Regina Navarro

Controle da fidelidade
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A grande maioria das pessoas que responderam à enquete da semana acredita ser impossível controlar a fidelidade do parceiro. Conheci um exemplo dessa impossibilidade ao ouvir o relato de um paciente no consultório.

Sérgio, 38 anos, é casado com Rita há 12. Ela lhe liga várias vezes ao dia, temendo que ele saia com outra mulher. Não admite, em hipótese nenhuma, o celular do marido desligado ou sem bateria. Para impedir essa desculpa, ela pessoalmente o põe para carregar todas as noites. Nada disso, entretanto, impede que Sérgio passe diariamente na casa de Vilma, sua namorada há três anos, e fique lá por duas horas.

Como sua mulher só acorda por volta de 9.30h, Sérgio se organizou de forma eficiente. Sai de casa sempre às 7h, enquanto ela ainda dorme. Rita está convencida de que há muito trabalho no escritório dele e aceita o fato com tranquilidade. Quando acorda e inicia o controle sobre o marido, ligando de meia em meia hora. Ele, feliz, aguarda o encontro do dia seguinte com Vilma.

De uma maneira geral, numa relação estável as cobranças de fidelidade são constantes e é natural sua aceitação. Severa vigilância é exercida sobre os parceiros. O medo de ficar sozinho é tanto, que é difícil encontrar quem aceite que a única coisa que importa numa relação é a própria relação, os dois estarem juntos porque gostam da companhia um do outro e fazerem sexo porque sentem prazer.

Entretanto, o controle da fidelidade da mulher sempre foi a maior preocupação para a maioria dos homens. O pintor espanhol Pablo Picasso não usava cinto de castidade para controlar a fidelidade de suas mulheres, mas utilizava outras formas eficazes de controle. Convidou Fernanda à sua casa para posar como modelo e a pinta com um gato. Ficam juntos nove anos. Temendo perder Fernanda, Picasso escondia-lhe os sapatos de modo que ela não poderia sair de casa. No fim, ela se apaixonou por um pintor italiano Ubaldo Oppi e fugiu com ele.

Esses fatos são vistos por nós com humor, como coisa do passado. Contudo, na contramão da evolução das mentalidades, há alguns indicadores que apontam para maior vigilância por parte de alguns maridos. Um kit doméstico para teste de infidelidade de U$ 49,95, o CheckMate, que testa manchas de sêmen, fez grande sucesso nos EUA e na Europa, vendendo mais de mil unidades por semana.

Brad Holmes, diretor de marketing do produto, afirma que quase 85% dos seus clientes nos EUA são homens: “O estereótipo da esposa submissa casada com o marido traidor está ultrapassado”, diz ele. “Parece que agora a mesa virou. As mulheres estão traindo como loucas.”

Acredito que ninguém deveria ficar preocupado em controlar o parceiro (a) ou tentar descobrir se transa ou não com outra pessoa. Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas: Sinto-me amado (a)?; Sinto-me desejado (a)? Se a resposta for Sim para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Não tenho dúvida de que as pessoas sofreriam menos e, por isso, viveriam bem mais satisfeitas.


Quando a proposta sexual é da mulher
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que um colega de trabalho seduzia de todas as formas e insistia a para irem a um motel. Quando ela decidiu aceitar, e propôs fazerem sexo naquele dia, ele passou a evitá-la e não tocou mais no assunto. Sem dúvida, é um relato curioso. O que aconteceu? Se ele não desejava transar com ela, por que insistiu tanto?

A partir de um estudo que durou nove anos, o americano Anthony Astrachan publicou o livro ‘Como os homens se sentem’, onde explica como a tentativa de demonstrar força, sucesso e poder, características cobradas do homem numa sociedade patriarcal, leva à perda da autonomia.

