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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Da monogamia ao poliamor

Regina Navarro Lins

06/08/2016 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o "Se eu fosse você"

A questão da semana é o caso da internauta cujo namorado, desde o início, deixou claro que se relaciona com várias mulheres. Ela lhe deu um ultimato: a monogamia ou o fim da relação. Ele tenta convencê-la de que o Poliamor é melhor e mais moderno. Mas ela não sabe que decisão tomar, pois sente muito ciúme.

Elaine é uma advogada de 34 anos, separada há três. Após alguns namoros, e muitas brigas por conta do ciúme de seus parceiros, decidiu que não teria mais nenhuma relação amorosa em que fosse exigido qualquer tipo de exclusividade.

"Em vários momentos da minha vida amei mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mas sempre que isso acontece, você se sente na obrigação de ter que decidir entre elas. Não acho natural; não quero isso para a minha vida. Por que não podemos amar várias pessoas? Não amamos diversos amigos? Não amo meus três filhos? Cansei dessa história; aderi de corpo e alma ao poliamor. Sei que não é fácil encontrar parceiros que concordem com isso, mas estou tentando. Tenho a esperança que daqui a algum tempo as cabeças fiquem mais abertas."

Não é só Elaine que reflete sobre a possibilidade de amar várias pessoas ao mesmo tempo. Há alguns anos tenho recebido inúmeros pedidos de entrevista sobre o poliamor. Não só dos veículos de comunicação, mas também de muitos estudantes que estão fazendo seu trabalho de final de curso.

São esses pequenos sinais que indicam as tendências. Existe hoje um movimento organizado com a intenção de difundir essa ideia. A Wikpédia, enciclopédia livre da internet, dá a seguinte definição:

"Poliamor é a tradução livre para a língua portuguesa da palavra polyamory (Polyamory é uma palavra híbrida: poly é grego, e significa muitos , e amor vem do latim), que descreve relações interpessoais amorosas que recusam a monogamia como princípio ou necessidade. Por outras palavras, o poliamor como opção ou modo de vida defende a possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo responsável em relações íntimas, profundas e eventualmente duradouras com várias/os parceiras/os simultaneamente. (…) Poliamor como movimento existe de um modo visível e organizado nos Estados Unidos nos últimos vinte anos, acompanhado de perto por movimentos na Alemanha e Reino Unido. Recentemente, a imprensa começou a cobrir abertamente quer o movimento poliamor em si, quer episódios que lhe são ligados. Em novembro de 2005 realizou-se a Primeira Conferência Internacional sobre Poliamor em Hamburgo, Alemanha."

O verbete é ilustrado com uma passeata em Londres dos adeptos dessa prática amorosa, com uma grande faixa na qual se lê: Polyamory. No Google, são encontradas 429.000 citações para a palavra poliamor e 2.070.000 para a palavra polyamory, nos mais diversos idiomas.

No Poliamor uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais ou até mesmo ter relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todas as partes envolvidas.

Os poliamoristas argumentam que não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo fato de ter essa possibilidade sempre em aberto, mas sim de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente. "O Poliamor pressupõe uma total honestidade no seio da relação. Não se trata de enganar nem magoar ninguém. Tem como princípio que todas as pessoas envolvidas estão a par da situação e se sentem confortáveis com ela. A ideia principal é admitir essa variedade de sentimentos que se desenvolvem em relação a várias pessoas, e que vão para além da mera relação sexual.", explica um adepto dessa prática amorosa.

O poliamor aceita como fato evidente que todos têm sentimentos em relação a outras pessoas que as rodeiam. Como nenhuma relação está posta em causa pela mera existência de outra, mas sim pela sua própria capacidade de se manter ou não, os adeptos garantem que o ciúme não tem lugar neste tipo de relação.

"Não é o mesmo que uma relação aberta, que implica no sexo casual fora do casamento, nem na infidelidade, que é secreta e sinônimo de desonestidade. O poliamor é baseado mais no amor do que no sexo e se dá com o total conhecimento e consentimento de todos os envolvidos, estejam estes num casamento, num ménage à trois, ou no caso de uma pessoa solteira com vários relacionamentos . Pode ser visto como incapacidade ou falta de vontade de estabelecer relações com uma única pessoa, mas os poliamantes se sentem bastante capazes de assumir vários compromissos, da mesma forma que um pai tem com seus filhos. "

Nan Wise, uma psicoterapeuta que pratica o poliamor, reconhece que é necessário muita estabilidade emocional. Ela é casada com John Wise há mais de 20 anos e os dois mantêm uma relação amorosa com outro casal, Júlio e Amy. Como muitas dessas relações, Nan tem com John sua "relação primária", e com Júlio e Amy uma relação secundária, termos que servem para atribuir níveis de importância a quem participa de um mesmo grupo.

"As modalidades e escalas de valores desse tipo de relacionamento podem parecer complexos para quem desconhece como operam, mas o fenômeno está sendo mostrado em grupos de discussão, sites na Internet, eventos e filmes.", diz ela.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.