Regina Navarro

“Ele diz que na transa costuma se vestir com roupas femininas…”
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Regina Navarro Lins

“Recentemente entrei num aplicativo de relacionamento gay e acabei ficando interessado por um rapaz que encontrei por lá. Papo vai e papo vem, resolvemos marcar um encontro. Pois bem, enquanto não chega o dia do encontro ficamos nos falando por mensagens de texto. Durante a conversa ele diz que tem fetiche em usar roupas íntimas femininas durante o ato sexual e que não gosta de ficar nu na cama. O ‘problema’ é que eu não gosto de nudez parcial durante o ato sexual e prefiro nudez total de todos os envolvidos. Não consigo ficar excitado vendo uma pessoa vestindo alguma coisa por menor que seja a peça usada. Nós já vimos fotos um do outro e nos “aprovamos'', já trocamos mensagens de voz também. O único ‘problema’ é que nenhum de nós quer ceder ao que o outro gosta na intimidade, ele não quer ficar nu durante o ato, e eu não quero que ele passe o ato inteiro vestindo alguma coisa. O que eu e ele devemos fazer para evitar aborrecimentos no dia do nosso encontro?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


O preço das diferenças
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que respondeu à enquete da semana não acha possível ter uma boa relação amorosa quando pensamos muito diferente do outro.

As diferenças entre as pessoas que formam um casal tendem a ser colocadas na balança: o que nos agrada no outro deve constituir o lado mais pesado.

O que se espera do parceiro é sempre uma boa vontade em relação a preferências de um e de outro, mas há limites, que estão geralmente associados à nossa visão do mundo, incluindo valores e crenças.

Se você, por exemplo, descobre durante o período de namoro que a pessoa com quem pretende conviver por bastante tempo é preconceituosa, e você não suporta pessoas preconceituosas, há um grande problema: o que fazer?

Há situações bem difíceis de lidar, e o prazer da convivência pode ficar comprometido. Resolvi fazer um levantamento sobre essa questão, consultando 30 pessoas.

Perguntei a cada uma o que para ela tornaria impossível a vida a dois, no que diz respeito à forma de pensar do outro. Estas foram algumas das respostas obtidas:

— “Não poderia conviver com uma mulher que não colocasse a educação de nossos filhos em primeiro lugar, acima de nossos prazeres”

— “Adoro a minha família, principalmente a minha mãe. Sou filha de criação. Não poderia suportar um marido que a tratasse mal”

— “Sempre aceitei todas as pessoas do jeito que são. Acho que um homem que discriminasse homossexuais não ficaria ao meu lado.”

— “Acho que seria quase impossível viver com uma mulher que fosse religiosa a ponto de ir à igreja todos os dias. Não ia dar certo!”

— “Jamais casaria com um homem que acreditasse que é importante bater nos filhos para educá-los.”

— “Detesto homens machistas, que se acham superiores e por isso decidem tudo sem consultar a mulher. Não ficaria com um desses de jeito nenhum!”

Fortes divergências na forma de pensar podem atrapalhar bastante ou até inviabilizar uma relação, mesmo no período de namoro. Por isso é importante, quando se conhece uma pessoa, percebê-la sem a névoa criada pelo amor romântico, que nos impede de perceber o outro do jeito que é, mas sim sob uma névoa que encobre o real.

Na idealização você atribui ao parceiro característica que ele não possui. Mas na convivência cotidiana, após o casamento, é impossível manter a idealização. Você começa a perceber aspectos que não gosta ou admira no parceiro. É comum então as frustrações se acumularem e se instalar o desencanto.

Muitos se esforçam tanto para manter o casamento e só desistem depois de fazer inúmeras concessões. Quando a frustração se torna insuportável, então se separam.

No caso de haver separação, o primeiro passo seja desenvolver a capacidade de viver bem sozinho. É descobrir o prazer da própria companhia.


Separação e superação
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que que descobriu que o marido está apaixonado por outra há dois anos, quando às 7h da manhã foi ao banheiro e viu que ele esqueceu o celular. Viu então a mensagem dele para uma mulher 30 anos mais jovem, aluna dela. Ela o pôs pra fora de casa, mas ele insiste em voltar. Ela pergunta: “Como voltar a dormir ao lado de um homem que levanta as 7h da manha da minha cama e manda mensagens de amor para outra?”