Sobre a recusa das mulheres em continuar subordinadas, ele concluiu que apenas 5 a 10% dos homens chegam perto de aceitar as mulheres como iguais, enquanto os demais expressam seus sentimentos de raiva, medo e inveja por meio de uma hostilidade evidente ou dissimulada. E o que os homens consideraram terrivelmente ameaçador nas mulheres é a combinação de competência e sexualidade.

Muitos homens ficam assustados quando a mulher faz alguma proposta sexual. Têm medo de dar um branco na hora, de não saber como agir nem o que dizer. E o pior: pode falhar a ereção. Afinal, o papel de conquistador é o único que o homem conhece, e fora dele não dá para se sentir à vontade.

Desde menino ele foi treinando para isso e, para complicar ainda mais, acreditou que faz parte da natureza masculina ser ativo e da feminina, a passividade. Mas é inegável que, apesar de tantos equívocos e limitações, ele antes vivia bem menos ansioso nessa área do que agora.

O papel que homem e mulher desempenhavam no sexo sempre teve regras claramente estabelecidas. Fazia parte do jogo de sedução e conquista o homem insistir na proposta sexual e a mulher recusar. Contudo, ele apostava no seu sucesso e para isso não media esforços. Quanto mais ela recusava mais ele insistia e mais emocionante o jogo se tornava. Só para ele, claro.

Para a mulher era um tormento. Além de toda a culpa que carregava por estar permitindo intimidade a um homem, seu desejo era desconsiderado, assim como seu prazer. Como usufruir daquele encontro? Não podia relaxar um segundo. Ela sabia que, se não se controlasse, seria logo descartada e ainda por cima rotulada de fácil.

Mas o homem continuava insistindo, e ela dizendo não. Ele nem a percebia, o importante era chegar ao final. Jogo cruel para ambos, é verdade. Aprisionados à moral anti-sexual, nenhum dos dois tinha a menor chance de experimentar o prazer proporcionado pela troca de sensações eróticas. Se em algum momento a mulher cedesse, pronto. O homem se apaziguava com a confirmação da única coisa que buscava desde o início: se sentir competente e se afirmar como macho.

Entretanto, quando a mulher resistia às investidas, a autoestima dele não era abalada. Ele se apoiava na convicção de que o motivo da recusa se devia exclusivamente a ela ser uma mulher “direita, “de família”. Assim, imune à preocupação de ter sido rejeitado por não agradar à parceira, continuava se sentindo poderoso e absoluto.

Agora as coisas mudaram. As mulheres dão sinais de não estarem nem um pouco dispostas a continuar se prestando a esse papel. Não querem apenas se mostrar belas e esperar passivamente que os homens se sintam atraídos e tomem a iniciativa.

Isso está aos poucos se tornando coisa do passado. Mas como o homem vai resolver essa questão? Como vai se adaptar a essa nova realidade? O machão está em baixa, e a mulher busca homens que se relacionem com ela em nível de igualdade em tudo, também no sexo.

Em várias partes do mundo os homens já demonstram insatisfação em ter que corresponder ao que deles se espera, e discutem cada vez mais a desconstrução do masculino, fazendo a mesma pergunta feita por John Lennon: “Não está na hora de destruirmos a ética do macho?… A que nos levaram todos esses milhares de anos?”


“Ele insistia para irmos ao motel. Quando aceitei, ele fugiu.”
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Regina Navarro Lins

“Desde que entrei num novo emprego, um colega se aproximou de mim. Durante vários meses se insinuou, fazendo promessas veladas dos prazeres sexuais que poderíamos desfrutar juntos. Eu levava na brincadeira, porque não me sentia atraída por ele. Mas ele não desistia, até que passou a ser mais explícito e passou a insistir para que fôssemos a um motel. Não perdia a oportunidade de me lançar olhares cheios de tesão. Comecei a sentir desejo por ele e decidi então que valeria a pena experimentar. Um dia, mal ele chegou, fui à sua sala dizer que desejava, naquela tarde, conferir as delícias sexuais que ele, há tanto tempo, prometia. Pronto. O inesperado aconteceu; não entendi nada. Ele deu uma desculpa, disse que estava cheio de serviço e nunca mais falou direito comigo. Nos tornamos dois estranhos. Estou me sentindo rejeitada…como devo me comportar?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Sexo após longo convívio
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana considera que a longa convivência acaba com o tesão. Sem dúvida, o sexo no casamento é o maior problema enfrentado pelos casais.

