Regina Navarro

“Sou casada, mas criticada pelas mulheres por ser livre” O que você faria?
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Regina Navarro Lins

“Minha mãe foi o meu exemplo. Separou-se de meu pai nos anos 80, logo depois que nasci e foi viajar pelo mundo acompanhando uma trupe aonde ela namorava um dos músicos. Fui criada pela minha avó, mas não perdi o contato com ela. Ao criar minha própria família adotei a sua independência. Fiz meu marido perceber que não sou uma mulher “do lar”. Ele aceitou porque me ama. Fica com nossos filhos quando saio só e não me impede de viajar também sozinha. Mas, por incrível que pareça, sou criticada por… MULHERES!!! Amigas e parentes dizem que minha atitude vai trazer infelicidade para todos nós, que a mulher só pode trabalhar se a prioridade for cuidar dos filhos, etc… Será que estou errada? O que devo fazer?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Ausência de ciúme não é desamor
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

ILUSTRAÇÃO

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana acredita que não sentir ciúme é falta de amor. A qualquer momento, inesperadamente, pode surgir o ciúme numa relação amorosa: na fase da conquista, no período da paixão, durante o namoro ou casamento e até mesmo depois de tudo terminado. Alguns o consideram como universal, inato. Outros, entre os quais me incluo, acreditam que sua origem é cultural, mas é tão valorizado, há tanto tempo, que passou a ser visto como parte da natureza humana.

A relação amorosa entre homens e mulheres sempre foi prejudicada pelo ciúme. Inicialmente o do homem estava ligado ao medo de falsificação da descendência — dar o próprio nome e criar um filho que não fosse seu. Esse temor serviu para justificar a extrema violência que as mulheres sofreram nas sociedades patriarcais. Para elas, que só podiam exprimir dedicação e obediência, esse sentimento era proibido de se manifestar, caso existisse.

A revolução sexual dos anos 60 irrompeu no Ocidente trazendo a separação definitiva entre sexo e reprodução e, consequentemente, a igualdade de condições entre homens e mulheres nessa área. No entanto, com toda a liberação, e ao contrário do que se poderia supor, o homem ficou mais ciumento e a mulher passou a expressar ciúme na mesma intensidade que ele.

Pesquisa feita nos Estados Unidos comprovou que nenhum dos sexos é mais ciumento que o outro — embora se comportem de maneira diferente. As mulheres em geral são mais propensas a fingir indiferença, enquanto os homens, com mais frequência terminam um relacionamento quando sentem ciúmes, acreditando que assim recuperam sua autoestima e reputação.

Mas por que o ciúme é aceito como fazendo parte do amor? Por que se defende a sua presença numa relação amorosa, mesmo sabendo que o preço a pagar é tão alto?

Encontramos ao menos parte da resposta na forma como o adulto aprendeu a viver o amor, que é em quase todos os aspectos semelhante à forma da relação amorosa vivida com a mãe pela criança pequena. Por se sentir constantemente ameaçada de perder esse amor — sem o qual perde o referencial na vida e também fica vulnerável à morte física — a criança se mostra controladora, possessiva e ciumenta, desejando a mãe só para si.

Esse risco, que é verdadeiro na infância, continua sendo alimentado por uma educação que não permite aos jovens se desligar da dependência emocional dos pais. Quando surge uma relação amorosa, eles passam de uma dependência para outra.

Agora, por conta de todo o condicionamento cultural, é através da pessoa amada que se tenta satisfazer as necessidades infantis. Reeditando a mesma forma primária de vínculo com a mãe, o antigo medo infantil de ser abandonado reaparece e a pessoa amada se torna imprescindível. Não se pode correr o risco de perdê-la. O controle, a possessividade e o ciúme passam, então, a fazer parte do amor.

Quando a pessoa consegue elaborar bem a dependência infantil e também se libertar da submissão aos valores morais, se percebe menos ciumenta. Ao mesmo tempo que deixa de considerar falta de amor se o parceiro (a) não manifesta ciúmes.