“Evitar a dor é impossível, evitar esse amor é muito mais. Você arruinou a minha vida me deixe em paz.”

“Meu mundo caiu e me fez ficar assim.”

“Você está vendo só do jeito que eu fiquei e que tudo ficou.”

“Risque meu nome do seu caderno, pois não suporto o inferno do nosso amor fracassado.”

“Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.”

A poesia da musica popular, como nos exemplos acima, trata da dor de amor como drama doloroso, agravado principalmente pela expectativa romântica de “até que a morte nos separe”.

Fomos ensinados a acreditar que apenas o parceiro amoroso é capaz de nos garantir não estar só, de ser amado e de nos sentirmos uma pessoa importante, aumentando nossa autoestima.

Deixar de ser amado é fonte de profunda angustia e tristeza. Ainda mais quando a causa do rompimento é a paixão por outra pessoa. Quando o parceiro prefere outro alguém para viver ao seu lado, quem é excluído se sente profundamente desvalorizado.

O adulto quando perde o objeto de seu amor age como uma criança pequena abandonada pela mãe, se sente perdido, sem rumo… Há inúmeras questões para afligi-lo, mas a maior de todas é o medo de não voltar a ser amado.

Embora o casamento não seja o único meio de atenuar o desamparo humano — outras relações cumprem essa função: amizades profundas, participação em grupos que têm ideais em comum, projetos pessoais interessantes, etc… —, é a que a sociedade mais privilegia.

Na contramão dessa análise, o psicólogo italiano Edoardo Giusti, após quatro anos de pesquisas e estudos acerca da separação de casais, afirma que é certamente uma novidade para nossa cultura, centrada no sacrifício e na abnegação, poder evidenciar o alívio muitas vezes sentido ao término de uma união. E até se identifica um certo entusiasmo quando uma separação é vivida como nova oportunidade de crescimento e de desenvolvimento pessoal.

Um resumo de alguns dados dessa pesquisa é interessante. Por exemplo, ela conclui que pessoas que tiveram uma educação conservadora, uma vida em comum caseira, com poucas saídas e amigos, uma personalidade rígida e introvertida, sofrem mais na separação do que aqueles que possuem autonomia, uma vida social fora do lar e uma educação mais liberal. A pesquisa também concluiu que filhos e dependência econômica agravam a dor da separação.

Como vivemos numa época em que cada um busca desenvolver ao máximo suas possibilidades pessoais e sua individualidade, a dor da separação é, portanto, bem menor do que há 40 anos.

Concordo com a psicóloga Purificacion Garcia Gomes quando diz: “Nesse sentido, vê-se nas pessoas que se separam nas últimas décadas, a consciência da necessidade de reconstruir sua identidade, de restabelecer novos propósitos de vida. Não cabe mais chorar tanto um casamento perdido porque ainda se tem a si mesmo como objeto a ser realizado e vivido.”


“Sou casada há 30 anos. Descobri que meu marido está apaixonado por outra”
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Regina Navarro Lins

“Ficamos 30 anos casados. Nunca pedi satisfação a ele sobre o que fazia, nunca fui de correr atrás. Nos últimos dois anos ele esfriou, na verdade só esquentava se visse filme pornô. Ele tem uma sexualidade low profile, pinto pequeno. Acordo às 7 a manha vou ao banheiro, ele esqueceu o celular. Abro e vejo uma mensagem dele para uma mulher 30 anos mais nova, minha aluna. Ele se dizendo apaixonado e a piranha também.Mostro pra ele e o coloco em 5 minutos pra fora de casa. Ele faz juras diz que era só uma brincadeira que me ama e não pensava terminar a vida sem mim. Como voltar a dormir ao lado de um homem que levanta as 7h da manha da minha cama e manda mensagens de amor para outra? Nunca pedi fidelidade, mas sempre exigi sinceridade e amizade. Sei que casos podem acontecer, é até gostoso saudável, mas o dele durou dois anos. Não foi um deslize… ele se dizia apaixonado na mensagem, e depois me diz que era mentira. Ele quer voltar mas há três meses a ideia de chegar perto dele me enoja, me dá medo, não sei quem é este homem….falo somente por telefone e por mensagem ele me dá arrepios. O que fazer?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

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Apostando na independência amorosa
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que respondeu à enquete da semana aceitaria que seu parceiro viajasse sozinho de férias.

