Regina Navarro Lins

Crossdresser: vestido para mudar

Regina Navarro Lins

25/03/2017 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso do internauta, 52 anos, casado há 18 anos, com duas filhas. Desde pequeno sente forte atração pelo universo feminino. Diz sentir-se uma mulher por dentro e esconde isso de toda a minha família e dos amigos. Lendo artigos na web se deparou com o mundo crossdresser e se encantou. Diz ter se encontrado. Ficou fascinado e começou a viver escondido. Mas ele não está sozinho.

Juliana fazia sempre o mesmo trajeto de volta para casa, no aprazível bairro da Urca, no Rio de Janeiro. Ia ao mercado comprar pequenas coisas e retornava, cumprimentando gente amiga nas portas e janelas.

No dia em que seu – então recente – casamento acabou, ela cumpria a mesma rotina. Ao dobrar a esquina, contudo, chamou-lhe atenção o padrão do vestido da bela mulher que atravessava a rua.

Era semelhante a um dos seus vestidos, e não era um padrão comum. As duas mulheres foram se aproximando. Juliana não conseguia tirar os olhos da outra, alta, magra… e do “seu vestido”, na verdade curto demais para a estranha, que ficava com as pernas à mostra.

Estranheza, essa era a única palavra possível, até as duas ficaram olho no olho. Juliana foi obrigada a reconhecer que aquela mulher era o seu marido, Roberto, maquiado e equilibrando-se em saltos altíssimos, e que o vestido, sim, também era o seu.

O primeiro casamento de Roberto, 20 anos na época, 51 hoje, acabou logo após a cena do vestido. Como outros CDs (crossdressers), seu impulso surgiu na adolescência, cresceu e se tornou irresistível na idade adulta.

Tem tesão por mulheres, a tal ponto que está casado pela quarta vez e é pai de cinco filhos. Gosta tanto da vida familiar que, durante uma crise de angústia, rasgou e jogou fora sua indumentária feminina. Mas então descobriu que não era tão simples assim.

Roberto é artista plástico e como tal não é tão preso a preconceitos sociais. Contou que, antes de vir ao nosso encontro para a entrevista, parou num bar onde o balconista o tratou como senhora. Ele gosta disso.

Veste-se de forma andrógina, talvez como uma mulher mais solta e jovem; a antiperua. Essa atitude dá ao seu tipo maior ambiguidade, coisa que lhe é agradável também.

Se a percepção inicial de seu desejo de travestir-se foi como a de outros crossdressers, Roberto se destaca deles ao assumir em tempo integral essa postura.

Não compra um sapato masculino há 15 anos. Tentou levar esse comportamento mais livre para a cama com a mulher, mas não obteve sucesso. Ele gostaria que as relações com ela envolvessem a ambiguidade de sua condição.

Os filhos não reagem bem ao seu transformismo. Exigem que se vista como homem com H para visitá-los. Roberto entende a pressão social que eles sofrem, mas também é vítima de desentendimento.

O futuro para Roberto não é claro. Afirma apenas que sente a sua sexualidade em constante mudança. Ele experimenta profunda paz de espírito quando está travestido.

Alguma coisa está em movimento. Se por um lado gostaria de ser um homem normal, ao se ver de fora, como um observador de si mesmo, tem uma boa imagem. Assim como em sua atividade profissional, Roberto escapa do senso comum.

***
A palavra inglesa crossdresser identifica o travesti, mas numa versão diferente daquela que conhecemos no Brasil.

O crossdresser pode ser, e muitas vezes é, um cidadão bem colocado na sociedade e com um perfil conservador.
Personalidades como o ex-prefeito republicano de Nova York, Rudolph Giuliani ou o astro do futebol inglês David Beckham foram flagrados como crossdressers.

Podemos então concluir que são homens que se travestem, mas na maioria das vezes permanecem heterossexuais.

Como o internauta que relatou seu caso, são pessoas que convivem com uma ambiguidade, que não chega necessariamente ao comportamento sexual, embora convivam com o desejo de serem identificados como do gênero oposto.

As famílias convencionais, quando tomam conhecimento dessas manifestações sofrem o preconceito da tradição e não é incomum que se desintegrem em função dele.

O mundo vive um grande debate sobre a questão de gênero e é possível que essas pessoas, que hoje se travestem confinadas dentro de casa, possam num futuro próximo se exibirem nas ruas.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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