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A culpa que atormenta

Regina Navarro Lins

12/03/2016 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o "Se eu fosse você"

A questão da semana é o caso da internauta que descobriu que o marido sempre a traiu. Sofreu muito, mas depois acabou se envolvendo com um antigo namorado. Ela diz que o problema é culpa imensa que sente.

Apesar dos conflitos, medos e culpas, da expectativa dos parentes e amigos, dos costumes sociais, e dos ensinamentos estimularem que se invista toda a energia sexual em uma única pessoa — marido ou esposa —, homens e mulheres são profundamente adúlteros.

As mulheres são primordialmente reprimidas em sua sexualidade e condenadas à monogamia do casamento. Mas o pesquisador Alfred Kinsey dizia: "Mesmo naquelas culturas que tentam com mais rigor controlar o coito extraconjugal feminino, está absolutamente claro que tal atividade ocorre, e em muitos casos ocorre com considerável regularidade."

A questão é que o conflito entre o desejo e o medo de transgredir pode ser doloroso. Entretanto, reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. O psicanalista W.Reich afirma, na primeira metade do século 20, que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual.

Provavelmente diminuiriam as torturas psicológicas e os crimes passionais, e desapareceriam também inúmeros fatores e causas das perturbações psíquicas que são apenas uma solução inadequada desses problemas.

A partir das décadas de 1960, com o advento da pílula anticoncepcional, pela primeira vez na história da humanidade o sexo foi dissociado da procriação e passou a se relacionar intimamente com o prazer. A moral sexual sofreu grandes transformações, mas o sexo continua sendo um problema complicado e difícil.

Durante cinco mil anos os homens acreditaram ser somente deles o direito de ter sexo fora do casamento. Desde a infância foi ensinado à mulher que ela deveria fazer sexo apenas com o marido. Isso fez com que se sentisse culpada no caso de ter uma relação extraconjugal.

Atualmente, o cenário não é mais o mesmo; o sentimento de culpa da mulher desapareceu quase completamente. Uma pesquisa do New York Post concluiu que nove entre dez mulheres não nutrem qualquer tipo de culpa por ter relações fora do casamento.

Os estudos também demonstram que duas novas tendências surgiram: ambos os sexos começaram a ter relações extraconjugais mais cedo que nas décadas anteriores, e o padrão duplo – homem pode; mulher não pode – foi corroído.

Pesquisando o que estudiosos do tema pensam sobre as motivações que levam a uma relação extraconjugal na nossa cultura, fiquei bastante surpresa. As mais diversas justificativas apontam sempre para problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois.

Não li em quase nenhum lugar o que me parece mais óbvio: embora haja insatisfação na maioria dos casamentos, as relações extraconjugais ocorrem principalmente porque as pessoas gostam de variar. Que homens e mulheres têm prazer na variedade sexual foi também a conclusão que chegou a antropóloga americana Helen Fisher, no seu estudo sobre várias culturas.

Um casamento pode ser plenamente satisfatório do ponto de vista afetivo e sexual e mesmo assim as pessoas terem relações extraconjugais.

A grande preocupação das pessoas é quanto à exclusividade do parceiro (a). Entretanto, quando a "fidelidade" não é natural nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a própria relação.

Acredito que ninguém deveria se preocupar se o parceiro transa ou não com outra pessoa. Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas:

1. Sinto-me amado (a)?;

2. Sinto-me desejado (a)?

Se a resposta for Sim para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Não tenho dúvida de que todos viveriam bem melhor.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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