Mas nem todos pensam assim. Depende muito da visão e da expectativa que se tem de uma relação amorosa. Se significar ter a outra pessoa sempre ao lado, só sair com ela, saber a qualquer momento o que ela está fazendo, enfim, ter um controle total da sua vida, é pouco provável que essa independência seja admitida com tranquilidade. As frustrações serão muitas e na maior parte das vezes impossíveis de suportar.

Viajar sozinho nas férias não é compatível com os ideais do amor romântico, que todos aprendem a desejar. Esse tipo de amor nos é imposto, desde muito cedo, como única forma de amor. Contém a ideia de que duas pessoas se transformam numa só, havendo complementação total e nada lhes faltando, que o amado é a única fonte de interesse do outro e, portanto, nada na vida tem graça se ele não estiver presente.

O amor romântico não é apenas uma forma de amor, mas todo um conjunto psicológico — uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Essas ideias coexistem no inconsciente das pessoas e dominam seus comportamentos e reações. Inconscientemente, predetermina-se como deve ser o relacionamento com outra pessoa, o que se deve sentir e como reagir.

Numa relação estável – namoro ou casamento – é comum o casal se afastar dos amigos e também abrir mão de atividades que anteriormente proporcionavam grande prazer a cada um.

Ao entrar em uma relação amorosa, a dependência infantil reaparece com bastante força. No par amoroso é depositada a certeza de ser cuidado e de não ficar só. A distância faz sentir o desamparo, da mesma forma que se sentia quando a mãe se ausentava. Muitos acreditam até que o parceiro deve estar sempre pronto para suprir todas as necessidades do outro, adivinhando pensamentos e desejos.

Acredito que uma relação amorosa fixa e estável pode ser ótima. Mas para isso as pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois. É fundamental que haja respeito total ao outro, ao seu jeito de pensar e de ser e às suas escolhas; liberdade de ir e vir, ter amigos em separado e programas independentes, inclusive viagens. Caso contrário, a maioria das relações, com o tempo, se tornarão sufocantes.


Os prejuízos da dependência econômica para a mulher
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que não trabalha e tem uma filha de três anos. O marido sustenta a casa, mas não lhe deixa dinheiro para nada. Só lhe dá R$100,00 por mês. Ela gostaria de ter mais dinheiro para comprar roupa, ir ao cabelereiro…mas não sabe como falar com ele.

Os defensores do casamento insistem na sua importância social e na necessidade desse vínculo para a felicidade humana. Os mais liberais alegam que, se não der certo, as pessoas podem se separar.

As estatísticas mostram que as separações ocorrem cada vez com mais frequência e com menor tempo de união. A aceitação social de pessoas separadas se generaliza e aos poucos vão se eliminando aspectos que sempre dificultaram a vida dos separados: discriminação dos amigos, dificuldades no trabalho ou na carreira, credibilidade, etc.

Mas apesar disso, não é nada fácil decidir uma separação. Além de todos os fatores emocionais envolvidos, existe outro que contribui para dificultá-la ou mesmo torná-la impossível: a dependência econômica.

Em várias culturas a independência econômica está diretamente ligada ao divórcio. Na tribo Yoruba, da África ocidental, as mulheres sempre controlaram o comércio. Elas cultivavam a terra e depois levavam a produção para um mercado totalmente dirigido por mulheres.

Além de comida, levavam para casa dinheiro e artigos supérfluos. Essa riqueza tornava-as independentes, resultando que mais de 46% dos casamentos entre os yoruba terminam em divórcio.

Outro exemplo claro da influência do fator econômico é encontrado na tribo Nadza, da Tanzânia. Homens e mulheres são independentes uns dos outros para a sobrevivência diária. Na década de 60, o índice de divórcio entre eles foi quase cinco vezes maior do que nos Estados Unidos.

Sem dúvida, a autonomia econômica pessoal permite a qualquer um dos cônjuges se separar quando quiser, portanto, há muito menos divórcios em lugares onde existe sujeição econômica entre o casal.

