Regina Navarro Lins

Por que homens e mulheres se estranham

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que respondeu à enquete da semana acredita haver uma guerra entre os sexos. E essa guerra começou há alguns milênios.

Revendo a minissérie Chiquinha Gonzaga, da TV Globo, que foi ao ar em 1999, fiquei pensando: “O que faria uma mulher de hoje se tivesse um pai ou um marido parecido com o pai ou o marido da Chiquinha Gonzaga?”

Ela foi a primeira mulher no Brasil a ser reconhecida como compositora de música brasileira. Mas quando jovem foi obrigada pelo pai a se casar com um homem que, mantendo-a sob controle, tentou privá-la de sua paixão, a música.

Durante todos os episódios da minissérie fica claro como era aceito naturalmente o domínio dos homens sobre as mulheres. O patriarcado é isso. Uma organização social baseada no poder do pai, em que descendência e parentesco seguem a linha masculina.

As mulheres são consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação. O estabelecimento desse sistema na civilização ocidental foi um processo gradual que levou quase dois mil e quinhentos anos, desde cerca de 3100 até se consolidar em 600 a.C.

Apoiando-se em dois pilares básicos — controle da fecundidade da mulher e divisão sexual de tarefas — a sujeição física e mental da mulher foi o único meio de restringir sua sexualidade e mantê-la limitada a tarefas específicas.

A fidelidade feminina sempre foi uma obsessão para o homem. É preciso proteger a herança e garantir a legitimidade dos filhos. Isso torna a esposa suspeita, uma adversária que requer vigilância absoluta.

Temendo golpes baixos e traições, os homens lançaram mão de variadas estratégias para controle da mulher. Ao homem, por não haver prejuízo para sua linhagem, concede-se o direito de infidelidade conjugal.

Esse antagonismo entre os sexos impede uma amizade e um companheirismo verdadeiros, fazendo com que a relação entre homem e mulher se deteriore. As relações conjugais têm sido de condescendência de um lado e obrigação de outro, cheias de desconfianças, ressentimentos e temores.

Às mulheres sempre foram negadas quase todas as experiências do mundo. Consideradas incompetentes e desinteressantes, ficam relegadas ao espaço privado ou impedidas de crescer profissionalmente. Numa empresa moderna, por exemplo, a remuneração da mulher, mesmo exercendo as mesmas funções do homem, é, ainda hoje, inferior.

As mulheres não existiam por si próprias. Eram definidas pelo seu relacionamento com o homem. As designações tradicionais para uma mulher têm demonstrado claramente essa verdade na cuidadosa descrição que fazem do seu status — senhorita (que não tem homem) ou senhora (que tem um homem ou já teve, mas ele partiu ou morreu) — e no significado da expressão “casar-se bem”.

Os filhos se identificam com o sobrenome que expressa unicamente a relação de parentesco com o pai. A maioria das mulheres passa a usar, quando casa, apenas o sobrenome do marido, em detrimento do seu próprio.

Tais condicionamentos são tão fortes que, mesmo quando a lei não mais obriga, como no Brasil, as mulheres consideram isso natural, sem se dar conta de que esse fato tem como origem deixar claro que a mulher é propriedade do homem.

Os homens, que aparentemente só têm a lucrar num sistema que os coloca numa posição superior, são seduzidos a lutar pela sua manutenção para continuar usufruindo dessas vantagens.

Entretanto, pagam um preço elevado para corresponder à expectativa de ser homem patriarcal. Como resultado da divisão da humanidade, assistimos à divisão dos seres humanos.

Para se adequar ao modelo patriarcal de homem e mulher, cada pessoa tem que negar parte do seu eu, na tentativa de ser masculina ou feminina.

Homens e mulheres são simultaneamente ativos e passivos, agressivos e submissos, fortes e fracos, mas perseguir o mito da masculinidade significa sacrificar uma parte de si mesmo, abrir mão de sua autonomia.

O patriarcado é um sistema autoritário tão bem-sucedido, que se sustenta porque as pessoas subordinadas ajudam a estimular a subordinação. Ideias novas são geralmente desqualificadas e tentativas de modificação dos costumes são rejeitadas explicitamente, inclusive pelas próprias mulheres, que, mesmo oprimidas, clamam pela manutenção de valores conservadores.

Surgida nos anos 60, a pílula anticoncepcional desferiu o golpe fatal nesse sistema, que se sustentou tanto tempo apoiado no controle da fecundidade da mulher. A partir de então a mulher tem filhos com quem quiser e quando quiser.

A consequência foi a gradual destruição de valores tidos como inquestionáveis no que diz respeito ao amor, ao casamento e à sexualidade, trazendo a perspectiva do fim da guerra entre os sexos e o surgimento de uma sociedade onde possa haver parceria entre homens e mulheres.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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