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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

"Disse que seria um marido e pai melhor se continuasse com minha amante"

Universa

2024-06-20T19:04:00

24/06/2019 04h00

"Estamos casados há 12 anos e sempre foi muito bom. Amo bastante a minha mulher, e nossa vida sexual é intensa. Sou dentista e vou a congressos em todo o país. Num desses conheci uma colega e nos apaixonamos. Transamos muito e nos tornamos amantes regulares. O tempo foi passando e, após dois anos de relação paralela, minha mulher descobriu. Pediu a separação imediata. A saída foi abandonar minha amante, a mulher por quem me apaixonei. A coisa ficou tão ruim pra mim, que resolvi contar o que sentia pela outra para a minha esposa. Disse a ela que não tinha dúvida que eu seria um pai e um marido bem melhor se pudesse continuar a relação com minha amante, apenas passando uma ou duas horas com ela na parte da manhã, como fizemos durante os últimos dois anos. Resolvi negociar com minha esposa, admitindo que ela também tivesse uma relação paralela, um namorado. Ela não aceitou de jeito nenhum. Arrumou as malas para partir com as crianças. Decidi novamente abrir mão da minha namorada. Todos nós estamos sofrendo muito: eu, minha esposa e minha namorada."

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Ao se deparar com a possibilidade de amar duas pessoas ao mesmo tempo é comum se desmerecer um de seus polos: ou o estado amoroso nascente será considerado capricho, infantilidade, mero desejo sexual, loucura; ou o estado amoroso anterior será questionado: não era amor de verdade, o parceiro não supria as necessidades e assim por diante.

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A psicóloga Noely Montes Moares acredita que o conflito se instala porque sentimentos ignoram as contradições e as exigências de exclusividade do tipo "se amo uma pessoa, não posso amar outra". Quando o sentimento insiste em se instalar e permanecer, pode surgir a dúvida do que se sente pela pessoa com quem se mantinha o pacto de exclusividade.

Para a autora, em nossa cultura, o desejo de exclusividade é muito forte. Vem da experiência com a mãe, para quem somos o centro. Quando nos apaixonamos, recriamos esse modelo. "Os relacionamentos tiveram grandes mudanças ao longo das últimas décadas, especialmente devido à emancipação feminina. Mas ainda existe um pensamento extremamente conservador quando se trata de fidelidade e monogamia. Talvez porque fugir disso afaste algo de que as pessoas precisam muito: a aprovação social", diz Noely.

Acredito que podemos amar várias pessoas ao mesmo tempo. Não só filhos, irmãos e amigos, mas também aqueles com quem mantemos relacionamentos afetivo-sexuais. E podemos amar com a mesma intensidade, do mesmo jeito ou diferente.

Acontece o tempo todo, mas ninguém gosta de admitir. A questão é que nos cobramos a rapidamente fazer uma opção, descartar uma pessoa em benefício da outra, embora essa atitude costume vir acompanhada de muitas dúvidas e conflitos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.