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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

"Amo meu marido, mas não consigo sentir desejo por ele"

Regina Navarro Lins

20/05/2019 04h00

Ilustração: Caio Borges

"Tenho 24 anos, sou casada há seis anos, e não consigo mais sentir desejo sexual por meu marido. No início eu sempre queria, mas agora nem pensar. Sinto que o amo e gosto de estar com ele, mas por mais que eu tente não consigo sentir desejo. Já pensei em desistir do meu casamento, mas temos dois filhos pequenos , que adoram o pai. Isso me faz perder a coragem. O que me dói muito é saber que ele tem muito desejo por mim."
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O sexo é o maior problema vivido pelos casais numa relação estável —namoro ou casamento. É muito comum mulheres fazerem sexo com seus parceiros fixos sem nenhuma vontade, por obrigação. Sempre foi assim. O casamento por visar apenas à união econômica e política das famílias, nunca foi considerado lugar de prazer sexual. Acreditava-se que era algo muito sério para se misturar a emoções tão fugazes.

No século 12, havia o consenso de que entre o casal poderia haver estima, mas nunca o amor sensual, o desejo. O impulso do corpo seria a perturbação, a desordem. Contudo, as mulheres não podiam se esquivar do dever conjugal e deveriam, portanto, se dobrar às exigências do marido. Exatamente como, 800 anos depois, muitas continuam fazendo.

Até a década de 1940, a importância da atração sexual entre o casal se colocava depois de vários outros aspectos como a fidelidade, as qualidades de caráter, e principalmente da divisão das tarefas e preocupações. As mudanças começaram a ocorrer mais claramente em meados do século 20.

A valorização do amor conjugal sob todos os pontos de vista, sobretudo o sexual, começa a se manifestar. A ausência de desejo sexual só passou a chamar a atenção, e se tornar um problema, quando o amor e o prazer sexual se tornaram fundamentais na vida a dois. As expectativas não realizadas levam à frustração.

Alguns casais se amam, manifestam carinho entre eles, mas vivem juntos como se fossem irmãos. Não é raro a escassez de sexo progredir até a ausência total. Já ouvi muita gente propondo uma solução aparentemente simples: "Tem que ser criativo!" O que esquecem, nesse caso, é que o tesão é que leva à criatividade e não o contrário. Muitos têm dificuldade de entender essa situação, porque acreditam que amar uma pessoa significa naturalmente sentir desejo sexual por ela.

A questão é que pode haver prazer sexual pleno desvinculado de qualquer aspiração romântica, assim como é possível amar muito uma pessoa e não ter desejo sexual algum por ela. A terapeuta de casal belga Esther Perel diz: "Ironicamente, o que contribui para uma intimidade gostosa nem sempre contribui para um sexo gostoso. O aumento da intimidade afetiva muitas vezes é acompanhado por uma diminuição do desejo sexual. A desintegração do desejo parece ser uma consequência não intencional da criação de intimidade."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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