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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Autonomia da mulher

Regina Navarro Lins

22/12/2015 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que respondeu à enquete da semana admira mulheres independentes, assim conhecidas porque, após serem sustentadas durante séculos por pais ou maridos, se libertaram dessa submissão adquirindo novo status.

Ganham seu próprio dinheiro — em muitos casos mais que seus maridos ou amigos —, compram o que desejam, viajam para onde querem, escolhem onde morar e, o melhor de tudo, não têm que prestar contas dos seus gastos a ninguém.

A mulher independente é invejada pela maioria das mulheres que, por mais que trabalhem, não garantem seu próprio sustento. Há algumas décadas, quando se iniciou o movimento de emancipação feminina, as mulheres passaram a ser incentivadas a ter uma profissão.

Mas o máximo almejado era trabalhar para não precisar mais pedir ao marido dinheiro para um batom ou uma calcinha. Mais independência que isso nem se cogitava, seria ousadia demais. Muitas acreditaram e hoje lamentam. Pela incapacidade financeira de viverem sozinhas, são obrigadas a permanecer em casamentos totalmente falidos.

É muito comum se dizer que o homem teme a relação com a mulher independente. Alega-se que, além de não estar preparado para abrir mão da superioridade que o papel de provedor lhe confere, poderia se sentir desvalorizado caso a parceira ganhasse mais do que ele.

Mas na realidade não é isso o que acontece. Acredito que o homem não teme a mulher que tem uma profissão e ganha muito dinheiro. Ele teme, sim, a mulher autônoma. Ser uma mulher independente ou uma mulher autônoma não é a mesma coisa. Mas existe uma confusão a respeito disso.

O que é, afinal, uma mulher autônoma? Em primeiro lugar, ela olha com novos olhos para o mundo, o amor, o homem, a mulher, sem estar presa aos condicionamentos que tanto limitam as pessoas. Tem coragem de ser ela mesma na sua totalidade, e não renuncia a partes do seu eu tentando corresponder ao que dela se espera.

Se sente livre para expressar todos os aspectos de sua personalidade, mesmo os considerados masculinos pela nossa cultura, como força, decisão, ousadia. Na relação amorosa, não se preocupa em se submeter às exigências sociais do que é aceito ou não para uma mulher e vive o máximo possível em sintonia com seus próprios desejos.

Entretanto, a autonomia não é fácil de ser alcançada. São anos e anos de condicionamento, em que vamos assimilando os valores do lugar em que vivemos, como se fosse nosso idioma natal.

Mas hoje cada vez mais mulheres questionam a suposição da nossa cultura de que a verdadeira felicidade se equipara a estar envolvida com um homem. Isso já é um bom sinal. Ter ou não um homem ao lado está aos poucos deixando de ser a questão básica da vida. Porém, ainda são poucas as pessoas que realmente buscam autonomia.

É evidente que sem independência financeira não existe autonomia. Mas não basta. Existem mulheres totalmente independentes sem autonomia alguma.

Quantas você conhece que alcançam sucesso profissional, se tornam brilhantes executivas, e que, no entanto, vivem sonhando em encontrar o príncipe encantado?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.