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Regina Navarro Lins

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O medo da solidão paralisa e limita a vida

Regina Navarro Lins

09/07/2016 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o "Se eu fosse você"

A questão da semana é o caso da internauta que não tem mais tesão pelo marido e tudo nele a incomoda, mas tem medo de ficar sozinha.

Observando a vida dos casais é possível perceber como muitos se sentem sozinhos na relação, mas temem se separar por medo da solidão. Há alguns anos decidi perguntar a várias pessoas o que pensam sobre o assunto. Obtive respostas bem interessantes.

Marina Colasanti (escritora): "Um dos elementos que causam a solidão dentro do casamento é que as pessoas evoluem em direções tão opostas que de repente uma não tem nada mais a ver com a outra. Eventualmente até transam, mas a transa nem sempre configura intimidade. Ou podem se afastar quando um dos dois se volta muito para si. Isso é comum acontecer com os velhos. Sempre se diz que a velhice traz sabedoria, mas é mentira. Temos que lutar para melhorar com a idade, porque a tendência é a gente ir piorando."

Eva Wilma (atriz): "Muitas pessoas se esforçam para manter o casamento, mesmo quando insatisfatório porque ficam esperando que um dia melhore, porque foram educadas para 'engolir sapo', porque não têm coragem para enfrentar mudanças."

Rose Marie Muraro (escritora) "A maioria das mulheres casadas há 20, 30 anos, é extremamente sozinha. Elas são muito frustradas porque não se relacionam em profundidade com seus maridos. Para o homem é: relação sexual ou intimidade. Para a mulher, não. As duas coisas vêm juntas."

Sílvio Tendler (cineasta): "Às vezes as pessoas chegam a certa idade e têm medo de mudanças, medo de encarar essa questão. Quando as pessoas se amam de verdade, elas também amam a liberdade. Muitas vezes a gente massacra a liberdade do outro por se sentir prisioneiro da mesma situação. 'Já que estou prisioneiro aqui, ele (a) também vai estar'. Mas isso não é amor."

Leda Nagle (jornalista) "Muita gente se esforça para manter o casamento porque é uma garantia de vida, porque as pessoas não gostam de fazer mudanças, por preguiça, por medo da solidão, porque ouvimos nossas mães e avós dizerem: 'Antes mal acompanhada do que só'".

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Na verdade, somente a partir da década de 40 passamos a associar mais intimamente casamento a amor. E os resultados não têm sido nada satisfatórios.

A entrada do amor romântico fez do casamento o meio para as pessoas realizarem suas necessidades afetivas, sendo a sociedade ocidental a única a assumir o risco de ver esse tipo de união ser estabelecido sobre o amor de um casal.

Imagina-se que assim se alcançará uma complementação total, que as duas pessoas se transformarão numa só, que nada mais irá lhes faltar e, para isso, fica implícito que cada um espera ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro.

Em pouco tempo essas expectativas se mostram incompatíveis com a realidade, e as frustrações vão se acumulando. Não podia ser de outra forma, o amor é uma emoção e o casamento é um compromisso, uma instituição com leis, regras e normas.

Na busca de segurança afetiva, qualquer preço é pago para evitar tensões decorrentes de uma vida autônoma. Por medo da solidão as pessoas suportam o insuportável tentando manter a estabilidade do vínculo, e não raro se tornam dois estranhos ocupando o mesmo espaço físico.

Como mecanismo de defesa, surge a tendência a não se pensar na própria vida. Tenta-se acreditar que casamento é assim mesmo. Aí é que reside o perigo. Se a pessoa não tomar coragem e sair fora, vai viver exatamente o mesmo que um sapo desatento. Uma fábula conta que se um sapo estiver em uma panela de água fria e a temperatura da água se elevar lenta e suavemente, ele nunca saltará. Será cozido.

Não há dúvida de que o medo da solidão é responsável por muitas opções equivocadas de vida. Fazemos qualquer coisa para nos sentir aconchegados e protegidos através da relação com outra pessoa, tentando nos convencer de que assim não seremos mais sozinhos.

A ideia, tão valorizada e difundida pelo amor romântico, de que devemos buscar um parceiro que nos complete só contribui para que não enxerguemos o óbvio: a solidão é uma das nossas características existenciais.
Aceitar isso talvez seja o primeiro passo para relacionamentos amorosos mais ricos e criativos, longe da expectativa de que o outro nos livre da condição de seres solitários.

O terapeuta e escritor Roberto Freire diz em seus livros não ter dúvida de que risco é sinônimo de liberdade e que o máximo de segurança é a escravidão. Ele acredita que a saída é vivermos o presente através das coisas que nos dão prazer. A questão, diz ele, é que temos medo, os riscos são grandes e nossa incompetência para a aventura nos paralisa. Entre o risco no prazer e a certeza no sofrer, acabamos sendo socialmente empurrados para a última opção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.