Regina Navarro

Até breve!
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

No mês de maio estarei fora, tirando férias de tantas questões amorosas que posto para a discussão entre os internautas, frequentadores deste blog. Espero trazer ideias e exemplos deste vasto mundo para discutirmos aqui. No dia 1º de Junho, nos encontraremos novamente. Até lá!


A importância da virgindade
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete não se importam com a virgindade. Pensando nessa questão, lembrei-me de Eleonora, uma psicóloga de 42 anos. Ela orgulha-se de ser moderna e da intimidade que tem com Taís, sua filha de 16 anos. Quando a jovem começou um namoro estável, procurou a mãe para falar que gostaria de ir a um ginecologista e tomar anticoncepcionais. “Não tenho nada contra você ter relações sexuais com seu namorado, desde que esteja certa de poder assumir essa responsabilidade, de que é um namoro sério, de que tenha certeza que o ama, tenha certeza de que ele não a esteja usando, que se o namoro terminar você não vai sofrer, que a camisinha não vai furar, que…”, foi a resposta de Eleonora.

Alguém aos 80 anos pode ter tantas certezas? E aos 16? Eleonora diz que aceita que a filha transe com o namorado, mas na verdade não quer que a filha inicie sua vida sexual. Será que ela percebe isso? Penso então que as mães de 40 anos atrás eram menos prejudiciais nessa área. Não davam duplas mensagens. Tudo era considerado proibido mesmo e dessa forma facilitavam a opção das jovens quanto à própria vida sexual. Seus valores eram passados com clareza e assim era fácil percebê-los como ultrapassados.

É evidente que a virgindade feminina é cada vez menos valorizada, mas não chega a ser questão tão natural como muitos pensam. Parece que a mulher não teve muita sorte ao receber de saída um hímen, que, ao indicar que sua vida sexual ainda não começou, aumenta os preconceitos e as restrições à sua sexualidade. Por mais que as práticas adotadas em cada lugar sejam variadas, sempre a virgindade da mulher é mais importante do que a do homem e seu prazer muito mais controlado.

O homem também é controlado, mas para deixar de ser virgem e transar com o maior número possível de mulheres. Numa sociedade patriarcal, todos cobram isso dele. Portanto, é inadequado, no caso do homem, usar a expressão perda da virgindade. A primeira experiência sexual é considerada um ganho, principalmente por reforçar a sua condição de macho.

Na adolescência surge forte interesse sexual nos jovens. A moça é incentivada a ser bonita e atraente, mas recatada. Se quiser ser valorizada, deve ter sempre um ar de quem não se interessa muito por sexo. A repressão sexual de que todos somos vítimas estimula a culpa da menina pelo despertar da sexualidade. São tantos os conselhos e proibições, tantos alertas em relação aos perigos envolvidos, tantas certezas exigidas, que ela se torna insegura e medrosa, sendo muito difícil desenvolver uma sexualidade saudável. Sem contar o temor de ser rotulada de galinha e, por isso, desvalorizada.

Durante muito tempo o controle da sexualidade feminina teve a intenção de impedir o sexo antes do casamento. A perda da virgindade pode ser vivida como uma experiência sem importância ou dramatizada ao ponto da ostentação pública de lençóis nupciais manchados de sangue. O sistema patriarcal passou a exigir a virgindade das noivas quando se tornou fundamental persuadir as mulheres que qualquer relação fora do casamento era pecaminosa. O controle da sexualidade feminina tinha como propósito garantir que o filho daquela união seria efetivamente produto de ambos os parceiros, além do fato de que uma virgem era uma mercadoria valiosa.

Todas as prescrições bíblicas para proteger a virtude feminina na verdade visavam proteger os direitos de propriedade dos homens em relação às suas esposas e filhos. Um homem que fizesse sexo com uma moça solteira e virgem, se descoberto deveria ressarcir o pai da moça em dinheiro. Quando havia a exigência legal de que o homem desposasse a moça, o único objetivo era proteger a economia masculina. A jovem tornou-se mercadoria sem valor e não seria justo sobrecarregar o pai com ela, e o homem que causou a perda deveria adquiri-la.

