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Regina Navarro Lins

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Culpa e vergonha pelas fantasias sexuais

Regina Navarro Lins

16/12/2014 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A metade das pessoas que responderam à enquete da semana já se envergonhou de alguma fantasia sexual. Mas quase todos têm fantasias sexuais. Existem as que não sentem muito prazer, e até mesmo são incapazes de atingir o orgasmo, sem recorrer a elas.

Com fantasias a vida sexual ganha uma diversidade que seria impossível no cotidiano. Por mais que exista grande atração entre um casal, a excitação não se dá sempre da mesma forma, tem altos e baixos.

Lançar mão desse recurso funciona, muitas vezes, como estimulante para se recuperar a intensidade do desejo. E a variedade é grande: cenas, lugares, pessoas, podendo ser, em alguns casos, sobre um parceiro mais desejável do que aquele com quem se está fazendo sexo.

A grande vantagem das fantasias é poder inventá-las da maneira que se quiser. Cada um é dono do seu próprio espetáculo: decide o elenco, o argumento, a direção, a edição, os ângulos de câmera e os efeitos especiais.

Além disso, não há motivos para se preocupar com críticas negativas ou censura: ela é a única pessoa que poderá ver as suas fantasias sexuais. Contudo, nem todos se sentem tranquilos dando asas livremente à imaginação. Muitos sentem culpa e se envergonham de suas fantasias, jamais as revelando para alguém.

As fantasias são, geralmente, associadas à ideia de desvio sexual, gerando forte sensação de inadequação. Fantasiar o que não é aceito socialmente — relações incestuosas, homossexuais, sadomasoquistas, etc — ameaça pelo temor de que acabe se tornando realidade. Para a grande maioria o dia-a-dia é regido por regras de comportamento e elas tendem a se enquadrar nos padrões aceitos.

Um documentarista que cobria os clubes sadomasoquistas de Hamburgo, Alemanha, entrevistou um homem de meia idade, ajoelhado, corrente presa ao pescoço, algemas nos punhos, vestindo tanga de borracha lilás. O sujeito engatinhava. Ao ser questionado quem era e por que estava ali, ele respondeu que trabalhava como executivo numa grande empresa, decidia tudo o tempo todo por todos. Ali, ajoelhado e humilhado, equilibrava a sua condição.

Apontado como grande saída para as crises conjugais, a fantasia sexual ainda é uma incógnita para a maioria dos casais. Em pesquisa de 1995, do psicólogo Sérgio Fleury, com 72 mulheres, quase 60% delas admitiram não contar ou escolher o que dizer aos parceiros. Segundo o mesmo estudo, 65% dos pares não expressam as próprias fantasias.

Sérgio acredita que a inibição feminina tem a ver com a culpa e a do homem com o mais puro machismo. Entregar o conteúdo de um desejo pode ser encarado também como uma forma de mostrar muito de si ao outro. As fantasias são formas de quebrar o lado fraternal do casamento, coisa que acontece com o tempo.

Uma pessoa pode sonhar com quem desejar e imaginar qualquer cenário e ritual para um encontro amoroso. Mas pesquisas indicam que as fantasias geralmente envolvem parceiros conhecidos, um ex-amor ou o marido da vizinha, ou mesmo a balconista do mercado. Os locais escolhidos também costumam ser bastante comuns. As atividades imaginadas se abrem para um arco que vai do romantismo açucarado até os malabarismos mais circenses.

Quanto a compartilhar a fantasia, não há consenso. Há especialistas, como o neurologista Martin Pörtner, recomendando que quanto menos se falar, melhor. Os parceiros devem descobrir as fantasias dos parceiros na cama e na prática. A verbalização desestimula, segundo ele.

Nenhum casal está livre do conflito das fantasias com terceiros. Em seu livro Psicopatologia das relações amorosas, Otto Kernberg afirma que os casais sempre dividem a cama com mais quatro pessoas: os rivais e os tipos ideais de cada par. Diante do inevitável, Kernberg alerta que a fantasia deve ir para o baú quando resulta em dor física ou emocional.

As pesquisas mostram que um entre quatro entrevistados tem fortes sentimentos de culpa ou vergonha por suas fantasias. Mesmo entre estudantes universitários americanos, cerca de 22% das mulheres e 8% dos homens afirmam que tentam reprimir suas fantasias.

Geralmente as pessoas visualizam situações, que não gostariam de experimentar na vida real. Elas se prestam basicamente para elevar o nível de excitação. E é provável que tais fantasias pertençam justamente a uma área de repouso da experiência humana, livre de explicações racionais.

E, dependendo das fantasias, mais prejudicial do que elas acontecerem na realidade é o sentimento de culpa e vergonha que provocam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.