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Regina Navarro Lins

Amizade com amor

Regina Navarro Lins

03/11/2015 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

Quase todas as pessoas que responderam à enquete acreditam poder existir amor nas amizades.

Mas é curioso. Quando um repórter pergunta a um artista sobre seu relacionamento amoroso com alguém, é comum a resposta: "Somos apenas amigos." O que significa "sem muita importância".

Na nossa cultura se acredita que ser amigo é algo menor do que ser namorado, amante ou cônjuge. Para a grande maioria a amizade só tem importância enquanto se procura um par amoroso romântico. É como se fosse coisa provisória, descartável, que depois perde o valor.

Isso se comprova quando uma pessoa se afasta do grupo de amigos, e ouvimos como explicação que ela está namorando ou se casou. Todos encaram com a maior naturalidade o seu desaparecimento.

A questão é que a palavra amizade não tem um único significado, mas vários. É considerado amigo quem na realidade é só conhecido ou então colega de trabalho. Isso não quer dizer que não haja boa relação com essa pessoa. Muitas vezes conversamos com ela, sabemos o que pensa e até mesmo que tipo de problema está vivendo.

Podemos ajudá-la e também pedir, em determinadas situações, a sua ajuda. Mas é totalmente diferente do que sentimos por um amigo. Com um amigo há total confiança e liberdade, nos sentimos à vontade para dividir nossas intimidades mais secretas, e se acontece alguma coisa boa ou ruim na vida do amigo, ficamos alegres ou tristes como se tivesse acontecido conosco.

Nas relações com os conhecidos, ou mesmo nas chamadas relações de "amor" entre namorados e casados, é comum existir inveja, competição, maledicência.

A ideia de fusão com a outra pessoa, proposta pelo amor romântico, visando nos tornar completos, se presta a isso. Sendo uma parte nossa, o outro se torna depositário de todas as nossas dificuldades, e o responsabilizamos por nossos fracassos e frustrações.

Além disso, não há respeito pela individualidade do parceiro. Atitudes manipuladoras e possessivas predominam na relação, restringindo a liberdade de ambos.

Por isso, a definição de amor do filósofo T.W. Adorno se aplica muito mais ao amor que existe numa amizade verdadeira do que no amor fechado entre um casal: "Só nos ama aquele junto a quem podemos nos mostrar fracos sem provocar a força".

É importante ressaltar que é moralista e preconceituosa a ideia de que o que diferencia a amizade do amor é a ausência de desejo sexual. Os amigos podem ter ótimas relações sexuais, se forem pessoas inteiras, livres da ideia romântica de buscar no outro a complementação.

Por outro lado, é muito mais fácil superar a necessidade de complementação oferecida pela fusão romântica, quando se ama profundamente os amigos.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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