No Ocidente, apesar da emancipação feminina da década de 70, a dependência das mulheres ainda é grande. Ouvi de alguns advogados, que atuaram em centenas de separações judiciais, a declaração que o casamento pode ser a maior fábrica de traumas e frustrações da humanidade. E que é impressionante a enorme subordinação econômica que as mulheres têm aos maridos.

Mesmo tendo uma profissão, a maioria das mulheres ainda não ganha o suficiente para manter a casa sozinha. A valorização da mulher “feminina e romântica” tem a ver com isso.

Muitas foram ensinadas a pensar que, por serem mulheres, não são capazes de viver por conta própria, que são frágeis, com absoluta necessidade de proteção. Há as que acreditam até que ser sustentadas é um direito que têm pelo simples fato de serem mulheres.

A consequência disso é a grande quantidade das que se veem forçadas a permanecer casadas, tendo que cumprir com esforço suas obrigações sexuais com o marido em troca de casa, comida e algum conforto.


“Meu marido sustenta a casa e não me deixa comprar nada.” O que você faria?
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Regina Navarro Lins

“Meu marido é quem trabalha e sustenta a casa; eu não posso trabalhar, pois tenho um problema de saúde. Temos uma filha de três anos e ele não deixa eu gastar em nada: comprar roupas, ir no salão de beleza… essas coisas. Ele me dá R$100,00 por mês. O que eu faço com isso? Como devo falar com ele? Eu quero poder gastar mais, que eu quero andar bonita…”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Cadê você? – a busca amorosa por meio de aplicativos
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que respondeu à enquete da semana já conheceu alguém por meio de aplicativo de celular. A forma como as pessoas se conhecem visando uma relação amorosa tem história.

No século 19, o amor passou a ser uma possibilidade no casamento. O jovem via a moça na igreja e pedia permissão ao pai dela para visitá-la em casas. Os encontros eram na sala, com a família toda observando.

No início do século 20, o automóvel e o telefone permitiram uma grande mudança no amor: o encontro marcado. Nunca tinha havido nada parecido. Nas últimas décadas do século, os casais se conheciam nos bares e nas festas.

Atualmente, os aplicativos para celulares ganham cada vez mais espaço. Não são poucos os que iniciam um namoro ou se casam a partir dessa tecnologia.

Para entender melhor essa nova forma de se conhecer alguém, conversei com Lígia Baruch, Doutora em Psicologia pela PUC-SP, autora do livro “Uma revolução silenciosa: a sexualidade em mulheres maduras” e da Tese “Tinderelas: busca amorosa por meio de aplicativos para smartphones”, ainda não publicada. Atende em consultório há 24 anos e pesquisa as relações amorosas contemporâneas mediadas pelas novas tecnologias digitais. contato@ligiabaruch.com.br

— Você acabou de defender uma Tese de doutorado sobre os aplicativos de busca amorosa, o que você pode nos contar de interessante?

Muitas coisas, Regina… em primeiro lugar descobri que os aplicativos são extremamente populares, a maior parte dos solteiros residentes nos grandes centros urbanos e portadores de um smartphone já entrou alguma vez em um desses aplicativos, mas os app de busca amorosa ainda carregam um estigma enorme, mesmo para o público mais jovem, que os considera apenas uma brincadeira para “azaração”.

— Sim, muitas pessoas se referem a esses aplicativos como mecanismos que facilitam o encontro sexual. Mas não é só isso…

Pode ser isso também, mas não só. Eu propus nesta pesquisa que iniciei em 2012 a existência de três estilos de uso bem distintos entre si. O estilo curioso, o estilo recreativo e o estilo racional.

— Ah, você poderia explicar um pouco sobre esses diferentes estilos de uso?

É importante observar que eu só pesquisei mulheres urbanas a partir dos 35 anos e as chamei carinhosamente de Tinderelas na minha Tese, mas fiz também uma revisão das pesquisas internacionais sobre o assunto e posso dizer que há muito ainda a ser estudado sobre esse tema.

Encontros via internet são recentes. Os primeiros experimentos com o uso de computadores na função de cupidos datam da década de 1960 nos meios universitários norte-americanos, mas somente na década de 90 com a popularização dos computadores domésticos e a chegada da internet no Brasil, tornaram-se conhecidos por aqui. A linha do tempo do cupido na rede é chats- sites-app, hoje os aplicativos com sistema de geolocalização, a exemplo do Tinder e Happn, dominam o mercado amoroso e desbancaram os sites, seus antecessores, pela praticidade de uso.