Sexo e reprodução estavam intimamente ligados e havia no homem o pavor de assumir um filho que não fosse seu. Principalmente por causa da herança, claro. Só depois da pílula, na década de 60, foi possível tomar conhecimento de que havia outros fatores, até então ocultos, alimentando o tabu da virgindade.

Os preconceitos fazem os jovens repetir, sem saber por quê, os valores que herdaram. Não é raro ouvirmos rapazes de 18, 19 anos, dizer que preferem moças virgens para namorar, sem nem explicar o motivo. Quanto mais a mulher aceita que o prazer no sexo é natural e deve ser desenvolvido, mais o homem fica inseguro quanto a sua competência sexual.

Isso faz com que prefira mulheres inexperientes para nunca ser comparado a outros homens. Contudo, hoje, pelo menos nos grandes centros urbanos, a maioria dos homens aceita namorar e casar com moças que já tiveram experiências anteriores. Mas não é uma evolução masculina espontânea. Com a emancipação feminina os homens se viram forçados a isso.

Sem dúvida, com todas as transformações que ocorrem no mundo, o homem que valoriza a virgindade da mulher não conseguiu ainda se libertar dos valores de uma sociedade autoritária. Sua submissão o impede de enxergar o sexo como algo bom, natural, fazendo parte da vida, e encontrar na troca de prazer com sua parceira uma fonte para seu desenvolvimento pessoal.


Difícil decisão: a esposa ou a outra?
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso do internauta, professor de 38 anos, casado há dez, três filhos, que se apaixonou por uma aluna, 14 anos mais jovem. Diz amar também a esposa, por quem tem enorme carinho. Mas precisa tomar uma decisão com urgência. Seu dilema é: escuta seu coração (a aluna por quem diz ter uma química perfeita) ou sua razão (a família).''

Apesar de nosso tabu cultural contra a infidelidade, são muito comuns as relações extraconjugais. Todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, amigos, religião – nos estimulam a investir nossa energia sexual em uma única pessoa. Mas a prática é bem diferente. Uma porcentagem significativa de homens e mulheres casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros.

Sentir tesão por alguém que não seja o parceiro fixo, quase todos sentem. Se vai ou não viver uma experiência sexual com essa pessoa, depende da visão que cada um tem do amor e do sexo. O problema é que muitos entram num namoro ou casamento acreditando que os dois têm que se transformar numa só pessoa.

A antropóloga americana Helen Fisher conclui que nossa tendência para as ligações extraconjugais parece ser o triunfo da natureza sobre a cultura. “Dezenas de estudos etnográficos, sem mencionar inúmeras obras de história e de ficção, são testemunhos da prevalência das atividades sexuais extraconjugais entre homens e mulheres do mundo inteiro. Embora os seres humanos flertem, apaixonem-se e se casem, eles também tendem a ser sexualmente infiéis a seus cônjuges.”, diz ela.

A poligamia – o homem ter mais de uma esposa de cada vez – é permitida em 84% das sociedades. Durante muito tempo se acreditou que só os homens tinham relações múltiplas. Entretanto, quando surgiram os métodos contraceptivos eficazes e as mulheres entraram no mercado de trabalho houve uma mudança no comportamento feminino.

Um dos pressupostos mais universalmente aceitos em nossa sociedade é o de que o casal monogâmico é a única estrutura válida de relacionamento sexual humano, sendo tão superior que não necessita ser questionado. Na verdade, nossa cultura coloca tanta ênfase nisso, que uma discussão séria sobre o assunto dos relacionamentos alternativos é muito rara.

