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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

"Só sinto desejo sexual por homens. Por medo, casei com uma mulher"

Regina Navarro Lins

27/10/2018 04h00

Ilustração: Caio Borges

"Tenho 38 anos e sou casado. Sempre senti um forte desejo sexual por homens, mas isso foi difícil de admitir até pra mim mesmo. Minha família é religiosa e jamais me aceitaria. Por medo, nunca transei com homem… nem com mulher. Casei com uma vizinha, que frequenta a Igreja e é bastante puritana, pra tentar controlar meus impulsos. Nunca tivemos uma relação sexual de verdade, e ela parece não se importar com isso. Tenho amizade por ela e nenhum desejo. A minha vida sexual acontece nos sonhos, quando me vejo na cama com outro homem."

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Alguns autores consideram que o momento decisivo da vida de um homossexual parece ser o coming out, isto é, o primeiro ato sexual. "Chega o momento de conciliar a socialização anterior (sobretudo pelo casamento) e o habitus homossexual", diz o historiador francês Philippe Ariès. Quanto mais tardio é o coming out, maior é o impacto sobre a personalidade do indivíduo. As tentativas de suicídio são, nesses casos, duas vezes mais frequentes do que na população da mesma faixa etária. Entretanto, uma vez dobrado o cabo do coming out, o índice de suicídios entre a população homossexual seria extremamente baixo.

Um homem homossexual é aquele que tem como objeto de amor e desejo outro homem, mas isso não significa que ele se sinta mulher ou deseje ser mulher. A orientação afetivo-sexual é algo que está dentro da pessoa e não depende, ao contrário do que muitos pensam, de uma escolha pessoal. Ninguém faz opção por um modo de vida que sabe será discriminado. A escolha é entre esconder ou exteriorizar a sua orientação sexual.

Uma pessoa é homossexual mesmo que nunca tenha tido contato sexual com alguém do mesmo sexo. Muitas vezes o desejo homossexual existe no inconsciente, mas a pessoa não sabe disso porque o desejo está reprimido. Em outros casos, o homossexual percebe sua atração pelo mesmo sexo e reconhece que essa atração sempre existiu. Pode acontecer de a pressão social ser tão forte que ele renuncie à realização dos seus desejos e passe toda a vida insatisfeito.

Para o psicoterapeuta Ronaldo Pamplona, especializado no tema, esse homem homossexual só se estabilizará psicológica e emocionalmente quando aceitar esses sentimentos e esse modo de vida para si mesmo. E quando tiver claro para si que são sentimentos ainda alvo de preconceito. Com isso, ele não mais incorporará para si os preconceitos da sociedade.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.