Regina Navarro

“Minha namorada me excita e sempre interrompe, me frustrando” O que fazer?
Comentários 22

Regina Navarro Lins

“Eu e minha namorada estamos juntos há oito meses, nos damos bem em todos os aspectos, mas nossa vida sexual é péssima. Nossa relação está comprometida pela sua atitude em relação ao sexo. É comum ela me excitar, eu ficar louco de tesão e, de repente, ela interromper tudo com qualquer desculpa. Já conversei com ela muitas vezes, mas não adianta. É sempre a mesma coisa. Quase não transamos e fico bastante frustrado. O que faço?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


A primeira relação sexual
Comentários 15

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana considera que existe uma idade adequada para a primeira relação sexual. Mas qual seria? Como os jovens poderiam desenvolver uma sexualidade sadia?

Não podemos nos esquecer de que ainda hoje as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. Por conta de todos os preconceitos, ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto. Sem ser percebida, a repressão sexual vai se instalando e condiciona o surgimento de valores e regras para controlar o exercício da sexualidade.

Afinal, controlar os prazeres das pessoas é controlá-las. O prazer sexual, por pertencer à natureza humana e atingir a todos sem exceção, sempre foi visto como o mais perigoso de todos.

Até o início do século 20, as moças iniciavam a vida sexual por volta dos 13, 14 anos ou até antes. Por questões econômicas ou de sobrevivência, geralmente por imposição da família, se casavam cedo e o objetivo do sexo era apenas gerar filhos.

O prazer praticamente só existia para o homem. Por ser desnecessário à procriação, para a mulher não era nem cogitado. Ao contrário, a dor e o sofrimento faziam parte do sexo. Na década de 1960, com o advento da pílula anticoncepcional, pela primeira vez na história da humanidade o sexo foi dissociado da procriação e passou a se relacionar intimamente com o prazer.

A profunda modificação fisiológica que ocorre na puberdade, com o aumento da produção de androgênios e estrogênios, prepara o corpo para a reprodução, intensificando o desejo sexual no homem e na mulher. A busca de sua satisfação é o caminho natural. Entretanto, o controle sobre o prazer continua a ser exercido.

Os rapazes são incentivados a ter logo a primeira experiência sexual, não importando com quem. A sociedade patriarcal exige deles essa prova de virilidade. Devem estar sempre dispostos, não recusar nenhuma oferta, e o mais importante, nunca falhar. A moça, ao contrário, dever reprimir seus impulsos sexuais, ocultar seus desejos, fingir que não se interessa muito pelo assunto.

Num discurso pseudoliberal, muitos pais passam às filhas uma dupla mensagem. São tantos conselhos e advertências, tantas proibições e alertas em relação aos perigos envolvidos, que em raros casos o sexo é vivido com tranquilidade e prazer. “Não tenho nada contra você ter relações sexuais com seu namorado, desde que esteja certa de poder assumir as responsabilidades, de que é um namoro sério, de que tem certeza de que o ama, de que ele não a esteja usando, e se o namoro terminar você não vai ficar mal, que não vai se arrepender…”, uma mãe disse à filha de 16 anos.

Alguém, mesmo aos 80 anos, pode ter tantas certezas? E aos 14, 17, ou 18? As mães de 40 anos atrás não tinham um discurso dúbio. Tudo era proibido mesmo. Facilitavam, assim, a opção das jovens quanto à própria vida sexual. Seus valores eram passados com clareza, sendo mais fácil percebê-los como equivocados.

Acredito que o jovem deve iniciar sua vida sexual quando desejar. Os pais e a sociedade devem cuidar para que isso ocorra da forma mais natural e prazerosa possível. A saúde mental e social das pessoas depende disso. Certamente muitos casos de impotência, ejaculação precoce e ausência de orgasmo feminino seriam evitados, assim como diversos tipos de agressão sexual.

Um estudo publicado em 1975, nos Estados Unidos, feito em 400 sociedades pré-industriais, concluiu que, nas culturas não repressoras da atividade sexual de seus adolescentes, o índice de violência é mínimo.