Entretanto, as sociedades que adotam a monogamia têm dificuldades em comprovar que ela funciona. Ao contrário, parece haver grandes evidências, expressas pelas altas taxas de relações extraconjugais, de que a monogamia não funciona muito bem para os ocidentais.

É comum pessoas deixarem um bom casamento porque se apaixonaram por alguém novo, no que vem sendo chamado de monogamia sequencial. O argumento de que o ser humano é “predestinado'' à monogamia é difícil de sustentar. Portanto, uma vez que nós humanos nos damos tão mal com a monogamia, outras estruturas de relacionamento livremente escolhidas também devem ser consideradas.

Todas as restrições impostas e aceitas com naturalidade ameaçam muito mais a relação do que a “infidelidade”. Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. Quando a fidelidade se traduz por concessão que se faz ao outro, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a relação.

Algumas pessoas já estão se dando conta disso e, talvez por lidar melhor com o desamparo e não se submeter cegamente às normas sociais, ousam soluções nada convencionais.


“Meu dilema: escuto meu coração (minha aluna) ou a razão (minha família)?”
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Regina Navarro Lins

“Sou professor, 38 anos, casado há dez. Tenho três lindos filhos. O problema é que há mais de um ano tenho um caso com uma aluna (maior de idade) e 14 anos mais nova que eu. Além de jovem, é muito linda, inteligente, esforçada, honesta, e muito gostosa na cama. Uma combinação perfeita; foi impossível não me apaixonar por ela. Um outro ponto, boa parte dos prazeres do sexo ela aprendeu comigo, por exemplo, nunca havia gozado com os ex-namorados que tinham a mesma idade dela. Amo meus filhos, e não gostaria que eles fossem criados com pais separados. Amo também minha esposa, talvez não mais como homem, mas tenho um enorme carinho por ela, e acho muito injusto e errado o que estou fazendo, pois sempre considerei a fidelidade fundamental numa relação. Preciso tomar uma decisão com urgência, pois essa situação não pode mais continuar. Meu dilema é: escuto meu coração (minha aluna por quem realmente tenho uma química perfeita) ou minha razão (minha família)?''

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


O desempenho sexual do machão
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

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Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete acredita que o machismo prejudica o desempenho sexual masculino.

Mas acho que vai além; o machismo também prejudica muitos aspectos da vida de ambos os sexos. Homens e mulheres foram inibidos na sua capacidade para o prazer sexual. As mulheres tiveram sua sexualidade reprimida e distorcida, a ponto de até hoje muitas serem incapazes de se expressar sexualmente, muito menos atingir o orgasmo.

Os homens, por sua vez, também tiveram a sexualidade bloqueada. A preocupação em não perder a ereção é tanta que fazem um sexo apressado, com o único objetivo de ejacular. A mulher acaba se adaptando ao estilo imposto pelo homem, principalmente por temer desagradá-lo. Resultado? Nenhum dos dois usufrui do prazer que um bom sexo proporciona.

A sexualidade típica do machão é na maioria dos casos impessoal, estereotipada e limitada. Cumprir o papel de macho é o principal objetivo. Trocar afeto e prazer com a parceira é secundário. Importante mesmo é o pênis ficar ereto, bem rígido e ejacular bastante. A mulher, para tal homem, só é interessante como meio de lhe proporcionar esse prazer que, na realidade, não tem nada a ver com prazer sexual.

Durante muito tempo a visão que se teve da mulher, e na qual ela também acreditou, era assim: frágil, desamparada, necessitando desesperadamente encontrar um homem que lhe desse amor e proteção e, mais do que tudo, um significado à sua vida.

Mas quando começou o movimento de emancipação feminina, os homens ainda acreditavam que não tinham nada do que se libertar, desprezando o fato de que o sistema patriarcal oprime ambos os sexos, e estar submetido ao mito da masculinidade não é nada fácil.

