Sentir tesão fora do casamento é normal, mas viver ou não a experiência depende do que cada um pensa sobre amor e sexo

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso da internauta que está transando com o amigo do seu marido. O problema é que ela gosta mais de fazer sexo com ele do que com o marido.

Alguns internautas se indignaram. Selecionei dois comentários:

“A resposta é simples, você é uma péssima pessoa, egoísta, traiçoeira e aproveitadora. Deixa quem diz amar em posição de humilhação perante o “amigo” (outro canalha), que deve contar a muita gente que se aproveita da mulher do otário. Hoje em dia se passa a mão na cabeça de gente assim ou racionalizam uma desculpa para essas coisas essas coisas, bobagem, não presta e pronto, é pior do que todas as pessoas que controlam impulsos passageiros para ser boa esposa ou bom marido… não sei porque hoje fazem tanto nhé nhé nhé com mau caráter…”

“Já começou errado em deixar acontecer o beijo e olha onde chegou a ”3 anos” de engano! Ser traído já é algo ruim imagina com o amigo e já acontecendo há tanto tempo; já se tornou um caso. Primeiro se deve tomar vergonha na cara e tomar uma atitude, porque ficar com os dois não dá! É melhor deixar logo esse ‘amigo’ da onça e ficar com seu marido, ele sim te ama de verdade e não quer só sexo como esse outro, que não respeitou o amigo e nem você como mulher casada, enfim…Acaba com isso e vai tentar viver feliz com teu marido e de preferencia bem longe desse amigo.”

Sem entrar no mérito da discussão se a esposa e o amigo do marido foram desleais, é importante refletirmos sobre o que ocorre com tanta frequência nos casamentos.

Sentir tesão por alguém que não seja o parceiro fixo, quase todos sentem. Se vai ou não viver uma experiência sexual com essa pessoa, depende da visão que cada um tem do amor e do sexo.

Muitos entram num namoro ou casamento acreditando que os dois têm que se transformar numa só pessoa. Nem os pensamentos podem ser reservados. Acham que amar alguém é estar tão misturado que fica até difícil saber quem é quem.

Conheci uma moça que ficava tão grudada com o namorado que se dizia que eram xifópagos. Se alguma amiga telefonasse para lhe contar um problema, era pior. Ela ia ouvindo e repetindo tudo para ele.

Isso acontece porque as pessoas imaginam que assim vão estar completas, que nunca vão se sentir sozinhas. Os dois têm que gostar sempre das mesmas coisas e, é lógico, só admitem sair juntos. Se um não for, o outro não vai. Qual é a graça?

Os amigos têm que ser comuns (se houver), e se um dos dois não gostar muito do jeito do amigo do outro, encerra-se logo aquela amizade. É claro que a isso tudo se acrescenta a ideia de que quem ama jamais vai sentir desejo por outra pessoa.

Seria uma grande traição. Embora não verbalizem, pensam que os dois devem morrer para o mundo e viver só para o seu amor.

Quem é menos autônomo, mais medroso, defende com frequência a ideia de que para uma relação ser boa não pode haver segredo entre os parceiros. Será que não?

Quando um sabe tudo do outro, com o tempo os dois vão ficando sem novidade alguma. Não existe nada mais para descobrir, tudo se torna excessivamente conhecido: o que ele vai dizer, o que ela vai fazer… para o tédio e a monotonia é um passo.

Há os que se sentem culpadíssimos quando percebem sentir desejo sexual por outra pessoa. Contam para o parceiro, tentando expiar o pecado e, depois de perdoados, se sentirem novamente protegidos.

Entretanto, pode acontecer de o parceiro que recebe a confissão se aproveitar disso para torturar o outro, afirmando não poder nunca mais confiar.

A maioria dos que não contam nada não deixam de se culpar e, com medo de que o parceiro também sinta tesão por outra pessoa, se tornam inseguros. Ameaçados, começam a controlar tudo.

Não é tão simples viver uma relação amorosa satisfatória, que contribua para o próprio crescimento emocional. É necessário aprender primeiro a lidar de outra forma com as questões da vida.

Você pode amar muito uma pessoa, estar namorando ou casado com ela e ao mesmo tempo não ter dúvida de que é mais do que natural sentir tesão por outras pessoas.

E saber, que independente da atitude que tomar, é importante que se houver acordos estabelecidos com o parceiro fixo, eles devem ser respeitados.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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