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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

O que se espera de um casamento?

Universa

07/11/2019 04h00

"Pouca vergonha!" Era esse o comentário do meu avô quando via um casal, que havia se separado, conversando. Quem viveu na primeira metade do século 20 não podia mesmo entender. Na maioria dos países ocidentais, o casamento constituía um contrato duradouro e não era permitido o rompimento, a não ser em casos de faltas gravíssimas cometidas por um dos cônjuges. Entre elas estavam o abandono do lar, adultério, alcoolismo e violência física. "Depois de tanto ultraje, como podem ficar amigos?", ele devia se perguntar.

Mesmo assim, o número de divórcios aumentava e passou a causar preocupação. Naquela época não havia separações amigáveis. Embora, como acontece hoje, as mulheres fossem responsáveis pela maioria dos pedidos de divórcio, a situação delas era bem difícil. Apesar de só se separar quando o casamento se tornava insuportável, elas eram discriminadas e representavam uma vergonha para a família.

Sem dúvida, a felicidade no casamento depende das expectativas que se depositam na vida a dois. Antigamente, o que se esperava do marido era que fosse provedor e respeitador. A mulher deveria cuidar bem da casa e dos filhos. E, acima de tudo, ser uma mulher respeitável.

As opções de atividades fora do convívio familiar eram bastante limitadas, não só para as mulheres como para os homens, que do trabalho iam direto para o aconchego do lar. Desconhecendo outras possibilidades de vida, não almejavam nada diferente, e o grau de insatisfação era muito menor. Havia um conformismo generalizado.

Entretanto, os movimentos de emancipação feminina e de liberação sexual dos anos 60 trouxeram mudanças profundas na expectativa de permanência de uma relação conjugal. Surgiram muitas opções de lazer, de desenvolver interesses vários, de conhecer outras pessoas e outros lugares. Casar buscando realização afetiva e prazer sexual foi a grande novidade.

Ao contrário da época em que, excetuando os casos de intenso sofrimento, ninguém se separava, hoje a duração dos casamentos é cada vez menor. Isso ocorre porque quando uma pessoa se vê privada das perspectivas, que são de alguma forma possíveis, a frustração é inegável.

Que o casamento está em crise não é novidade. E isso começou a acontecer depois que o cônjuge passou a ser escolhido por amor e não mais por interesses familiares. As perspectivas não são nada animadoras e talvez só tenha um jeito. Para ser sólido e duradouro, o casamento precisa voltar a ser como sempre foi: sem nenhuma expectativa de romance ou de prazer sexual. Será que alguém se habilita?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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