Como a primeira relação sexual de homens e mulheres poderia ser diferente, com mais prazer? Somente quando o sexo for percebido como algo bom, natural, que faz parte da vida. E o uso da pílula e da camisinha fizerem parte da educação, como o ato de tomar banho e de escovar os dentes.


Amor compartilhado
Comentários 9

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da mulher que está amando dois homens ao mesmo tempo. Não sabe que atitude tomar, afinal, não gostaria de ter que fazer uma opção. É compreensível.

Desde que nascemos, muitas coisas nos são ensinadas como verdades absolutas. Todos os meios de comunicação — televisão, cinema, teatro, literatura, rádio — participam ativamente, sem contar a família, a escola, os vizinhos. O condicionamento cultural é tão forte que crescemos sem perceber o que realmente desejamos ou o que aprendemos a desejar. Isso ocorre em todas as áreas, portanto, também no que diz respeito ao amor.

Desejamos tanto viver um amor romântico, que aceitamos como verdade inquestionável o conjunto de ideais e expectativas construídas para reger esse tipo de amor. Ao fazer com que todos acreditem ser impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo, o modelo de amor imposto na nossa cultura torna inquestionável a conclusão: “se ele ama outra é porque não me ama”. É muito difícil encontrar alguém que admita que o amor pode ser vivido fora de uma relação fechada entre duas pessoas, apesar de muita gente viver na prática essa experiência.

Contudo, não há dúvida de que podemos amar várias pessoas ao mesmo tempo. Não só filhos, irmãos e amigos, mas também aqueles com quem mantemos relacionamentos afetivo-sexuais. E podemos amar com a mesma intensidade, do mesmo jeito ou diferente. Acontece o tempo todo, mas ninguém gosta de admitir. A questão é que nos cobramos a rapidamente fazer uma opção, descartar uma pessoa em benefício da outra, embora essa atitude costume vir acompanhada de muitas dúvidas e conflitos.

Mas na realidade, todas as pessoas estão constantemente expostas a estímulos sexuais novos provenientes de outros, que não o parceiro atual. É provável que esses estímulos não tenham efeito na fase inicial da relação, em que há total encantamento pelo outro. Entretanto, existem e não podem ser eliminados.

Concordo com W.Reich quando diz :“Todo o moralismo em torno das relações extraconjugais só produz efeitos contrários, na medida em que a repressão das necessidades sexuais serve sobretudo para exacerbar a sua urgência. Os estímulos sexuais, que apenas podem ser contrariados eficazmente por uma inibição sexual neurótica, despertam em qualquer pessoa sexualmente saudável o desejo de outros objetos sexuais. Quanto mais saudável é a pessoa, mais consciente, isto é, não recalcados serão esses desejos e consequentemente mais fáceis de controlar. Evidentemente, tal controle é tanto menos nocivo quanto menos for determinado por considerações morais.”.

Pode até ser que na fase da paixão, quando se está encantado pelo outro, não caiba mais ninguém. Mas essa fase dura pouco. Com uma convivência mais prolongada, a paixão acaba e fica o amor, se houver. Mas para começar a pensar diferente da maioria é necessário alguma dose de coragem.

Mas afinal, por que se tem tanto medo de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? O psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, introdutor das ideias de Reich no Brasil, afirma que “somos por tradição sagrada tão miseráveis de sentimentos amorosos que havendo um já nos sentimos mais do que milionários, e renunciamos com demasiada facilidade a qualquer outro prêmio lotérico (do amor)”.

E essa limitação afetiva se desenvolveu a partir da crença de que somente através da relação amorosa estável com uma única pessoa é que vamos nos sentir completos e livres da sensação de desamparo. Não é à toa que exigimos que o outro seja tudo para nós e nos esforçamos para ser tudo para ele. Mesmo à custa do empobrecimento da nossa própria vida.


“Amo os dois e não gostaria de ter que optar por um deles.” O que vc faria?
Comentários 44

Regina Navarro Lins

“Namoro há dois anos, e desde o início do ano passamos a morar juntos. Só que fui convidada pela empresa em que trabalho para um curso de especialização fora do Brasil. Fiquei três meses. O problema é que nesse período conheci um outro homem com o qual vivi uma intensa relação amorosa. Voltei há duas semanas e não sei que atitude tomar. Amo os dois e não gostaria de ter que optar por um deles. São totalmente diferentes e me completam em aspectos também diferentes. Sexualmente nem se fala, cada um é de um jeito, mas adoro fazer sexo com eles. Me sinto muito ligada aos dois. Sei que preciso tomar uma decisão, mas não consigo. O que faço?''.

