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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Por que confundir ciúme com amor pode tornar um "propriedade" do outro?

Universa

07/02/2019 04h03

É difícil entender porque uma pessoa se comporta como dona de outra.  Há casos em que essa situação dura a vida toda do casal. Duas perguntas são inevitáveis: por que será que alguém aceita ser propriedade de outra? Por que será que alguém precisa ser o proprietário do outro?

Uma explicação possível se encontra no fato de aprendermos desde cedo a ser ciumentos nas relações amorosas. A criança tem ciúme da mãe porque se a mãe desaparecer, ela morre. É uma questão de sobrevivência. Na vida adulta, ao entrar em uma relação amorosa, a dependência infantil reaparece com bastante força.

No parceiro é depositada a certeza de ser cuidado e de não ficar só. A distância faz sentir o desamparo, da mesma forma que se sentia quando a mãe se ausentava. A dependência emocional que se estabelece torna comum depositar no outro a garantia de não ficar só. O medo da solidão e do desamparo leva à exigência de que o parceiro não tenha olhos para mais ninguém.

Há os que se iludem com a ideia de que é possível encontrar a complementação por meio da relação com outra pessoa. Mas ninguém completa ninguém. Sem perceber é comum se reeditar inconscientemente com o parceiro nossas necessidades infantis. Dessa forma, passamos a considerar o outro tão indispensável à nossa vida, que a possessividade e o cerceamento da liberdade sobrecarregam a relação.

Muitos acreditam até que o parceiro deve estar sempre pronto para suprir todas as necessidades do outro, adivinhando pensamentos e desejos. A crença de que existe alguém de quem dependemos para sermos felizes, alimenta o pavor de perdê-lo e, assim, o desejo de posse se manifesta. Por acreditar que o ciúme faz parte do amor, se aceitam os mais variados tipos de violência, atitudes que não escondem o total desrespeito à liberdade do outro.

Um não se sentir dono do outro, as pessoas saberem que estão juntas por prazer e não por qualquer outro motivo, só enriquece a relação. Além de permitir que se viva sem limitações, coisa tão rara em quem está casado ou namorando. Não tem jeito, é necessário saber com clareza como desejamos uma vida a dois.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.