Caso contrário, é difícil ter autonomia suficiente e podem reaparecer as antigas inseguranças, com exigência de exclusividade no amor. Como são poucos os que se sentem autônomos, observa-se uma busca generalizada de vínculos amorosos que permitam aprisionar o outro, mesmo à custa da própria limitação.

A questão do ciúme também está ligada à imagem que cada um faz de si. Quem tem a autoestima elevada e se considera interessante e com muitos atrativos não supõe que será trocado com facilidade. E se a relação terminar, sabe que vai ficar triste e sentir saudade, mas também sabe que vai continuar vivendo sem desmoronar.


Quando o homem é vítima na separação
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso do internauta que quis se separar da mulher porque o casamento ia mal. Paga pensão, mas é tratado como bandido que abandonou o lar. Teme que a ex ponha seus filhos definitivamente contra ele.

Não tenho dúvida de que o divórcio é, muitas vezes, a melhor opção, apesar de geralmente ser um período bem difícil. Penso ser importante analisar sob dois ângulos a situação vivida pelo leitor. O primeiro é a dor que uma separação provoca em quem não deseja o afastamento.

Quando alguém deixa de ser amado é tomado por uma profunda angústia e tristeza. A maioria das pessoas só se sente valorizada, especial, com certeza de possuir qualidades, se tiver um parceiro amoroso.

Mesmo que o parceiro não satisfaça nem preencha suas necessidades afetivas e sexuais, a separação é dolorosa porque impõe o rompimento da fantasia do par amoroso, tão cultivada por todos. No caso de uma separação conjugal há ainda uma agravante: a sensação de fracasso, já que desde criança todos aprendem que o casamento é o lugar onde uma pessoa pode se realizar afetivamente.

Acrescente-se a isso a baixa autoestima que ocorre nessas situações e as inseguranças pessoais que reaparecem. O resultado são separações em que a hostilidade e o ódio pelo outro chegam a níveis extremos. E isso pode ocorrer com qualquer um, independente do sexo.

O outro aspecto, que já devia estar sendo discutido mais amplamente, é a situação do homem atual. Durante milênios as mulheres perceberam o homem do mesmo modo como ele aprendeu a se definir: um ser privilegiado, acreditando ser mais forte, mais corajoso, mais decidido, mais responsável, mais criativo e mais racional.

Claro que isso serviu bem para justificar a dominação da mulher por tanto tempo. Contudo, de trinta e poucos anos para cá, as mulheres começaram a exigir o fim da distinção dos papéis masculinos e femininos, e a certeza do homem superior à mulher foi abalada.

Diante dessa nova mulher desconhecida, muitos homens passaram a questionar a identidade masculina, desejosos de se libertar desses papéis tradicionais a eles atribuídos.

Não mais subjugados ao mito da masculinidade, acreditando na igualdade entre os sexos, buscam uma vida afetiva com suas parceiras livres de obrigações e cobranças, que só servem para impedir uma relação verdadeira com elas. Mas nem todas as mulheres se deram conta disso.

Muitas continuam alimentando a mesma forma de pensar e agir de sempre: a mulher é frágil, desamparada, necessitando desesperadamente de um homem ao lado, que lhe dê amor e proteção e, mais do que tudo, que dê um significado à sua vida. Ao mesmo tempo em que qualquer homem é visto como perigoso, sempre disposto a enganar.

Dentro dessa ótica, a separação é percebida como um ataque, merecendo, portanto, ser revidado. O simples fato de um homem não desejar mais a continuidade do casamento o transforma de imediato no déspota opressor, tão conhecido na história do patriarcado.

Afinal, o que mais poderia se esperar de um homem? Com os estereótipos masculinos falando mais alto, surge o desejo de vingança. E para que ela tenha êxito, não se pode aceitar que a meta de todos deveria ser a busca de uma vida realmente satisfatória.

É certo que a mudança das mentalidades demora algumas vezes mais de cem anos para se concretizar, mas isso não importa, desde que se abra um espaço definitivo para a autonomia de homens e mulheres.

Enquanto isso, sorte de quem tem coragem para aproveitar este momento, em que, felizmente, a culpa e os sacrifícios estão sendo substituídos pela possibilidade de prazer.


