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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

O ódio contra a mulher é tão antigo quanto o mito de Adão e Eva

Universa

08/03/2019 04h00

08.mar.2017 – Marchas feministas saíram da Paulista e da Sé nesta quarta-feira e se encontraram no centro de São Paulo em uma grande manifestação pelos direitos das mulheres. Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Em 1910, durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres, em Copenhague, Dinamarca, foi proposto o Dia Internacional da Mulher em homenagem a 129 operárias de uma indústria têxtil de Nova York, EUA, mortas em 1857, durante uma greve por melhores salários, redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade.

Essa violência, no final do século 19, não foi novidade. A história da mulher é uma constante luta contra a opressão. Há cinco mil anos, elas sofrem todo tipo de constrangimento — são humilhadas, menosprezadas, violentadas, escravizadas e constantemente utilizadas como forma de prazer para os homens.

Entre os muitos exemplos, alguns não deixam dúvida. Em várias cidades da Europa , no fim da Idade Média (séculos 5 ao 15), os jovens se reuniam em bando e saíam estuprando as moças que encontravam pela caminho. Eles eram autorizados a isso. No casamento, o marido tinha o direito e o dever de punir a esposa e de surrá-la para impedir mau comportamento ou simplesmente para lembrar-lhe sua superioridade.

De onde vem tanto ódio? Não podemos responsabilizar esse ou aquele homem apenas. É questão bem mais séria — trata-se de como a mulher é percebida, há muito tempo, em quase todas as culturas. No Ocidente, existem diversas interpretações do mito de Adão e Eva, mas na grande maioria Eva é a única responsável por todos os males, pois teria sido sua fraqueza que provocou a expulsão do Paraíso. A mulher é condenada duramente como origem do pecado e da degradação.

No século 2, o apologista Tertuliano escreveu De virgimbus velandis (Sobre o recato das virgens), no qual observou que as mulheres melhor fariam se usassem roupas de luto, já que eram descendentes de Eva, a causa de toda a miséria humana. Nos sermões da Idade Média essa ideia é reforçada: "A mulher é má, lúbrica tanto quanto a víbora, escorregadia tanto quanto a enguia e, além do mais, curiosa, indiscreta, impertinente"

E as mulheres tentaram se  defender das acusações sofridas por tanto tempo. Em alguns cartazes das  manifestações femininas da década de 1960, estava escrito: "Eva foi falsamente incriminada". Mas esse apelo parece não ter surtido efeito. Estamos em 2019, e a cada dia notícias de mulheres espancadas ou assassinadas se sucedem.

Atualmente, no Brasil, 27,4% das mulheres do país sofreram algum tipo de violência ou agressão no último ano. Quase 80% dessas agressões foram praticadas por um conhecido, como cônjuge, ex companheiro ou até vizinho. E cerca de 40% das agressões aconteceram no interior do próprio lar. Menos da metade das mulheres procuram algum tipo de ajuda para a violência sofrida.

O que fazer para mudar essa mentalidade? Como podemos nos libertar da dominação do homem sobre a mulher e partir definitivamente para uma sociedade de parceria entre eles? Penso ser tarefa principalmente para as famílias e as escolas. Para alguém que declara não ser feminista, só vejo duas possibilidades: desconhece totalmente a História ou não se importa com o sofrimento de uma das duas partes da humanidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.