“Amo muito meu marido. Não quero me separar nunca. Ele é o melhor companheiro que alguém pode desejar. Só tem um problema: não tenho a menor vontade de fazer sexo com ele. Adoro quando ficamos abraçados, e ele faz cafuné na minha cabeça. Sexo nem pensar!”, é um dos vários desabafos que ouvi das mulheres .

Os homens também se queixam da frequência das relações sexuais no casamento. “Minha mulher só quer fazer sexo de seis em seis meses. Mesmo assim só se eu insistir muito.”

É bem maior do que se imagina o número de mulheres que fazem sexo sem nenhuma vontade. Elas tentam postergar a obrigação que se impõem para manter o casamento, mas às vezes não tem jeito. Quando o marido se mostra impaciente, o carinho e a amizade que sente por ele, ou o temor de perdê-lo, fazem com que a mulher ceda.

Entretanto, estudos recentes mostram que a sexualidade de ambos os sexos é fisiologicamente parecida. Apesar de a maioria das mulheres ainda desejar relacionamentos românticos, pesquisas do sexólogo americano Jack Morin mostraram que quando se trata de produzir excitação sexual, o sexo explícito é o que deixa as mulheres com mais desejo, como acontece com os homens.

O número de homens que perde o desejo sexual no casamento é bem menor do que o de mulheres. Para cada homem que não tem vontade de fazer sexo há, pelo menos, três mulheres nessa situação. Alguns fatores contribuem para isso.

O homem, na nossa cultura, é estimulado a iniciar a vida sexual cedo e se relacionar com qualquer mulher. Outra razão seria a necessidade de expelir o sêmen e, por último, a sua ereção rápida, na medida em que necessita de menos quantidade de sangue irrigando seus órgãos genitais.

Quais são os motivos da diminuição ou mesmo da ausência do sexo nas relações estáveis? Familiaridade com o parceiro, associada ao hábito, pode provocar a perda do desejo sexual, independente do crescimento do amor e de sentimentos como admiração, companheirismo e carinho.

Para se sentirem seguras, as pessoas exigem fidelidade, o que sem dúvida é limitador e também responsável pela falta de tesão. A certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista.

É uma questão séria quando não há mais vontade de fazer sexo com o parceiro (a). Afeta a vida do rejeitado e de quem rejeita. Mas é fundamental todos saberem que na grande maioria dos casos não se trata de problema pessoal ou daquela relação específica, e sim de fato inerente a qualquer relação prolongada, quando a exclusividade sexual é exigida.

Essa informação pode evitar acusações mútuas, em que se busca um culpado pelo fim do tesão. O preço é a decepção de ver se dissipar a idealização do par amoroso. No entanto, a partir daí fica mais fácil cada um decidir o que fazer da vida.

É claro que existem exceções, e que em alguns casais o desejo sexual continua existindo após vários anos de convívio. De qualquer forma, acredito faltar uma reflexão a respeito do modelo de casamento vivido na nossa cultura.

Nega-se o óbvio: o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual. Quando essa mentalidade mudar, as torturas psicológicas e os crimes passionais certamente diminuirão, assim como inúmeros outros fatores que geram angústia.


Amores múltiplos
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta cujo namorado tem outras duas namoradas. Ele acha que ela deveria fazer o mesmo, ou seja, não ficar presa a um único relacionamento. Sem dúvida, está aumentando o número de homens e mulheres que optam por não se fechar numa relação a dois. Um exemplo é o caso de Elaine, que atendi no consultório.

