Regina Navarro

Súbita paixão
Comentários 6

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que ama o marido, mas após um único encontro com outro homem se sente completamente apaixonada por ele.

Essa não é uma situação rara de acontecer. Não se sabe nada do outro, a conversa dura pouco, mas isso não impede de que se faça planos e se imagine situações. Alguns defendem o amor à primeira vista. Tenho dúvidas de sua existência. Acredito, sim, em desejo à primeira vista. Mas como desde cedo aprendemos a confundir amor com desejo sexual, chamamos uma coisa de outra.

Na maior parte das vezes, a emoção que se sente, nesse caso, não é a do amor verdadeiro nem a do desejo sexual perturbador. O mais comum é que esse amor — totalmente idealizado — seja do tipo romântico. Nele não se percebe a pessoa real como ela é, e a paixão é pela imagem que se constrói dela, pelo que se gostaria que ela fosse. Ansiosos por experimentar as emoções tão propaladas desse amor, quase todos no mundo ocidental constroem a história que bem entendem, sem nem se dar conta disso.

Poucos gostam de ouvir que no amor romântico se inventa uma pessoa que não existe, idealizando-a e projetando nela qualquer coisa que se deseje. Portanto, nada mais natural do que ela ser maravilhosa aos olhos de quem a ama. O problema é que os apaixonados esperam que todo o mundo enxergue a pessoa amada do mesmo jeito que eles enxergam, não aceitando que os outros ignorem as qualidades percebidas por eles.

Há quem questione se uma paixão desse tipo pode ser duradoura. A questão é saber se entre a pessoa real e a imagem que se formou dela existe grande distância. Se existir, em pouco tempo o namoro ou casamento se torna insuportável.

Não tendo mais como manter a idealização, por conta da convivência diária, as características de personalidade do outro que não nos agradam, agora são percebidas, comprometendo a relação.

Entretanto, isso não acontece somente no amor repentino, à primeira vista. Pode ocorrer em qualquer experiência amorosa, desde que se enxergue o outro através da névoa do mito do amor romântico.


“Fui desejada por outro homem e não consigo parar de pensar nele!”
Comentários 39

Regina Navarro Lins

“Sou casada há três anos e amo meu marido. Apesar do sexo não ser mais como era, nem penso em me separar e quero ter filhos com ele. Mas há duas semanas conheci um homem muito interessante que se interessou por mim. Há muito tempo não me sentia desejada. Demos um beijo, marcamos um encontro, mas eu não tive coragem de ir. Ele também é casado e voltou para a cidade dele e não me procurou mais. Mas eu não consigo parar de pensar nele. Amo meu marido, mas estou sofrendo, apaixonada por outro homem! Tenho medo que isso estrague o que sinto pelo meu marido. O que fazer?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Sobre a bissexualidade
Comentários 12

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A grande maioria das pessoas que responderam à enquete da semana namoraria uma pessoa bissexual. Isso mostra como os preconceitos estão diminuindo, mas nem todos aceitam com naturalidade o próprio desejo por ambos os sexos.

Para ilustrar como os bissexuais se sentem, selecionei dois relatos:

“Tenho 46 anos, sou casado há 25 anos e tenho três filhos. Não foi fácil admitir que sempre tive desejo por homens. Minha primeira experiência ocorreu ainda criança: um amigo adolescente me colocava no colo para ler livros de histórias. As primeiras vezes foram um misto de estranheza e desconforto, com o membro dele tocando em minha bunda. Mas a repetição tornou a coisa agradável, a ponto de eu não saber o que mais gostava: da história ou da “coxeada''. Lembro que chegava a facilitar o “encaixe''. Pré-adolescente (dez anos), tive companheiro regular na prática de bolinação, onde sempre fui passivo. Aos 15 anos, outro amigo deflorou meu ânus. Depois dessa experiência, parece que foi ligado um “bit'' no cérebro: assumi comportamento heterossexual. De certo modo, “esqueci'' tudo.

Esse comportamento se manteve até dez anos atrás, quando eu e minha esposa passamos a nos “liberar'' sexualmente. Foi um período bem erótico, onde cada um teve uma experiência extraconjugal. Ela envolveu-se com um amigo nosso. Mas isso só ocorreu porque eu a incentivei. Passei então a relembrar a minha infância e adolescência. Nesse momento, aquele bit foi “desligado'' e me senti erotizado com as lembranças.