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Alívio na separação
Comentários 22

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana acredita que uma separação pode causar grande alívio. Relato a seguir a história de Lara, que é um ótimo exemplo disso.

Ela, uma atriz de 30 anos, estava casada há cinco com Afonso. Desde que o primeiro filho nasceu, parou de trabalhar para se dedicar a ele e ao outro, que veio logo depois. Engordou 15 quilos e passou a encontrar nas realizações do marido, cantor e compositor, as suas próprias. Uma noite, quando preparava os enfeites para a festa do primeiro aniversário do filho mais novo, Afonso a convidou para jantar num restaurante. Com muita franqueza colocou-a a par do que estava acontecendo. Apaixonou-se por uma moça que conhecera num dos shows fora da cidade e a partir daquele momento iria morar com ela. Reafirmou seu carinho e amizade, mas a decisão era irreversível.

Passados seis meses, Lara resume assim sua experiência: “Foi terrível. Quando ele me convidou para jantar, fiquei feliz. Não fazíamos isso há muito tempo e achei que talvez estivéssemos voltando aos bons tempos do início. Quando ele começou a falar, eu tinha acabado de colocar um pedaço de peixe na boca e não conseguia engolir. Acho que fiquei três dias com a espinha entalada na garganta. Nas primeiras semanas sofri muito. Me senti a última das mulheres: gorda e abandonada. Aí, resolvi reagir.

A primeira providência foi fazer um regime. Perdi quase vinte quilos e fiquei linda. Procurei, então, todos os amigos e conhecidos do teatro e fiz novas amizades também. Consegui um papel numa peça que estreia mês que vem. Minha vida mudou. Nunca fui tão paquerada e nunca tive tantos namorados. Até orgasmos múltiplos experimentei pela primeira vez. O sexo com Afonso estava morno, a gente quase nunca transava. Olha, não dá nem pra comparar minha vida hoje com o que era quando eu estava casada. Se o Afonso soubesse o quanto lhe agradeço a proposta de separação! Acho que nunca partiria de mim, e eu ainda estaria naquela pasmaceira toda.”

A ideia de felicidade através do amor no casamento influi na intensidade da dor na separação. Antes da Revolução Industrial as famílias eram extensas — pai, mãe, filhos, primos, tios, avós — e as exigências emocionais eram divididas por todos os membros que viviam juntos. A família nuclear (pai, mãe e filhos), que caracteriza a época contemporânea, reduz a troca afetiva a um número pequeno de pessoas, favorecendo a simbiose e sobrecarregando marido e mulher como depositários das projeções e exigências afetivas do outro.

Entretanto, nem todos se desesperam quando o vínculo conjugal se rompe. Quando um dos parceiros comunica ao outro que quer se separar, aquele que de alguma forma não deseja isso pode sofrer num primeiro momento e pouco depois sentir que lucrou bastante com o fim do casamento. A aquisição de uma nova identidade — agora não mais vinculada ao ex-marido — pode proporcionar uma sensação de renascimento.

O psicólogo italiano Edoardo Giusti, após quatro anos de pesquisas e estudos acerca da separação de casais, afirma que é certamente uma novidade para nossa cultura, centrada no sacrifício e na abnegação, poder evidenciar o alívio muitas vezes sentido ao término de uma união. E até se identifica um certo entusiasmo quando uma separação é vivida como nova oportunidade de crescimento e de desenvolvimento pessoal.

Pesquisando as causas ou as circunstâncias principais que determinaram, em algumas pessoas uma vivência mais feliz durante a separação e em outras, uma vivência menos feliz, Giusti resume os numerosos dados levantados:

2014-08-19 tabela

Como vivemos numa época em que cada um busca desenvolver ao máximo suas possibilidades pessoais e sua individualidade, a dor da separação é, portanto, bem menor do que há 40 anos. “Nesse sentido, vê-se nas pessoas que se separam a partir da segunda metade do século 20, a consciência da necessidade de reconstruir sua identidade, de restabelecer novos propósitos de vida. Não cabe mais chorar tanto um casamento perdido porque ainda se tem a si mesmo como objeto a ser realizado e vivido.”, diz a terapeuta de casal Purificacion Barcia Gomes.

