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Regina Navarro Lins

Regina Navarro Lins

Carnaval e separação

Regina Navarro Lins

03/03/2014 23h08

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana nunca rompeu uma relação amorosa por causa do Carnaval. O resultado não deixa de ser curioso, já que todos os anos ouço relatos bem variados das brigas que acontecem entre namorados ou casados nesta fase do ano. Semana passada, um paciente me relatou, no consultório, o que viveu há um ano.

"Dizem que amor de Carnaval desaparece na fumaça… Mas comigo foi o contrário. Era um amor de antes do Carnaval. Estávamos namorando há três anos. Sei que ela me amava muito e tínhamos planos de casar. Mas eu gosto de Carnaval, e ela não. Consegui ir deixando pra lá… Viajávamos no período, até que no ano passado, caí na tentação de sair num bloco à tarde… Uma cerveja aqui, outra ali, e logo depois eu estava sambando abraçado com uma menina que nunca vi antes nem depois. Mas uma "amiga" fotografou-nos e postou no Facebook no dia seguinte. A casa caiu, perdi meu amor… Não houve explicação que adiantasse. Ela fez uma grande cena de ciúme, uma briga horrível, e rompeu a nossa relação. De agora em diante só namoro mulher que goste de carnaval…"

É difícil saber por que um casal começa a brigar. Na maior parte das vezes nem as pessoas envolvidas conseguem perceber o motivo. Mas no Carnaval é diferente; a maioria das brigas ocorrem por ciúmes. E não são poucos os casais que rompem a relação nesse período.

No Carnaval paira algo diferente no ar, uma espécie de sentir e agir que só se observa nesses dias. Impossível não perceber a sensualidade solta e a excitação brilhando no olhar das pessoas. A obrigação de se manter dentro dos limites de só ter olhos para o amado (a) cede espaço ao desejo de sexo longe de qualquer restrição. Alguns se controlam mais, outros menos.

A maioria das pessoas resolve bem as questões práticas da vida. Conseguem trabalho, alugam apartamento, brigam com o síndico, compram carro, criam filhos, mas reeditando a mesma forma primária de vínculo com a mãe, o antigo medo infantil de ser abandonado reaparece.

Ao acreditar que o amor é a solução de todos os problemas e o convívio amoroso é a única forma de atenuar o desamparo, a pessoa amada se torna imprescindível. Não se pode correr o risco de perdê-la. O receio de ser abandonado ou trocado por outra pessoa leva a se exigir do parceiro que não tenha interesse nem ache graça em nada fora da vida a dois, longe da pessoa amada. No Carnaval isso se acentua.

Mas quem é o ciumento? Geralmente, é quem apresenta duas características fundamentais: baixa autoestima e incapacidade de ficar bem sozinho. Quem é inseguro, não se acha possuidor de qualidades e tem uma imagem desvalorizada de si próprio, teme ser trocado por outro a qualquer momento. Para evitar isso, restringe a liberdade do parceiro e tenta controlar suas atitudes.

Só quem acredita ser uma pessoa importante não sente ciúme. Sabe que ninguém vai dispensá-lo com tanta facilidade. E se tiver desenvolvido a capacidade de ficar bem sozinho, sem depender de uma relação amorosa, melhor ainda. Pode até sofrer em caso de separação, mas tem certeza de que a vida continua.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.