A maioria dos homens ainda persegue o ideal masculino – força, sucesso, poder –, mas eles têm as mesmas necessidades psicológicas das mulheres: amar e ser amado, comunicar emoções e sentimentos. A questão é que desde crianças são ensinados a desprezar as emoções delicadas e a controlar os sentimentos.

Demonstrar ternura, se entregar relaxado à troca de prazer sexual com a parceira, é difícil; perder o controle ou falhar é uma ameaça constante. O processo de socialização que transforma os meninos em homens “machos” impede a espontaneidade na relação com as mulheres. É impossível ser amoroso quando se é “travado” emocionalmente.

Nos papos com os amigos eles aprendem a contar vantagens, suas conquistas sexuais e detalhes engraçados sobre as transas, muitas vezes desvalorizando as mulheres. Se os fatos correspondem ou não à realidade é o que menos importa. O sexo passa a ser um esporte, um jogo, em que se disputa a dominação da mulher.

Esse roteiro “homem-caçador''/ “mulher-presa'' causa sérios prejuízos à sexualidade masculina. Os homens são levados a organizar sua energia e percepção em torno do desempenho e, assim, se transformam em máquinas de fazer sexo, preocupados apenas em “marcar pontos” e ter ereções.

Apesar das aparências em contrário, na vida adulta a sexualidade masculina continua sendo uma experiência ansiosa e limitada. Poucos homens conseguem conhecer a intimidade emocional com a mulher, em vez de somente a sexual.

Pesquisas mostram que os homens que definem as relações humanas em termos de papéis rígidos “masculino-superior” e “feminino-inferior”, assim como os que definem sua identidade masculina em termos de controle, violência e repressão dos afetos, apresentam, em muitos casos, um quadro de deterioração da sexualidade.

É inegável que a masculinidade está em crise. Nos últimos quarenta anos foi constatado nos homens o aumento da depressão psicológica e em vários países registram-se doenças do homem esgotado. Todo o esforço exigido deles para ser considerados “homens de verdade'' provoca angústia, medo do fracasso e dificuldades afetivas.

Mas como resolver o impasse entre a proibição social de expressar sentimentos considerados femininos e a crítica cada vez mais acirrada ao homem machista? Como os homens podem recuperar sua autonomia?

Talvez o jeito seja se unir às mulheres e, examinando o mito da masculinidade, repudiar essa masculinidade como natural e desejável. Nem todos aceitam o roteiro do macho e cada vez mais homens, em todo o mundo, tomam consciência da desvantagem desse papel e empreendem a desconstrução e a reconstrução da masculinidade.

Pouco antes de ser assassinado, John Lennon declarou publicamente: “Gosto que se saiba que, sim, cuido do bebê e faço pão, que eu era dono de casa e me orgulho disso.” E se isso fere o papel masculino, ele pergunta: “Não está na hora de destruirmos a ética do macho?… A que nos levaram todos esses milhares de anos?”


Três é demais?
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

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Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso do internauta que reclama da mulher. Diz que na época do namoro ela se mostrava liberal e dizia que faria sexo a três ou a quatro sem problemas. Mas depois do casamento, se mostrou conservadora e nem quer falar sobre o assunto.

Para os jovens dos anos 60, a geração que ficou conhecida por seu interesse em sexo, drogas e rock and roll, e cujo slogan favorito era make love, not war, o sexo vinha indiscutivelmente em primeiro lugar. A busca era por uma gratificação sexual plena. A liberdade sexual foi o traço de comportamento que melhor caracterizou o Flower Power.

Havia a contestação dos costumes e dos padrões de nossa sociedade judaico-cristã, nossas tradições e preconceitos. Enfim, nossas instituições sociais. A palavra de ordem era “drop out” – cair fora do “sistema”, já que havia a recusa do modo de vida convencional.

Desde então entramos num processo de profunda mudança das mentalidades e novas formas de se viver o amor e o sexo se tornam cada vez mais comum. O sexo a três é uma prática bastante procurada por pessoas solteiras, mas também por muitos casais. Entretanto, nem sempre as coisas são simples.