“Quis me separar, pago pensão, e sou tratado como bandido” O que vc faria?
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Regina Navarro Lins

“Quando me separei pude constatar a veracidade dos depoimentos de amigos que haviam vivido a experiência. Toda a ‘máquina legal’ estava contra mim, porque sou homem. Quando achei que o casamento estava chato, sem amor, resolvi sair fora, ir em busca de outra pessoa. Só que aí o mundo caiu na minha cabeça. Fui tratado como o ‘pária que abandonou o lar’. Mas não é melhor que nossos filhos vivam com cada um de nós sendo felizes do que assistir ao eterno desamor entre os pais? Mas esse argumento não cola. Entreguei a casa, pago pensão extras e sou tratado como um bandido. Tenho medo de que ela ponha meus filhos definitivamente contra mim. O que fazer?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Provocando insegurança no parceiro (a)
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A grande maioria das pessoas que responderam à enquete da semana já sentiu o parceiro (a) tentando lhe deixar inseguro (a). Em muitos relacionamentos observamos uma espécie de terrorismo íntimo.

Júlia fez uma severa dieta para perder os quilos excessivos. Estava feliz se sentindo bonita, até Gustavo, seu marido, lhe dizer delicadamente: “Se não fossem as suas estrias, você seria uma gata.”

Paulo ia fazer uma exposição oral para ser aprovado num concurso. Era a última etapa. Antes de sair de casa, Mara, sua mulher, lhe disse carinhosamente: “Estou torcendo por você… só fico preocupada porque você nunca consegue se expressar bem.”

Exemplos de “derrubadas” assim não são raros. Há casais em que os ressentimentos dominam a relação, e eles não são capazes de se unir nem de se separar. Encontramos com frequência relações amorosas em que há luta pelo poder.

Muitas vezes, o poder, que se mascara como amor, assume um papel bem importante na união de duas pessoas. “Estou fazendo isso para o seu bem.”, é uma frase que pode significar justamente o contrário.

O psicoterapeuta americano Michael Miller, estudioso do tema, diz que se observam em relacionamentos com essa característica duas pessoas preocupadas em atacar a segurança ou a autonomia uma da outra, provocando recíproca ansiedade.

Apesar de nenhuma delas estar preparada para abrir mão do relacionamento, cada uma tem como objetivo tomar o controle dele. Em sua busca de poder na relação atacam-se os pontos mais vulneráveis do parceiro (a).

Usam-se ameaças, alimentam-se o medo e a dúvida, de forma a paralisar a vontade do seu oponente. Cada troca de palavras sugere um significado diferente do que apresenta na superfície porque praticamente cada coisa pode ser utilizada para prolongar a batalha pelo controle.

Alguns casais vivem assim quase o tempo todo. Muitos deles passam a vida juntos, frios um com o outro, sem comunicação, talvez com frequentes explosões – como duas pessoas que se esforçam para evitar brigas “por causa das crianças” ou para não escandalizar os vizinhos, mas, acima de tudo, para manter o casamento mais ou menos intacto.

Quando falam de separação, é mais uma tática de intimidação do que a de real intenção de se afastarem. Falam de várias coisas, mas todos os tópicos estão contaminados pela luta pelo poder que impele a ambos. Cada um se sente roubado e tenta controlar o outro de modos diferentes: ela reclama por mais intimidade; ele exige mais liberdade, por exemplo.

Na realidade, amor e poder nunca vão funcionar bem juntos. Não é novidade que toda relação íntima deve levar em conta as necessidades de cada uma das partes, tanto para o estar juntos como para a autonomia.


Os conquistadores
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que é casada com um conquistador, um homem que não consegue deixar de seduzir mulheres a sua volta.

Um dos mais antigos e resistentes mitos da sexualidade é o conquistador. Conhecido por donjuanismo, em referência ao personagem Don Juan, identifica pessoas que se dedicam a manter o maior número possível de conquistas. As motivações variam de personagem e de época. As interpretações vão desde a vaidade e o colecionismo até problemas emocionais.