Ela é uma advogada de 34 anos, separada há três. Após alguns namoros, e muitas brigas por conta do ciúme de seus parceiros, decidiu que não teria mais nenhuma relação amorosa em que fosse exigido qualquer tipo de exclusividade.

“Em vários momentos da minha vida amei mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mas sempre que isso acontece, você se sente na obrigação de ter que decidir entre elas. Não acho natural; não quero isso para a minha vida. Por que não podemos amar várias pessoas? Não amamos diversos amigos? Não amo meus três filhos? Cansei dessa história; aderi de corpo e alma ao poliamor. Sei que não é fácil encontrar parceiros que concordem com isso, mas estou tentando. Tenho a esperança que daqui a algum tempo as cabeças fiquem mais abertas.”

Há alguns anos, na mesma semana em que ouvi o relato de Elaine, recebi o telefonema de uma repórter de uma revista semanal querendo me entrevistar sobre poliamor. São esses pequenos sinais que indicam as tendências.

Poliamor como movimento existe de um modo visível e organizado nos Estados Unidos nos últimos 25 anos, acompanhado de perto por movimentos na Alemanha e Reino Unido. Recentemente, a imprensa começou a cobrir abertamente quer o movimento poliamor em si, quer episódios que lhe são ligados. Em novembro de 2005 realizou-se a Primeira Conferência Internacional sobre Poliamor em Hamburgo, Alemanha.

No Poliamor uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais ou até mesmo ter relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todas as partes envolvidas. Os poliamoristas argumentam que não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo fato de ter essa possibilidade sempre em aberto, mas sim de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente.

“O Poliamor pressupõe uma total honestidade no seio da relação. Não se trata de enganar nem magoar ninguém. Tem como princípio que todas as pessoas envolvidas estão a par da situação e se sentem confortáveis com ela. A ideia principal é admitir essa variedade de sentimentos que se desenvolvem em relação a várias pessoas, e que vão para além da mera relação sexual.”, explica um adepto dessa prática amorosa.

Outro praticante explica que o poliamor aceita como fato evidente que todos têm sentimentos em relação a outras pessoas que as rodeiam. Como nenhuma relação está posta em causa pela mera existência de outra, mas sim pela sua própria capacidade de se manter ou não, os adeptos garantem que o ciúme não tem lugar neste tipo de relação.

Ele garante que não é o mesmo que uma relação aberta, que implica no sexo casual fora do casamento, nem na infidelidade, que é secreta. O poliamor é baseado mais no amor do que no sexo e se dá com o total conhecimento e consentimento de todos os envolvidos, estejam estes num casamento, num ménage a trois, ou no caso de uma pessoa solteira com vários relacionamentos.

O que se conclui é que as mentalidades estão mudando em relação a amor e sexo. As relações a dois fechadas estão perdendo espaço. Mas isso não deve se tornar um modelo. Devemos fugir de modelos. Cada um escolherá a sua forma de viver, seja um longo casamento exclusivo, com alguém que também assim o deseje, ou a alternância de vários parceiros amorosos e sexuais.

Quem é jovem, ou apesar da idade não está lembrado dos anos 50 ou 60, vale recordar que pessoas separadas não eram aceitas socialmente. A separação era uma tragédia! Assim, como a moça deixar de ser virgem antes do casamento. Isso tudo mudou e muita coisa mais está mudando.


“Além de mim ele tem mais duas namoradas e quer que eu faça o mesmo!”
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Regina Navarro Lins

“Comecei a namorar um rapaz há menos de um mês. Nossa relação é ótima, tanto afetiva quanto sexualmente. Sinto que cada vez mais estou apaixonada por ele. Só que agora ele me contou que acredita que devemos amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Diz que além de mim namora outras duas mulheres. Diz que sou muito importante na sua vida e ama a nós três. Acha que eu deveria fazer o mesmo, ou seja, não ficar presa a um único relacionamento. Isso é possível? O que faço? Como devo agir? Aceito essa situação?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Sob o domínio da paixão
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Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana acredita que é fundamental existir paixão na relação amorosa. Não são poucos os casos famosos de pessoas apaixonadas.

