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A gente se apaixona pela paixão muito mais do que por alguém em especial

Regina Navarro Lins

09/01/2016 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o "Se eu fosse você"

A questão da semana é o caso internauta que teve uma relação sexual intensa durante dois dias com um estrangeiro, quando viajou de férias. Ela se pergunta por que não consegue se contentar com a ideia que foi apenas sexo casual 'ideal' e fica achando que perdeu o melhor homem que teve.

O que pode ter provocado tamanho envolvimento senão o desejo da internauta de encontrar a "pessoa certa" e com isso transformá-la na sua única fonte de interesse?

Não são poucos os que sofrem por amor. Isso ocorre porque o amor romântico não é construído na relação com a pessoa real, que está do lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades.

Sem perceber, idealizamos o outro e projetamos nele tudo o que desejamos. Na realidade, amamos o fato de estar amando, nos apaixonamos pela paixão, muito mais do que por alguém em especial.

Não importa muito se a relação amorosa seja limitadora ou tediosa. Qualquer coisa é melhor do que ficar sozinha. Fundamental é ter um homem ao lado, o resto se constrói — ou se inventa.

Busca-se, portanto, desesperadamente, o amor. Acredita-se tanto nisso que a sua ausência abala profundamente a autoestima de uma pessoa e faz com que se sinta desvalorizada.

O terapeuta e escritor Roberto Freire dizia que lhe custou muita dor, solidão e desespero aprender que sentir amor era uma potencialidade vital sua, produção criativa própria, e que para amar dependia apenas dele mesmo. A expressão e comunicação do seu amor eram produtos da liberdade pessoal e social conquistada.

"Em minha inocência e ignorância, eu atribuía a algumas pessoas o poder de liberar, produzir o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razão, me deixassem ou não quisessem produzi-lo em mim, eu secava de amor e — o que é pior — ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputação, que não cicatrizaria jamais."

Quando alguém alcança um estágio de desenvolvimento pessoal em que descobre o prazer de estar sozinho, preservar a própria individualidade passa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico, em que os dois se tornam um só, deixa de ser atraente.

Por enquanto, não há dúvida de que desejar viver relações de amor fora do modelo romântico pode ser frustrante. As pessoas são viciadas nesse tipo de amor e fica difícil encontrar parceiros que já tenham se libertado dele. Mas acredito ser apenas uma questão de tempo. As mudanças são lentas e graduais, mas definitivas nesse caso.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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