— Interessante,… mas voltando aos estilos…

O assunto vai longe… mas vamos aos estilos. Estilo curioso é exploratório, por isso mesmo é o estilo inicial escolhido por muitas mulheres. Quando neste estilo elas não fixam objetivos claros, sabem principalmente o que não gostam e não querem numa parceria.

Experimentam muitos aplicativos, conversam com muitas pessoas diferentes, mas falam pouco de si. Podem ser mais ativas, no sentido de “puxar conversas” ou mais passivas, numa preferência maior pela observação, sem iniciativas de contato. O estilo curioso funciona como uma boa estratégia de preservação da intimidade, quando ainda se está na dúvida sobre o uso do aplicativo.

Neste estilo curioso há maior recuo na autoapresentação e autorevelação que faz muito sentido quando a pessoa encontra-se numa postura mais evitativa, como no final de um relacionamento difícil, por exemplo.

Quando há o receio de sofrer de novo, pode-se ficar muito tempo só no estilo de uso curioso, como sinalizado por uma Tinderela entrevistada na pesquisa. Ela dizia assim: “[…] se chegasse alguém perto de mim que falasse alguma coisa que eu não gostasse eu não queria nem ouvir o resto.”

No entanto, quando essas Tinderelas recebiam feedbacks positivos de suas fotos, algumas delas se abriram para novas experiências e em todos os casos se encontraram presencialmente com pessoas que conheciam via aplicativos.

Estes encontros presenciais resultaram, por sua vez, em boas conversas, amizades, namoros, até noivados…, tanto que fui convidada para o casamento de uma dessas Tinderelas, que será em outubro próximo.

— Então eles funcionam…, mas Lígia, qual é a sua opinião sobre essa questão que está tão em voga a respeito dos relacionamentos líquidos, e de como a internet favorece essa fragilização dos vínculos amorosos? Qual o papel destes aplicativos nisso?

Essas ideias do sociólogo Zygmunt Bauman ficaram muito populares, mas ao meu ver trazem uma visão antiquada dos relacionamentos, trazem uma nostalgia dos tempos antigos, como se antes fosse melhor…Discordo.

Para as mulheres heterossexuais e para o público LGBT de forma geral, os avanços são enormes. Hoje muitas mulheres podem sair de casamentos abusivos, divorciar-se e encontrar companhia em qualquer idade e de acordo com seus critérios de seleção. Outras tantas podem ter um cardápio de opções, vivenciando isso sem depender de seu grupo social para apresentações…, uma vasta experiência relacional e sexual, do mesmo tamanho que antes só era permitida aos homens. Para o público LGBT nunca foi tão fácil encontrar parceria.

— Sim, hoje há muito mais liberdade de escolhas…

Liberdade e satisfação. Muitas vezes se confunde duração com satisfação, hoje graças à cultura do divórcio valoriza-se mais a satisfação do que a duração das relações. Eu acho essa mudança muito positiva.

Claro que escutei muitas estórias de decepções amorosas também, mas me parece que via aplicativos, a velocidade com que tudo acontece, e a possibilidade sempre presente de se iniciar um novo contato, faz com que tudo passe com menos dor e menos drama. Por que sentir saudade do tempo em que se morria de amor, não é mesmo?

— É exatamente o que penso…rs

Por outro lado, na maioria dos casos que resultam em um relacionamento sério, as pessoas ainda evitam revelar como se deu o primeiro contato, muito ainda pelo preconceito em relação aos encontros iniciados on-line, mas depois que se inicia, a relação segue de modo parecido com qualquer relacionamento iniciado off-line.

— E os outros estilos que você citou no início?
Eu falei do estilo curioso, agora vou falar do segundo estilo, que tem muito a ver com essa revolução na intimidade de que estamos falando.

O segundo estilo identificado, o recreativo, alude à imagem de jogar, brincar, mais próxima à ideia de leveza e diversão. Conhecer pessoas para se divertir, viver emoções e novidades é a tônica deste estilo de uso.

No estilo recreativo a Tinderela já dominou o funcionamento do aplicativo e não sente mais medo de encontros. Está com a vida preenchida de amizades, de trabalho ou de viagens, por isso não aparenta ansiedade na busca amorosa.

