se apresenta alguma oportunidade. Encontramos com frequência relações amorosas em que há luta pelo poder. Muitas vezes, o poder, que se mascara como amor, assume um papel bem importante na união de duas pessoas. “Estou fazendo isso para o seu bem” é uma frase que pode significar justamente o contrário.

O psicoterapeuta americano Michael Miller, estudioso do tema, diz que se observam em relacionamentos com essa característica duas pessoas preocupadas em atacar a segurança ou a autonomia uma da outra, provocando recíproca ansiedade.

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Apesar de nenhuma delas estar preparada para abrir mão do relacionamento, cada uma tem como objetivo tomar o controle dele. Em sua busca de poder na relação atacam-se os pontos mais vulneráveis do parceiro. Dizem ameaças, alimentam-se o medo e a dúvida, de forma a paralisar a vontade do seu oponente. Cada troca de palavras sugere um significado diferente do que apresenta na superfície porque praticamente cada coisa pode ser utilizada para prolongar a batalha pelo controle.

Alguns casais vivem assim quase o tempo todo. Muitos deles passam a vida juntos, frios um com o outro, sem comunicação, talvez com frequentes explosões – como duas pessoas que se esforçam para evitar brigas “por causa das crianças” ou para não escandalizar os vizinhos, mas, acima de tudo, para manter o casamento mais ou menos intacto.

Quando falam de separação, é mais uma tática de intimidação do que a de real intenção de se afastarem. Falam de várias coisas, mas todos os tópicos estão contaminados pela luta pelo poder que impele a ambos. Cada um se sente roubado e tenta controlar o outro de modos diferentes: ela reclama por mais intimidade; ele exige mais liberdade, por exemplo.

Na realidade, amor e poder nunca vão funcionar bem juntos. Não é novidade que toda relação íntima deve levar em conta as necessidades de cada uma das partes, tanto para o estar juntos como para a autonomia.

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