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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Ter um pré-candidato gay à presidência dos EUA ajuda a repensar família

Regina Navarro Lins

17/05/2019 17h39

Pete Buttigieg é prefeito de uma cidade de Indiana, nos EUA, e quer ser o novo presidente norte-americano. Foto: Derek Henkle/AFP

O prefeito de uma cidade em Indiana, EUA, Pete Buttigieg, quer enfrentar Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020, pelo partido democrata. Ele é casado com outro homem, Chasten Glazman, e a visibilidade que o casal gay tem alcançado na mídia — que os mostra como uma família feliz — está contribuindo para a reflexão sobre os direitos da comunidade LGBT e também sobre que significa realmente uma família.

Com toda a mudança de mentalidade que observamos é fundamental pensarmos sobre as novas famílias. Ao contrário dos que só aceitam a "família tradicional", a História nos mostra que ela se apresenta de várias formas.

Até mais ou menos 5 ou 6 mil anos atrás, desconhecia-se o vínculo entre sexo e procriação. Não se imaginava que os homens tivessem alguma participação no nascimento de uma criança, o que continuou sendo ignorado por milênios. A fertilidade era considerada característica exclusivamente feminina.

A ideia de casal era desconhecida. Cada mulher pertencia igualmente a todos os homens e cada homem a todas as mulheres. O casamento era por grupos. As crianças tinham vários pais e várias mães e só havia a linhagem materna. O casal só surgiu quando se passou a domesticar os animais e se descobriu, observando a fêmea que não procriava quando isolada, que o macho participava da processo.

Na Grécia, no século 5 a.C., o cidadão grego tinha a esposa — para lhe dar filhos, que se tornariam cidadãos gregos —, a concubina, a cortesã e os efebos — jovens rapazes. Antes das transformações do final do século 18, as famílias eram bem grandes — pai, mãe, tios, sobrinhos, avós —, permaneciam próximas ou, como no campo, viviam juntas no mesmo lugar. Esse tipo de família, pela força de sua união, dava segurança e proteção às pessoas.

Com a revolução industrial, o casal deixou o campo e, nos centros urbanos,  os maridos foram trabalhar em fábricas ou escritórios. Surge a família nuclear — pai, mãe e filhos—   isolada e pequena demais. Nessa nova família o homem sai para o trabalho e a mulher se fecha no espaço privado do lar, cuidando dos filhos. Mas a família nuclear não é a única organização possível ou mesmo a única forma saudável de família.

Nas últimas décadas a família foi se transformando radicalmente. Após a revolução sexual, na década 70, surgiu um novo tipo de família: pais separados que formam nova união e agregam os filhos de casamentos anteriores com os filhos do casamento atual.

Nenhum tipo de família pode realmente ser reconhecido pela exclusão de todos os outros. Portanto, não é difícil imaginar que, dentro de algum tempo, casais homossexuais — com seus filhos, adotivos ou não—, famílias de três adultos, só para citar dois exemplos, serão tão comuns e bem aceitos como qualquer outro. A nova família surge, livre de conceitos discriminatórios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.