A conhecida sexóloga americana Ruth Westheimer publicou, em 1995, em sua coluna de jornal, um carta de um homem idoso envolvido com sua esposa e a viúva de seu melhor amigo (falecido pouco tempo antes). Os três gostavam de fazer sexo a três, mas havia uma dificuldade com o sexo oral: a viúva gostava dele, mas a esposa nunca o havia praticado e se ressentia por ele estar sendo realizado.
A sexóloga afirmou então que estas situações são muito delicadas, por isso, ele deveria desistir da prática. “Ao contrário, acho a situação ao mesmo tempo normal e tocante. A viúva está buscando uma família para compensar sua perda. Ela quer prosseguir sua vida sexual e revigorou a vida sexual do casal. Agora, os três têm de conversar sobre o que cada um desejava, e temia, nos últimos quarenta anos. Isso é ruim, Dra. Ruth?” , perguntou uma leitora.

Para reforçar a ideia do sexo a três, o americano Robert Wright, estudioso do tema, afirmou que descobriu, em uma pesquisa, que “os humanos não são uma espécie que se liga aos pares. As mulheres são promíscuas por natureza, desejando mais que um parceiro, e os homens são ainda piores.”

Contudo, para a grande maioria essa prática sexual ainda parece estranha. Afinal, fomos condicionados ao mito do amor romântico, no qual duas pessoas se transformam numa só, havendo complementação total e nada lhes faltando. Fomos ensinados a acreditar que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém, que o amado é a única fonte de interesse do outro.

Esse ideal amoroso começou no século 12, mas ficou à margem do casamento, até meados do século 20. É o amor desejado por homens e mulheres.
Mas podemos observar sinais de que o amor romântico começa a sair de cena, levando com ele a idealização do par romântico, a ideia dos dois se transformarem num só, e consequentemente a ideia de exclusividade. Outras formas de amor, aos poucos, vão se tornando possíveis.

“O amor tem tantas faces quantas tem uma pessoa. Não somos seres com uma única dimensão, nossa identidade não é um produto unificado e acabado. Temos necessidades variadas e contraditórias que às vezes se expressam em diferentes envolvimentos com diferentes pessoas, sem se esgotar numa única forma. Há relacionamentos amorosos baseados no compromisso e em projetos comuns (casamento), outros com ênfase no aspecto erótico, outros em afinidades intelectuais ou outras, alguns sobrevivem às distâncias e ao tempo, outros exigem proximidade, e assim por diante.” , diz a psicanalista Noely Moraes.

O desejo crescente, que se observa em homens e mulheres, de participar de uma relação amorosa a três é provavelmente consequência da diminuição do ideal de fusão com uma única pessoa, característica do amor romântico.

O comportamento sexual evolui após as vanguardas apontarem tendências e arriscarem novos caminhos. As escolhas do passado não são irreversíveis. Aos que resistem às mudanças, desacreditando em novas formas de viver, é importante lembrar que há cem anos os casais mantinham relações sexuais com luz apagada e sob lençóis.

Hoje práticas, que só eram usuais nos bordéis, fazem parte da intimidade das famílias mais respeitadas. Há 50 anos era impensável uma moça deixar de ser virgem antes do casamento. Agora, isso não é nem discutido; muitos namorados dormem juntos à vista dos próprios pais.

Entretanto, penso que da mesma forma como ocorre com qualquer outra prática sexual, o sexo a três só tem sentido se as pessoas envolvidas o desejarem.
Em hipótese alguma deve ser praticado para agradar o outro ou para corresponder a expectativas que não estejam diretamente ligadas ao prazer sexual. Caso contrário, podem surgir mágoas e ressentimentos. O preço para a relação pode ser tão alto, a ponto de inviabilizá-la.


