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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

"Amo meu marido, mas tenho um caso. Estou com medo das consequências disso"

Regina Navarro Lins

11/03/2019 04h00

Ilustração: Caio Borges

"Estou casada há 12 anos e durante esse período nunca traí meu marido. Agora, estou vivendo o momento mais difícil da minha vida. Amo meu marido, sinto desejo por ele e quero continuar sempre ao seu lado, mas estou vivendo uma espécie de paixão (ou seria tesão?) por um novo colega de trabalho. Já fomos algumas vezes para o motel na hora do almoço. Depois que comecei esse caso, não tenho sentido vontade de transar com meu marido. Apesar de acreditar que deve ser uma fase, tenho estado tensa, porque não sei quais são as consequências de uma relação fora do casamento."

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Muito se fala dos perigos de uma relação extraconjugal, mas pouco é dito sobre os efeitos nocivos da repressão dos desejos. O psicanalista austríaco W.Reich, importante pensador da primeira metade do século 20, analisa os prejuízos causados às  pessoas envolvidas e à própria relação.

É nesta altura que se manifesta um estado crítico de irritação contra o outro, irritação que, conforme o temperamento de cada um, se exterioriza ou é reprimida. Em qualquer dos casos, e conforme demonstra a análise de situações desse gênero, gera-se e desenvolve-se sem cessar um ódio inconsciente contra o outro, pelo fato de ele impedir a satisfação, frustrar, os outros desejos sexuais. Em tal caso, não se tem qualquer razão pessoal e consciente para odiar, entretanto, sente-se nele, e mesmo no amor que por ele se tenha, um obstáculo, um peso.

Pode haver o enfraquecimento do desejo sexual pelo parceiro fixo, que pode não ser definitivo. Mas passa facilmente do estado passageiro para permanente, se os parceiros são incapazes de tomar consciência da tensão ou do ódio recíproco, se rejeitam com inconvenientes e imorais os desejos sexuais sentidos por outras pessoas. Neste caso, verifica-se em geral a repressão de todas essas poderosas tendências, com todo o inevitável cortejo de consequências desastrosas para as relações entre duas pessoas que essa repressão provoca.

Se, pelo contrário, tais fatos são abordados com franqueza, sem distorções nem preconceitos moralizantes, pode-se limitar a extensão do conflito e encontrar para ele uma saída, com a condição de que as manifestações de ciúme não se transformem em reivindicações possessivas e se reconheça o caráter natural e legítimo do interesse sexual por outros. Incontáveis exemplos mostram que a fidelidade, calcada em valores morais, mina progressivamente uma relação.

Os problemas e restrições que em tais circunstâncias muitas pessoas têm o hábito de se impor, por causa do parceiro, reprimindo os seus verdadeiros desejos sem conseguir nunca extirpá-los, tendem muito facilmente a produzir um efeito contrário: o parceiro que teve excessiva consideração pelo outro tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a considerar-se vítima, a tornar-se intolerante, e qualquer dessas atitudes mina e ameaça bem mais uma relação do que uma "infidelidade". Quando a fidelidade não é natural nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a própria relação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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