A principal oposição ao mito é a demonização empreendida pela religião ao sexo pelo sexo. Mas deve ser considerada a posição subalterna da mulher até recentemente, e o seu valor como patrimônio. O conquistador, nesse conceito, seria um abastado possuidor de bens vivos, como qualquer outro acumulador de riquezas. A revolução sexual e o movimento feminista, os novos tempos, enfim, fazem do Don Juan espécie em extinção.

Don Juan, mito originário da Espanha, narra a sedução da filha do comandante da guarnição militar de Sevilha. Após o ato infame, Don Juan mata, num duelo, o comandante e oferece banquete ao lado da estátua da vítima. O monumento de pedra adquire vida e arranca Don Juan da mesa lançando-o aos infernos.

A narrativa, de 1630, é atribuída a Tirso de Molina e recebeu o título original de El Burlador de Seville (O libertino de Sevilha). É forte seu apelo junto ao público e muitas são as versões desde o século 17. O seu interesse demonstra a força do argumento: herói tragicômico dedicado à sedução.

Ao lado de Don Juan, mas de comprovada existência, está Giacomo Girolano Casanova (1725-1768), veneziano aventureiro, foi criado pela avó e se tornou um arrivista buscando a ascensão social pela conquista de damas bem nascidas. Em vão. Morreu célebre e perseguido por clero e nobreza, que não viam nenhuma graça em suas estripulias sexuais.

Casanova registrou suas memórias em mais de mil páginas, documento precioso sobre as relações amorosas e sociais daquele século. O imaginário romântico se cristaliza no texto em descrições de passagens secretas e alcovas de damas infiéis ou duelos travados à primeira luz da manhã, quando a honra de noivos e maridos era defendida até a morte. “Sou suficientemente rico, de aparência imponente e agradável, jogador inveterado, mão aberta, amigo do discurso, mas sempre mordaz, nada modesto, intrépido, galanteador, hábil em suplantar rivais, só reconheço como boa companhia aquela que me diverte”, se descreve.

Ele oscilou todo o tempo entre se tornar um cidadão respeitável ou se aprofundar na libertinagem. A avaliação que faz após uma conquista demonstra esse espírito: “Resolvi-me a fazer a felicidade de Cristina, sem, no entanto casar-me com ela. Tinha me vindo a ideia de desposá-la, quando a amava mais do que a mim próprio, mas após a satisfação do desejo a balança se inclinara a meu favor e meu amor próprio se tornara maior do que tudo”.

Entre aventuras, Casanova expôs sua visão do mundo e da vida amorosa. “Se as mulheres tivessem igual fisionomia, caráter e espírito, não só os homens deixariam de ser inconstantes, como jamais se apaixonariam. Cada qual tomaria uma delas, indistintamente, e assim passaria o resto da vida. O tirano de nossa alma é a novidade. Bem sabemos que o que não vemos é mais ou menos o que já vimos. Mas continuamos em busca de algo inédito”.

Casanova via o mundo como um parque de diversões onde o prazer está disponível: “O amor deve ser encarado como matéria de fantasia, adaptando-se às circunstancias e prestando-se de bom grado às combinações do acaso”. Ou ainda: “Ninguém ignora que o amor, encorajado por tudo quanto o possa excitar, não se detém senão quando já satisfeito, e cada favor obtido nos impele a outro maior”. Ele tinha mais prazer na sedução do que no próprio ato amoroso. A conquista para o sedutor se torna espécie de jogo.

Entretanto, alguns homens precisam de auxílio nas suas conquistas. A timidez ou a certeza de que uma dama pode ser o melhor caminho para se chegar até a outra, fizeram com que Shane Forbes criasse o site Wingwomen (mulheres asa).

Shane notou que ao chegar acompanhado em festas ou outros encontros sociais, acabava conhecendo mulheres. O negócio que criou funciona com jovens garotas, que chegam com o cliente no local escolhido por este. Após decidirem o alvo, a mulher-asa se aproxima, faz o contato e logo depois apresenta o cliente. A hora da wingwoman sai por U$50. O site de Forbes contratou dezenas de garotas bonitas e desinibidas, que fazem a ponte entre seus clientes e as mulheres que lhes interessam.