“Ela se mostrava liberal e dizia que faria sexo a 3. Agora, não aceita!”
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Regina Navarro Lins

“Quando éramos namorados, ela se mostrava liberal e dizia que faria sexo a três ou a quatro sem problemas. Porém, depois do casamento, se mostrou conservadora e nem quer falar sobre o assunto. Tenho vontade de realizar minhas fantasias, sempre junto com minha esposa, mas acho que isso nunca vai acontecer. Já pensei até em me separar. O que devo fazer, pois não quero simplesmente optar pela traição?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


A experiência como ameaça
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete acredita que a mulher não deve esconder sua experiência sexual do futuro marido. Mas nem sempre isso é simples. Pensando no tema, lembrei-me de uma discussão entre meus alunos da faculdade.

A maioria deixava claro sua restrição em namorar moças que haviam tido várias experiências sexuais. Um dos rapazes, indignado com o conservadorismo da turma, pediu a palavra e fez um pequeno discurso em que se dizia liberal, sem preconceito algum.

E para demonstrar que na prática o que dizia era verdade, afirmou, sentindo-se superior aos colegas: “Eu não tenho o menor problema em namorar uma mulher que tenha tido outros parceiros antes de mim. Desde que no máximo três!”

Será que na realidade, se fosse possível, os homens não escolheriam ainda mulheres virgens para casar? É evidente que isso é cada vez menos valorizado, mas a liberdade sexual da mulher, pelo jeito, não chega a ser questão tão natural como muitos pensam.

Parece que ela não teve muita sorte ao receber de saída um hímen, que, ao indicar que sua vida sexual ainda não começou, aumenta os preconceitos e as restrições à sua sexualidade.

Por mais que as práticas adotadas em cada lugar sejam variadas, sempre a virgindade da mulher é mais importante do que a do homem e seu prazer muito mais controlado. O homem também é controlado, mas para deixar de ser virgem e transar com o maior número possível de mulheres. Numa sociedade patriarcal, todos cobram isso dele.

Na adolescência surge forte interesse sexual nos jovens. A moça é incentivada a ser bonita e atraente, mas recatada. Se quiser ser valorizada, deve ter sempre um ar de quem não se interessa muito por sexo. A repressão sexual de que todos somos vítimas estimula a culpa da menina pelo despertar da sexualidade.

São tantos os conselhos e proibições, tantos alertas em relação aos perigos envolvidos, tantas certezas exigidas, que ela se torna insegura e medrosa, sendo muito difícil desenvolver uma sexualidade saudável. Sem contar o temor de ser rotulada de “galinha” e, por isso, desvalorizada.

Durante muito tempo o controle da sexualidade feminina teve a intenção de impedir o sexo antes do casamento. Sexo e reprodução estavam intimamente ligados e havia no homem o pavor de assumir um filho que não fosse seu. Principalmente por causa da herança, claro.

Só depois da pílula, na década de 60, foi possível tomar conhecimento de que havia outros fatores, até então ocultos, alimentando esse controle. Os preconceitos fazem os jovens repetir, sem saber por quê, os valores que herdaram.

Quanto mais a mulher aceita que o prazer no sexo é natural e deve ser desenvolvido, mais o homem fica inseguro quanto a sua competência sexual. Isso faz com que prefira mulheres inexperientes para nunca ser comparado a outros homens.

Contudo, hoje, pelo menos nos grandes centros urbanos, a maioria dos homens aceita namorar e casar com moças que já tiveram diversas experiências anteriores. Mas não é uma evolução masculina espontânea. Com a emancipação feminina os homens se viram forçados a isso.

Sem dúvida, com todas as transformações que ocorrem no mundo, o homem que valoriza a mulher inexperiente não conseguiu ainda se libertar dos valores de uma sociedade autoritária.

Sua submissão o impede de enxergar o sexo como algo bom, natural, fazendo parte da vida, e encontrar na troca de prazer com sua parceira, independente da intensidade da sua vida sexual, uma fonte para seu desenvolvimento pessoal.