Este estilo de uso está mais de acordo com o padrão ‘culturalmente’ caracterizado como masculino, pois a vivência de encontros puramente sexuais é admitida juntamente com encontros para fins de namoro e amizade, tudo depende do momento de vida e da vontade na “hora”.

No estilo recreativo, há chances de maior empoderamento feminino, por meio do agenciamento do próprio desejo, e também de maior autoconhecimento por meio de um padrão sexual “maximalista”: com muitos encontros e muitas experiências.

Há também maior presença de conversas com pessoas de diferentes idades e níveis socioeconômicos. Esse estilo de uso recreativo possibilita uma ampliação da rede de contatos. Uma Tinderela recreativa me disse assim: “[…] entrei porque era um catálogo, era divertido, e eu saí com vários caras na sequência, foram dois meses que eu saia quase toda semana com um diferente.”

— Mas essa postura exige uma certa dose de ousadia, não é?

Exatamente, Regina. As Tinderelas recreativas são as mais ousadas e revolucionárias e elas costumam tirar melhor proveito dos aplicativos. Quando suficientemente seguras, Tinderelas recreativas conseguem revelar-se paulatinamente, aprofundando o contato somente à medida que o outro dá sinais claros de estar fazendo o mesmo. Os relacionamentos geralmente fluem, pois têm menos ansiedade quanto ao abandono, já que o que desejam é, principalmente, diversão.

Nessa minha pesquisa, levantei a hipótese de que o estilo recreativo exija certa dose de segurança pessoal para ser adotado com resultados positivos para a autoestima da Tinderela.

Enquanto as mais autoconfiantes sentem-se poderosas e exercem seus direitos à liberdade de escolhas, as menos confiantes apresentam dilemas de gênero. Por exemplo, uma delas me disse: “Por que, que raios, na semana passada eu fui sair com um cara de 26 anos?! Rsrsrs. Gente, eu tenho 36 anos, um cara de 26 que nem se formou ainda, pelo amor de Deus!”.

— Fale mais sobre essa questão do dilema nas mulheres?

O dilema surge quando a presença de comportamentos mais sexualmente ativos esbarram na crença tradicional de que “isso não leva a lugar nenhum”. Trazendo a reboque o medo de que esse comportamento interfira em seu propósito de encontrar uma relação para compromisso.

O dilema: prazer versus propósito, mostra como ainda vivemos numa sociedade tradicionalista. O comportamento de algumas mulheres já mudou, mas o sentimento em relação ao comportamento, ainda não. As Tinderelas menos confiantes sentem-se fracas e fáceis quando exercem seus diretos à experimentação, pois ainda são reféns destas normas antiquadas.

— Então você acredita, Lígia, que os aplicativos são espaços para as mulheres contemporâneas mais ousadas?

Por incrível que pareça, não. Nos aplicativos encontra-se de tudo, não dá para criar estereótipos. Por exemplo, o terceiro e último estilo encontrado, o racional, é bem tradicional.

Nele a Tinderela tem um objetivo claro: encontrar um bom namorado com intuito de casar e formar família. O aspecto que mais chama a atenção neste estilo é a presença de uma racionalidade que se assemelha muito à uma entrevista profissional, mesclada ao antigo ideal romântico.

A utilização de palavras dos meios corporativos confirma essa impressão. Uma delas falava assim: “Pelo Tinder e pelo WhatsApp a gente tinha conversado por 3 horas e eu tinha sido aprovada, passei para a próxima fase, entrevista presencial, exatamente igual…”. Percebe o tipo de linguagem quase empresarial, corporativa?

— Quer dizer que a Tinderela racional é a mais romântica e tradicional?

Exatamente! No estilo racional que é também o mais romântico, a conexão de almas típica do ideário romântico, surge em versão mais assertiva e tecnológica e a ordem de gênero é sustentada justamente por essas crenças românticas.

Eu costumo dizer: “o cupido sabe muito bem aonde ‘deve’ mirar sua flecha”, rs, com isso a crença popular que diz que ‘o amor é cego à razão’ cai por terra.

Eu acredito que pessoas mais ansiosas, ou em momentos de vida específicos, como mulheres acima dos 35 anos que desejam ter filhos, tendem a preferir o estilo racional, pois esse vai direto ao ponto.