Após uma separação o alívio é maior do que o sofrimento e pode haver uma forte sensação de estar renascendo se havia qualquer tipo de opressão no casamento e/ou se na relação que acabou já não havia mais desejo. Mas outros ingredientes importantes são: atividade profissional prazerosa, vida social interessante, amigos de verdade, liberdade sexual para novas experiências e, principalmente, autonomia, ou seja, não se submeter a ideia de que estar só é sinônimo de solidão ou desamparo.


Sexo: vergonha, culpa e frustração
Comentários 14

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da mulher que foi abandonada pelo marido. Chorou muito, mas agora conheceu um homem que se interessa por ela. Sente desejo por ele, mas tem medo que o sexo aconteça e ele passe a desvalorizá-la. Teme também ficar mal falada e seus filhos sofrerem por isso.

Há quem acredite que hoje existe liberdade sexual. Que as pessoas buscam desenvolver ao máximo o prazer. Mas o sexo é ainda tão reprimido, tão cheio de tabus e preconceitos, que os sentimentos de vergonha e culpa fazem com que muitos se recriminem por suas atividades ou mesmo por seus desejos.

Desde cedo aprendemos que imagens do corpo humano nu, particularmente experimentando o prazer sexual, são obscenas. E mesmo quando se consegue rejeitar conscientemente todo esse moralismo, a mensagem negativa é absorvida sem que se perceba. E o sexo sendo visto como algo tão perigoso leva a maioria a renunciar à própria sexualidade, ficando quieta no seu canto. A questão é que nem sempre a repressão é bem sucedida, como no caso da internauta.

As antigas civilizações tinham atitudes bem diferentes diante da nudez e do sexo. Desconheciam o conceito de obscenidade, e as imagens dos órgãos sexuais masculinos e femininos eram encaradas com naturalidade. Muitos santuários espalhados pelo mundo mostram representações de vulvas e falos. Até o momento em que o culto ao falo se impôs, havia liberdade sexual e as deusas reinavam absolutas.

Entretanto, a partir daí, os princípios masculino e feminino se separaram. Na arte, na religião e na vida. O princípio fálico, ideologia da supremacia do homem, condicionou o modo de viver da humanidade e a sexualidade começou a tomar outro rumo.

Obcecados pela certeza da paternidade, os homens reprimiram de todas as formas a sexualidade feminina. Mais tarde, na Idade Média, o corpo humano foi condenado por conta do pecado original, e o anti-sexualismo se tornou um refrão obsessivo. Até o Renascimento, a condenação da sexualidade só iria crescer.

Por mais incrível que pareça, o hábito do banho também foi atacado, considerando-se que qualquer coisa que tornasse o corpo mais atraente era incentivo ao pecado. Havia quem acreditasse que a pureza do corpo e das vestes significava a impureza da alma. Os piolhos eram chamados de pérolas de Deus, e estar sempre coberto por eles era marca indispensável de santidade.

Os exemplos da falta de higiene como pré-requisito para a salvação da alma são muitos: um eremita religioso viveu 50 anos depois de ter se convertido e durante todo esse tempo recusou-se terminantemente a lavar o rosto e os pés. Uma freira ficou doente em consequência dos seus hábitos. Estava com 60 anos e, por princípio religioso, recusou-se durante grande parte da sua vida a lavar qualquer parte do seu corpo, com exceção dos dedos.

Na tradição judaico-cristã a relação sexual se justifica apenas para a procriação e só é apropriada dentro do casamento. Mas mesmo nele as proibições são muitas. Masturbação, sexo oral, sexo anal, sexo vaginal usando qualquer tipo de anticoncepcional, são pecaminosos por serem considerados antinaturais.

