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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Machismo: uma tragédia coletiva

Regina Navarro Lins

12/10/2017 18h12

(Ilustração: iStock)

Uma pesquisa do Ibope, que ouviu 2.002 mil pessoas, em todas as regiões do país, concluiu que o machismo está presente no cotidiano de 99% dos brasileiros. Para Ricardo Sales, pesquisador em diversidade na USP, o preconceito está naturalizado na sociedade brasileira. "A pesquisa alerta para a necessidade de falar mais sobre o assunto e refletir sobre atitudes que impedem o respeito e a conexão entre as pessoas no dia a dia", afirma.

Muitos homens já ouviram: "Seja homem!"; "Prove que você é homem!"; "Vem cá se você é homem!". Desde pequenos os homens são desafiados a provar sua masculinidade. O homem, a vida inteira, deve estar atento e mostrar que é homem, deve ter atitudes, comportamentos e desejos masculinos. Qualquer variação no jeito de falar, andar e mesmo sentir e sua virilidade é posta em dúvida.

Assim como a feminilidade, a masculinidade foi construída a partir do surgimento do patriarcado, há cinco mil anos. O homem, então, definiu-se como um ser privilegiado, superior, possuindo alguma coisa a mais, que as mulheres ignoram. Ele acredita ser mais forte, mais inteligente, mais corajoso, mais decidido, mais responsável, mais criativo ou mais racional.

"A virilidade não é dada de saída. Deve ser construída, digamos fabricada. O homem é, portanto, uma espécie de artefato e, como tal, corre risco de apresentar defeito. Defeito de fabricação, falha na maquinaria viril, enfim, um homem frustrado. A garantia do empreendimento é tão baixa que o sucesso merece ser exaltado.", diz a filósofa francesa Elisabeth Badinter.

Toda a superioridade atribuída ao homem serviu para justificar durante milênios a dominação da mulher. Há 50 anos as mulheres passaram a questionar e exigir o fim da distinção dos papéis masculinos e femininos, ocupando os espaços sempre reservados aos homens.A certeza do homem superior à mulher foi abalada. Diante dessa nova mulher desconhecida, muitos homens passaram a questionar a identidade masculina, desejosos de se libertar dos papéis tradicionais que a eles sempre foram atribuídos.

Em várias partes do mundo eles já demonstram insatisfação em ter que corresponder ao que deles se espera, e discutem cada vez mais a desconstrução do masculino, fazendo a mesma pergunta feita por John Lennon: "Não está na hora de destruirmos a ética do macho?… A que nos levaram todos esses milhares de anos?"

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.