Edward VIII (1894-1972), por exemplo, foi rei da Inglaterra por um ano até renunciar ao poderoso trono do império pela paixão por uma mulher, Wallis Simpson, plebeia, americana e divorciada. Esse caso foi apresentada à opinião pública como um conto de fadas. Conhecendo os detalhes da história fica a dúvida: ele a amava mesmo ou o que predominava era uma profunda dependência emocional? Nunca saberemos.

Não há dúvida de que a paixão nos faz olhar o mundo de outra forma. Tudo assume cores e matizes surpreendentes. Êxtase, euforia, apreensão, dias inquietos, noites insones… É possível estar entre muitas pessoas e ficar preso por uma única imagem. Todos desaparecem, até a realidade se afasta do cenário e a pessoa amada se torna a única presença significativa, a única que nos importa.

Uma dimensão minha, interna, de que eu não era consciente, emerge e eu me enriqueço com o que até aquele momento me era desconhecido. A paixão pode ser comparada ao estado hipnótico. Há uma fixação no ser amado, o que em alguns casos se torna uma obsessão.

Os amantes experimentam um sentimento de incrível plenitude e, simultaneamente, têm a impressão de terem vivido até aquele momento em estado de privação: a presença do outro é fonte de bem-estar que parece ter possibilidades inesgotáveis. É como se novas percepções e emoções enchessem os nossos canais sensoriais, abrindo à alma outra dimensão. Por conta disso, todos os apaixonados pressentem que um dia podem perder a pessoa amada, que isso pode acontecer a qualquer momento, e sofrem.

A principal característica da paixão é a urgência. Ela é tão invasiva e poderosa que pode fazer com que sejam ignoradas todas as obrigações habituais. Perturba as relações cotidianas, arrancando a pessoa das atividades a que está acostumada, deixando-a completamente fora do ar.

É comum se fazerem escolhas radicais e muitas vezes penosas — falta-se ao trabalho, larga-se o emprego, muda-se de cidade, abandona-se a família. “O amor é bem comportado, se faz no lugar da ordem. É exercido a partir de uma série de referências bem ordenadas. A paixão, não. Ela subverte, perverte, te vira pelo avesso. O amor é legal, tem futuro, faz promessas…”, diz o professor de teoria psicanalítica e escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza.

O francês Denis de Rougemont, grande estudioso do amor no Ocidente, afirma que raramente os poetas cantam o amor feliz, harmonioso e tranquilo. E que o romance passa a existir unicamente onde o amor é fatal, proscrito, condenado… e não como a satisfação do amor. As provas, os obstáculos, as proibições, são as condições da paixão. Afinal, paixão significa sofrimento.

O desejo e o sofrimento fazem com que todos se sintam vivos, proporcionando um frisson, e muitas surpresas. Necessita-se do outro, não como ele é no real, mas como instrumento que torna possível viver uma paixão ardente. Somos envolvidos por um sentimento tão intenso que por ele ansiamos, apesar de nos fazer sofrer. Os apaixonados não precisam da presença do outro, mas da sua ausência. Contudo, a maioria reconhece que a paixão acaba logo.

Para a historiadora e filósofa francesa Elisabeth Badinter a paixão está em via de extinção. As mentalidades estão mudando e a tendência é outra. Ela acredita que agora homens e mulheres sonham com outra coisa diferente dos dilaceramentos. Se as promessas de sofrimento devem vencer os prazeres, preferimos nos desligar.

Além disso, a permissividade tirou da paixão seu motor mais poderoso: a proibição. Ao admitir que o coração não está mais fora da lei, mas acima dela, pregou-se uma peça no desejo. Então, mesmo que ainda quiséssemos, não poderíamos mais. As condições da paixão não estão mais reunidas, tanto do ponto de vista social quanto psicológico, diz Badinter.