Isso sem falar no tormento provocado por outras situações também comuns, como o desejo sexual por outras pessoas que não os próprios cônjuges e por pessoas do mesmo sexo. A impressão é a de que temos um gatilho de culpa pronto para disparar e nos atingir à menor provocação. É claro que a consequência dessa visão tão distorcida do corpo humano é dramática: o grande número de pessoas frustradas e insatisfeitas

Contudo, estamos vivendo um momento de transição, em que os antigos valores estão sendo questionados, mas novas formas de viver e pensar ainda causam medo pelo desconhecido. Há os que sofrem por se sentir impotentes para fazer escolhas livres, mas o fim de muitos tabus a respeito do sexo é só uma questão de tempo.


“Sinto desejo, mas tenho medo que o sexo aconteça e ele me desvalorize”
Comentários 25

Regina Navarro Lins

“Fui casada por 12 anos e estou separada há seis meses. Tenho vivido momentos difíceis, sem saber como devo me comportar. Meu marido foi o único homem com quem me relacionei. O casamento acabou porque ele se apaixonou por uma colega de trabalho e foi embora. Depois de muito chorar, conheci um homem que se mudou para perto da minha casa e começamos a conversar. Saímos algumas vezes, e ele não esconde que deseja ter sexo comigo. Sinto desejo por ele, mas tenho medo que o sexo aconteça e ele passe a me desvalorizar. Temo também ficar mal falada e meus filhos sofrerem por isso. Moro numa cidade pequena em que todos controlam a vida de todos. O que faço?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


O custo do amor romântico
Comentários 45

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana acredita que mesmo amando muito uma pessoa é possível se interessar por outra. Entretanto, muitos continuam idealizando o amor, e acreditam que ao encontrar a “pessoa certa'' nunca mais terão olhos para ninguém.

“Preciso encontrar um grande amor!” Esta afirmação é ouvida com frequência na nossa cultura. Acredita-se só ser possível estar bem vivendo uma relação amorosa. A partir do século 20, mais do que em qualquer outra época, o amor ganhou importância. As pessoas passaram a acreditar que sem viver um grande amor a vida não tem sentido.

Pensa-se no amor como se ele nunca mudasse. O amor é uma construção social, e em cada época da História ele se apresenta de uma forma. O amor romântico, pelo qual a maioria de homens e mulheres do Ocidente tanto anseiam, é calcado na idealização. Não é construído na relação com a pessoa real, que está do lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades.

São várias as inverdades que o amor romântico impinge para manter a fantasia do par amoroso idealizado, em que duas pessoas se completam, nada mais lhes faltando. Entre elas estão as seguintes afirmações:

— Só é possível amar uma pessoa de cada vez;
— O amado terá todas as suas necessidades atendidas pelo outro;
— Quem ama não sente desejo por mais ninguém;
— O amado é a única fonte de interesse do outro;
— Quem ama sente desejo sexual pela mesma pessoa a vida inteira;
— Qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver presente;
— Todos devem encontrar um dia a “pessoa certa”.

Além disso, o amor romântico não é apenas uma forma de amor, mas todo um conjunto psicológico — uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Essas ideias coexistem no inconsciente das pessoas e dominam seus comportamentos e reações. Inconscientemente, predetermina-se como deve ser o relacionamento com outra pessoa, o que se deve sentir e como reagir.

A idealização do amor tem um custo. Não é verdade que “tudo o que você precisa é de amor”. Precisamos também ter um espaço individual, amigos verdadeiros, investir na carreira, etc… Ao nos concentrarmos no amor, negligenciamos inevitavelmente outras paixões, o que torna nossa vida mais limitada.

Acredito que quem ama de verdade pode se interessar por outra pessoa — afetiva e sexualmente. Acontece o tempo todo, mas a maioria das pessoas parece preferir fazer de conta que isso não existe.

Concordo com psicanalista W. Reich quando afirmou, na primeira metade do século 20, que “nunca se denunciará bastante a influência perniciosa dos preconceitos morais nessa área. E que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual, que é normal e nada tem a ver com a moral.

Se todos soubessem disso, as torturas psicológicas e os crimes passionais com certeza diminuiriam e desapareceriam também inúmeros fatores e causas das perturbações psíquicas que são apenas uma solução inadequada desses problemas.”