— Mas, essas mulheres tinham consciência de que estilo elas estavam usando ao utilizarem os aplicativos?

Não, não tinham essa percepção. Eu identifiquei esses estilos nelas, lembrando que muitas migravam de estilo a depender do momento de vida que estavam. Por exemplo, quando em férias em outro estado, claro que o foco mais era encontrar diversão, então o estilo era o recreativo. Acredito, inclusive, que na época das Olimpíadas aí no Rio, o estilo recreativo vai estourar nos app de encontros.. rs.

— Sim, sem dúvida, facilita muito as coisas! E elas ainda tem o controle nas mãos, podem pesquisar sobre os candidatos antes de sair…

Isso mesmo, Regina, observei a crença na tecnologia e na racionalidade para uma melhor seleção de parceiro. ‘Informação é poder’ e o Facebook e o Google funcionam como recursos de checagem de informação.

A partir destes procedimentos de confirmação de dados acontece o processo de eliminação ou de continuidade do contato com os possíveis candidatos. Essa segurança é muito importante para as mulheres nestes tempos de atenção à cultura do estupro. Hoje todos nós podemos ser detetives e usar a tecnologia a nosso favor. Aquela ideia ‘dos perigos da rede’, muito divulgada pela mídia na década de 90, precisa ser atualizada.

— Precisamos mesmo arejar esses conceitos ou preconceitos. E o que mais você encontrou de mudança nas relações contemporâneas?

— Além dos três estilos de uso identificados: curioso, recreativo e racional, também observei algumas mudanças trazidas pelos aplicativos às relações românticas contemporâneas. Dentre elas está a maior exposição, quantidade e velocidade dos encontros.

A partir da pesquisa, pude concluir que os aplicativos trazem um aspecto mais amplificador do que transformador às relações amorosas. O ideário romântico continua presente com algumas atualizações, dentre elas ressalta-se a presença da ‘cultura terapêutica’, observada por meio da crença: conhecer-se para desenvolver-se, do priorizar-se, de um linguajar terapêutico e da ideia menos romântica de relacionamento como negociação, investimento e construção.

— Você acredita que os aplicativos refletem os comportamentos tipificados de gênero da nossa sociedade ou facilitam a emergência de comportamentos femininos mais revolucionários?

Os aplicativos de busca amorosa de maneira geral refletem os comportamentos tipificados de gênero da nossa sociedade, MAS também facilitam a emergência de comportamentos sexuais femininos mais ativos e revolucionários, principalmente no estilo de uso recreativo.

Eu acredito que os aplicativos são meios que podem facilitar o agenciamento do próprio desejo por parte de algumas mulheres, pois buscar uma parceria, mesmo sem a certeza do encontro, pode favorecer a sensação de controle sobre a própria vida amorosa e sexual. A sensação de controle e agenciamento da própria vida amorosa pode minimizar o risco de possíveis frustrações.

Acredito também que essa cultura contemporânea moldada pelas mídias digitais, mais individualista, racionalista e voltada para o prazer, impacta as buscas amorosas e sexuais, principalmente de homos¬sexuais e mulheres heterossexuais, pois passam a preponderar critérios de escolha mais pessoais que dependem menos do entorno social para acontecer.

— Então, antes vistos como perigosos, os aplicativos agora podem ser considerados como uma “nova balada de encontro”?

Exatamente! Uma ‘balada’ mais prática e segura do que as festas convencionais, uma balada onde as primeiras interações acontecem sem a presença de bebidas alcóolicas, no conforto de casa ou em qualquer outro lugar em que se esteja, e ainda com a possibilidade de se checar informações via Facebook, antes de dar prosseguimento à interação face a face.

— Muito interessante! E como você gostaria de concluir essa nossa entrevista?

Gostaria de concluir dizendo que este é um momento histórico onde: tecnologia, amor & sexo, questões de gênero e consumo se misturam, trazendo novas maneiras de se relacionar. E é justamente a busca, e não necessariamente o encontro, o aspecto mais inovador trazido pelos aplicativos de encontros à vida das Tinderelas contemporâneas. A meu ver, elas são verdadeiras heroínas da nossa estória romântica hipermoderna!