Contudo, o movimento feminista e a liberação sexual tornaram os conquistadores tipos meio ultrapassados. A ideia de machos colecionarem conquistas entrou em declínio. Eles não deixaram de existir, nem sucumbirão apenas por uma questão de moda. O que mudou é a propaganda que fazem disso. As conquistas estão abertas a todos: homens e mulheres, de todas as orientações sexuais.


“Ele é um conquistador irrecuperável. Como continuar casada assim?”
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Regina Navarro Lins

“Conheci um homem mais velho num evento social e fui envolvida por ele, que nem faz muito o meu tipo. Sua gentileza e cultura aliada com um senso de humor me conquistaram. Tornei-me sua amante e depois sua mulher. Tudo ia às mil maravilhas até se revelar sua faceta de conquistador irrecuperável. Fui descobrindo que mulheres próximas de nós, como a síndica, por exemplo, já haviam passado por sua cama. Amigas minhas sucumbiram ao seu charme. Minhas reclamações sempre foram contornadas por ele. Quase nos separamos quando descobri que ele transou com a minha irmã. O pior é que gosto dele. Mas estou me afastando de todos. Como continuar casada com um homem assim?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Amor levando ao fim
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A grande maioria das pessoas que responderam à enquete da semana já pensou em se matar por amor em algum momento da vida. O fim de um relacionamento é tão doloroso, que muitos estudiosos consideram o sofrimento comparável em intensidade à dor provocada pela morte de uma pessoa querida.

Quando alguém é abandonado se convence de que não foi o que deveria ter sido e não deu o que deveria ter dado ao outro. A pessoa se responsabiliza por ter falhado. Este é o momento em que se deseja morrer, de alguma doença ou de um acidente, porque não é suportável a ideia de que o abandono foi causado por uma insuficiência própria. Os suicídios se situam aí, ou seja, quando a relação é vivida como fracasso e surge a certeza da incapacidade de manter o outro interessado.

O sentimento de desvalorização é intenso. O filósofo dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) expressou bem essa ideia: “Desesperar-se por qualquer coisa não é ainda, pois, o verdadeiro desespero. É o princípio; é como quando o médico diz que a doença ainda não se manifestou. O estágio próximo é a manifestação evidente: desesperar-se de si mesmo.”

O sentimento de culpa tortura a alma da mulher abandonada. Repete mil vezes para si mesma que não conseguiu manter o amor do homem, que não tem atrativos, que tudo é culpa dela. O ódio que ela sente do homem que a abandona e da mulher que o roubou transforma-se em ódio de si mesma. Assim como a poeta grega Safo, que abandonada pela amante, atirou-se ao mar do rochedo de Leucade, ela opta pelo suicídio.

Quando o homem avisa que vai lhe abandonar e diz: “Adeus… Não chore, por favor… Que é que eu posso fazer? Não te amo mais…Não chore. Não quero que você sofra… Adeus. Ele deixou de amá-la, e ela deixou de amar a si mesma. Sem perceber, ele já começou a matá-la em sua identidade de amante, de companheira, de mulher. A morte física é a continuação da morte psíquica provocada pelo abandono.” , diz a escritora Carmen Posadas.

Quanto mais violento o ato suicida, mais evidente é o desejo de desforra. Carmen acrescenta que a mulher rejeitada desliga a máquina social das aparências que mantinha viva e escolhe a morte para jogar na cara de seu companheiro mal-agradecido o quanto o amou e o quanto sofreu por sua culpa. O desejo de desforra é o pano de fundo mais comum do ato suicida. Ferida, a vítima fraudada da paixão deseja que quem a abandonou nunca se esqueça do terrível mal que lhe causou.

“Embora seja uma solução escolhida preferencialmente pelas mulheres, também há homens que se suicidam por serem rejeitados. Está na memória literária de todos os espanhóis o final trágico de Larra, o romântico em ação, que se suicidou com um tiro de pistola em 1837, no auge de sua juventude, por ter sido rejeitado pela mulher amada. Os homens também se suicidam e também matam mulheres. Os motivos do suicídio e do crime passional são os mesmos. Até o último momento o amante pode vacilar entre o crime e o suicídio.'', acrescenta a autora.