Regina Navarro

Prazer com eles e elas

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando a Pergunta da Semana

As opiniões se dividem na enquete sobre o predomínio da bissexualidade no futuro. Essa discussão existe desde a década de 70. A revista americana Newsweek de 27 de maio de 1974 trouxe uma matéria em que a cantora Joan Baez declarava que um dos maiores amores de sua vida havia sido uma mulher e que, após quatro anos de relacionamentos exclusivamente lésbicos, estava namorando um homem.

A partir dos anos 90 a discussão sobre bissexualidade se intensificou; muitos apostando nela como o sexo do futuro. A manchete de capa da mesma revista de julho de 1995 era: “Bissexualidade: nem homo nem hétero. Uma nova identidade sexual emerge”. Ainda nos anos 1990, o jornal Sunday Mirror divulgou trecho da biografia não-autorizada da atriz Sharon Stone. “Ela estava numa festa em Hollywood quando desapareceu acompanhada de uma atraente mulher. As duas só voltaram muito depois…a sobremesa já estava sendo servida. Mas ela também adora fazer sexo com homens. Sua secretária se encarrega de marcar todos os seus encontros amorosos.”

Outra estrela americana, Jodie Foster, teve seu desejo sexual por mulheres revelado num livro escrito por seu próprio irmão. Entrevistada pelos jornais, declarou: “Tive uma ótima educação, que nunca me fez diferenciar homens e mulheres.” Esses são apenas alguns exemplos dos incontáveis casos de bissexualidade famosos.

As estatísticas mostram que a grande maioria já sentiu de alguma forma desejo por ambos os sexos. Seríamos todos bissexuais dependendo apenas da permissividade do nosso meio social? O pesquisador americano Alfred Kinsey acredita que a homossexualidade e a heterossexualidade exclusivas representam extremos do amplo espectro da sexualidade humana. Para ele, a fluidez dos desejos sexuais faz com que para cada heterossexual exista pelo menos uma pessoa que sinta, em graus variados, desejo pelos dois sexos. Entretanto, essas sempre foram acusadas de indecisas, de estar em cima do muro, de não conseguir se definir.

Os heterossexuais costumam ver a bissexualidade como um estágio e não como uma condição alcançada na vida. Muitos gays e lésbicas desprezam os bissexuais acusando-os de insistir em manter os “privilégios heterossexuais” e de não ter coragem de se assumir. Por isso, é comum esconderem a sua dupla orientação na tentativa de se proteger das críticas.

Em 1975, a famosa antropóloga Margareth Mead declarou: “Acho que chegou o tempo em que devemos reconhecer a bissexualidade como uma forma normal de comportamento humano. É importante mudar atitudes tradicionais em relação ao homossexualismo, mas realmente não deveremos conseguir retirar a carapaça de nossas crenças culturais sobre escolha sexual se não admitirmos a capacidade bem documentada (atestada no correr dos tempos) de o ser humano amar pessoas de ambos os sexos.”

Muitos afirmam que romperiam um namoro ou casamento se descobrissem que seus parceiros são bissexuais. Mas isso é uma questão cultural. Na Grécia Clássica, há 2500 anos, a iniciação sexual de um jovem se dava com o seu tutor. E era considerado natural que os cidadãos gregos casados e respeitáveis tivessem relações sexuais com as esposas, as concubinas, as cortesãs e os efebos (jovens rapazes).

Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, que elaborou um profundo estudo sobre o tema, compara a afirmação de que os seres humanos são heterossexuais ou homossexuais às crenças de antigamente, como: o mundo é plano, o sol gira ao redor da terra. Acreditando que a bissexualidade tem algo fundamental a nos ensinar sobre a natureza do erotismo humano, ela sugere que em vez de hétero, homo, auto, pan e bissexualidade, digamos simplesmente ‘sexualidade’.