Minha esposa sabe que sou bissexual, mas não que desejo voltar a me relacionar com homens. Independente de voltar a transar, estou consciente de minha bissexualidade. E me sinto bem. Lido com esse desejo da mesma forma que lido com o desejo por outra mulher. Há várias amigas de minha esposa que adoraria levar para cama. Ser bissexual não é um bicho de sete cabeças. É apenas uma faceta de homem comum.”

***

“Amo meu marido, sempre tivemos um ótimo sexo, e não quero me separar dele. Só que aconteceu algo totalmente inesperado. Nunca havia me passado pela cabeça que eu poderia me interessar por uma mulher. Só que conheci Cris e me apaixonei. Começamos a fazer um curso de especialização juntas. Diversas vezes fui à sua casa fazer trabalhos do curso. Um dia, quase que por acaso, nos beijamos. Fiquei bastante assustada com meus próprios desejos, mas mesmo assim resolvi ir em frente. Estamos tendo uma relação maravilhosa, de muito amor e muito sexo. Às vezes, nem acredito que isso está acontecendo comigo.”

***
O fato é que nunca se falou tanto em bissexualidade como dos anos 90 para cá. A manchete de capa da revista americana Newsweek de julho de 1995 era: “Bissexualidade: nem homo nem hétero. Uma nova identidade sexual emerge.”

A atriz americana Jodie Foster teve seu desejo sexual por mulheres revelado num livro escrito por seu próprio irmão. Entrevistada pelos jornais, declarou: “Tive uma ótima educação, que nunca me fez diferenciar homens e mulheres.” Essa discussão existe desde a década de 70.

A Newsweek de 27 de maio de 1974 trouxe uma matéria em que a cantora Joan Baez declarava que um dos maiores amores de sua vida havia sido uma mulher e que, após quatro anos de relacionamentos exclusivamente lésbicos, estava namorando um homem.

As estatísticas mostram que a grande maioria já sentiu, de alguma forma, desejo pelos dois sexos. Na pesquisa feita pelo americano Harry Harlow, mais de 50% das mulheres, numa cena de sexo em grupo, se engajaram em jogos íntimos com o mesmo sexo, contra apenas um por cento dos homens. Entretanto, quando o anonimato é garantido a proporção de homens bissexuais aumenta a um nível quase idêntico.

A mentalidade patriarcal, que definiu com tanto rigor o masculino e o feminino, está perdendo as suas bases. É cada vez mais difícil encontrar diferenças entre anseios e comportamentos de homens e mulheres. Todos desejam ser o todo, não ter que reprimir aspectos de sua personalidade para corresponder às expectativas de atitudes consideradas masculinas ou femininas.

Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, que elaborou um profundo estudo sobre o tema, compara a afirmação de que os seres humanos são heterossexuais ou homossexuais às crenças de antigamente, como: o mundo é plano, o sol gira ao redor da terra. E pergunta: “Será que a bissexualidade é um ‘terceiro tipo’ de identidade sexual, entre a homossexualidade e a heterossexualidade — ou além dessas duas categorias?” Acreditando que a bissexualidade tem algo fundamental a nos ensinar sobre a natureza do erotismo humano, ela sugere que em vez de hétero, homo, auto, pan e bissexualidade, digamos simplesmente ‘sexualidade’.

O que você pensa a respeito dessa afirmação?


Reflexões sobre a exclusividade sexual
Comentários 5

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que após seis anos de casamento sente necessidade de viver outras experiências. Diz se sentir diante de um impasse: casamento ou liberdade? Tem dúvida se vale a pena interromper um relacionamento legal para viver outras experiências.

É impossível não perceber que o grande conflito hoje numa relação amorosa se situa entre o desejo de simbiose (se fechar numa relação a dois) e o desejo de liberdade. Não são poucos os que desejam viver novas experiências sexuais, mas se sentem culpados por isso.

A maioria das pessoas associa fidelidade à exclusividade. E isso pode ser um grande equívoco. Penso que a fidelidade está no sentimento que se nutre pelo outro e nas razões que sustentam a relação. Os termos fiel/infiel e mais ainda a palavra traição talvez não sejam apropriados para caracterizar relações extraconjugais.

De uma maneira geral, pessoas num namoro ou casamento, defendem a ideia de que não deve haver nenhum segredo entre as partes. Agora, se tudo é conhecido não há surpresa, nenhuma novidade, não há descoberta e a consequência natural é o desinteresse pelo outro. E é isso que acontece na maioria dos casamentos.

Com a emancipação feminina as mentalidades começaram a mudar. A proporção de mulheres casadas que têm encontros extraconjugais é provavelmente a mesma que a dos homens.

