Regina Navarro Lins

Masturbação e culpa

Regina Navarro Lins

11/03/2017 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso da da internauta, de 39 anos, que não tem relação sexual há dois anos. Sente desejo por sexo e se masturba, mas aprendeu na Igreja que masturbação é pecado. Pede ajuda para tirar o peso da sua consciência que a impede de viver.

“Se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém.” O escritor João Ubaldo Ribeiro citou a frase do Nelson Rodrigues e afirmou: “Ainda existe muita repressão. Essa frase, bastante citada, ilustra bem isso. O grau de repressão é altíssimo, inclusive da pessoa com ela mesma.”

O publicitário Lula Vieira diz: “O sexo é reprimidíssimo, por ser uma coisa muito libertária. As religiões e os poderosos acham que sem reprimir o sexo não há possibilidade de domínio político ou social.”

Para o escritor Francisco Azevedo “é inacreditável que, no século 21, essa maravilhosa fonte de prazer – que a Natureza nos deu graciosamente – ainda esteja ligada a preconceitos e à ideia de pecado, causando tanta culpa, solidão e sofrimento desnecessário ao ser humano.”

O sexo é ainda tão reprimido, tão cheio de tabus e preconceitos, que ninguém tem muita clareza do que realmente gosta ou deseja.
Desde cedo, as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. E dentro das famílias essa ideia ainda ganha um reforço.

Por conta de todos os preconceitos, se vive como se não existisse sexo, e ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto.

Sem ser percebida, a repressão sexual vai se instalando e condiciona o surgimento de valores e regras para controlar o exercício da sexualidade. Tudo isso passa a ser visto como natural, fazendo parte da vida.

A masturbação, ato frequente da nossa sexualidade, se converteu num dos maiores tabus.

Na Antiguidade a masturbação era uma forma aceita de obter prazer. Mas a nossa história tomou outro rumo. Para a cultura judaico-cristã, qualquer prática que não levasse à procriação foi objeto de severas punições.

No século 18 a masturbação ascendeu à categoria de doença grave. A loucura anti-masturbatória continuou no século 19. Diversos textos aterrorizavam as pessoas quanto ao malefício da masturbação. Loucura, cegueira, câimbras, pêlos nas mãos, era o mínimo que aconteceria.

Mas, felizmente, as mentalidades estão mudando. Numa província da Espanha, a Secretaria de Educação criou o curso “O prazer está em suas mãos” para ensinar masturbação nas escolas a jovens de 14 a 17 anos e derrubar mitos negativos sobre o tema.

Os conteúdos vão de anatomia e fisiologia sexual até técnicas de masturbação e uso de objetos eróticos. É claro que os conservadores protestaram e ameaçam entrar na Justiça. Mas para a Secretária de Educação o novo curso “não devia escandalizar ninguém, principalmente, porque todos nós fomos adolescentes e todos nós temos sexualidade”.

Por conta dos preconceitos encontramos pessoas culpadas e amedrontadas com seus próprios desejos e com a forma de realizá-los. Isso impede que a masturbação se torne a experiência libertadora e satisfatória que ela pode ser.

Hoje é sabido que a masturbação na infância é importante, já que equivale à auto-exploração do corpo.

Na adolescência ela é vista pelos especialistas como uma prática fundamental para a satisfação sexual na vida adulta, por permitir um autoconhecimento do corpo, do prazer e das emoções.

E no tratamento das disfunções orgásticas, a masturbação é o elemento principal para capacitar a mulher a ter o primeiro orgasmo.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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