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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

"Minha namorada vive o sexo como se fosse pecado"

Regina Navarro Lins

2017-12-20T18:04:00

17/12/2018 04h00

Ilustração: Caio Borges

"Tudo está ótimo com a minha namorada se eu não pensar na nossa vida sexual. Ela não consegue se soltar na cama, a impressão que tenho é de que ela vive o sexo como se fosse um pecado. É comum ficar parada, sem se mexer, como se nada estivesse acontecendo. Parece até que nem está ali. O mais curioso é que quando a conheci ela era a mulher mais sensual da festa. Seu jeito de andar e dançar deixava qualquer homem excitado. Isso sem falar na roupa justa e curta que usava. Ficamos juntos naquela noite, e juro que pensei que seria o melhor sexo da minha vida. Não entendi o comportamento dela, mas como estava muito a fim, continuei o namoro. Só que agora isso está virando um problema sério. Ela faz com que eu me sinta um tarado. Não foram poucas as vezes que caiu em prantos no meio da transa. Não consigo entender porque isso acontece."

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Muita gente pensa que hoje o sexo é livre. Afinal, ele está em toda parte. A quantidade de programas de TV com apelos sexuais seria a prova incontestável disso, entretanto, na vida de cada um, liberdade sexual é objetivo difícil de ser atingido. O sexo é alvo da maior perseguição na área dos costumes e fonte de grandes sofrimentos. Todos se reprimem e estão sempre prontos a criticar o outro por sua conduta sexual. As pessoas padecem por conta das próprias fantasias, desejos, culpas, medos e frustrações sexuais.

O psicanalista austríaco Wilhelm Reich (1897-1957) tinha razão quando denunciou a miséria sexual das pessoas. Ele lutou a vida inteira, apesar dos ataques sofridos, para convencer-nos de que a sexualidade, quando expressa de modo adequado, é a nossa principal fonte de felicidade. E quem é feliz está livre da sede de poder. Ele dizia que, se alguém tem a sensação de uma vida viva, alcança uma autonomia que se nutre das potencialidades do "eu". Em vez da sexualidade dirigida, da sexualidade impessoal, diz ele, as pessoas se tornariam abertamente felizes em seu amor.

Controlar a sexualidade das pessoas significa controlar as pessoas. Esse processo se inicia na infância e continua por toda a vida. Os valores repressores são absorvidos de tal forma que, não percebendo sua existência, as escolhas pessoais, predeterminadas no inconsciente, assumem aparência de escolhas livres. Esse é o grande perigo da repressão sexual e o principal motivo da baixa qualidade do sexo praticado.

O psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa (1920-2010) afirma que quanto mais a pessoa amplia, aprofunda e diversifica sua vida sexual, mais corajosa se torna. Vive com mais vontade, mais alegria, esperança e decisão. Pode vir a representar perigo do ponto de vista da ordem estabelecida. Por ser arriscado, a maior parte das pessoas renuncia à sexualidade e fica quieta no seu canto e vai se apagando de vida, de corpo e de espírito.

Para a maioria o sexo está a serviço de outros objetivos. Mas é inegável que, apesar de tudo, algumas pessoas conseguem romper com a repressão e alcançam a autonomia, buscando no sexo o que ele mais pode oferecer: prazer sexual.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.