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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Por que causa estranheza dizer que solteiras e sem filhos são mais felizes?

Universa

29/05/2019 04h00

(Crédito: iStock)

"Se você é um homem, deveria se casar. Se você é uma mulher, não se preocupe com isso". Esta frase de Paul Dolan, especialista em ciência do comportamento e professor da London School of Economics, causou estranheza. Mas ele afirma que o subgrupo da população mais feliz é o de mulheres solteiras e sem filhos. Para Dolan a ideia de que casar e ter filhos é sinal de sucesso e a pressão por seguir estes padrões ainda podem levar muitas mulheres a se sentirem infelizes.

Ao ler essa matéria, lembrei-me de uma paciente que atendi há alguns anos. Ela tinha 80 anos e sua grande tristeza era ter "ficado pra titia". Não casar era um drama. Afinal, acreditava-se ser esse o destino de todas as mulheres. Equivalia a não ter sido escolhida. Por quê? Era feia? Desinteressante? Isso abalava a autoestima de um grande número de mulheres. Essas crenças vêm de longe.

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Na Idade Média (séculos 5 ao 15), as mulheres solteiras eram geralmente enviadas para conventos. A outra opção seria trabalhar como prostituta nos bordéis. Não ter marido ao lado significava não ter valor algum. Essa mentalidade perdurou até algumas décadas atrás; quem não casasse tinha uma vida infeliz.

As mulheres "solteironas" viviam reclusas ou eram mal faladas. Ficavam então ansiosas com o passar do tempo, já que no caso delas a situação era mais difícil. Havia a incapacidade de se sustentarem sozinhas, além do peso de transgredir a "lei da natureza", a realização na maternidade.

Na atualidade, a qualidade de vida da mulher solteira está muito ligada à forma como encara seu estado civil. Se ela entende que estar sem par amoroso fixo não é nenhuma tragédia, vai lidar de forma leve e descontraída com essa condição. Sem dúvida, houve uma grande mudança de mentalidade.

Nos vários relatos que me foram feitos por pessoas que não desejam uma relação fixa com um único parceiro, dois fatores são comuns a todas: a importância que dão às relações de amizade — consideram-nas verdadeiras relações de amor — e a liberdade sexual. Estabelecer relações afetivas profundas é fundamental, mas elas podem ser de várias formas e não apenas uma relação fechada entre duas pessoas.

O problema é que muitos acreditam que, para serem aceitos, têm que agir igual aos outros. Todos então se tornam parecidos e desejam as mesmas coisas. As singularidades de cada um desaparecem, chegando ao ponto em que não dá mais para saber o que realmente se deseja ou o que se aprendeu a desejar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.