Num casamento sem dependência econômica ou emocional, um episódio extraconjugal pode ocasionar dois resultados: é apenas passageiro e não rivaliza com a relação estável, que sai até reforçada — a pessoa não se sente coagida à obrigatoriedade de ter um único parceiro — ou a nova relação se torna mais intensa e mais prazerosa que a anterior e rompe-se então com a antiga.

O parceiro que é excluído, que não deseja a separação por continuar amando, vai passar por momentos difíceis. Por mais que compreenda racionalmente as razões do outro e concorde que não há alternativa — afinal isso faz parte da vida — o sentimento de inferioridade sexual é inevitável.

Alguns tentam a reconquista. Nesse processo, desaparece o automatismo que havia na relação prolongada e também a certeza de posse. Outros, mesmo sofrendo, preferem manter-se na expectativa do que vai acontecer. Seja qual for a evolução, ela será sempre melhor do que o martírio de duas pessoas acorrentadas uma à outra por razões morais ou racionais.

Numa relação amorosa estável as cobranças de fidelidade são constantes e sua aceitação é natural. Com toda a vigilância que os casais se impõem, ficam impedidos de vivenciar experiências ricas e reveladoras que outros parceiros podem proporcionar. O conflito entre o desejo e o medo de transgredir é doloroso.

Quando surge uma possibilidade, se esquivam com racionalizações do tipo: “não fui porque não era a hora”, “não era a pessoa”, “não tenho estrutura”, “eu não estava preparado” e se não der para negar que apareceu alguém despertando muita atração, muito desejo, desvia-se o olhar, o pensamento e a emoção para evitar complicações.

O psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa afirma que somos por tradição sagrada tão miseráveis de sentimentos amorosos que, em havendo um, já nos sentimos mais do que milionários e renunciamos com demasiada facilidade a qualquer outro prêmio lotérico (de amor).

As restrições que muitos têm o hábito de se impor por causa do outro ameaçam bem mais uma relação do que uma “infidelidade”. Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. O parceiro que teve excessiva consideração tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a considerar-se vítima, a tornar-se intolerante. Quando a fidelidade não é natural nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a própria relação.

W.Reich diz que nunca se denunciará bastante a influência perniciosa dos preconceitos morais nessa área. E que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual, que é normal e nada tem a ver com a moral. Se todos soubessem disso, as torturas psicológicas e os crimes passionais com certeza diminuiriam e desapareceriam também inúmeros fatores e causas das perturbações psíquicas que são apenas uma solução inadequada destes problemas.


“Sou casada, mas desejo viver outras experiências.” O que você faria?
Comentários 67

Regina Navarro Lins

“Como parte significativa das mulheres, eu via o casamento (monogâmico) como projeto de vida. Não tive muitos namorados, pois entendia que deveria esperar pela pessoa certa. Conheci meu esposo, com quem, aos 27 anos, tive minha primeira experiência sexual. Hoje, após seis anos de sólido relacionamento, sinto profunda necessidade de viver outras experiências. Conversei com ele sobre o assunto, mas ele considera que nosso amor é capaz de suprir tudo. Me coloco diante de um impasse: casamento ou minha “liberdade''? Vale a pena interromper um relacionamento legal para viver outras experiências? Por outro lado, é justo abrir mão de outras necessidades em razão de um casamento? Me sinto culpada por colocar meu casamento em questão. Não sei se estou sendo injusta/egoísta com o nosso amor, ou se é minha condição de mulher que me impõe a culpa. O que fazer?”

Quando alguém se coloca em nosso lugar diante de um problema, contribui de alguma forma para decidirmos que atitude tomar. Diga o que faria se estivesse no lugar do outro: Se eu fosse você… No sábado, eu comento o tema.

Você também pode relatar um conflito amoroso e sexual que está vivendo. Escreva para blogdaregina@bol.com.br e conte sua história em até 12 linhas.


Sexo casual
Comentários 10

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

 

Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana já se arrependeu de algum sexo casual. Os motivos que levam ao arrependimento são variados, mas não são poucas as mulheres que me relataram ter um sentimento de vazio quando não há continuidade da relação. É o caso de Maíra, uma dentista de 29 anos, que chegou deprimida à sessão de terapia numa segunda-feira.

Desde que se separou do marido não perdia as esperanças de conhecer um homem com quem pudesse desenvolver uma relação estável e duradoura. O motivo da sua depressão foi mais uma frustração amorosa. “Na sexta fui a uma festa na casa de uma amiga. Lá conheci Oscar, um amigo dela de infância. Ficamos juntos a noite toda, senti muito tesão por ele e aí não resisti: dormimos num motel. Só que ele não me ligou no sábado nem no domingo. Eu tinha jurado pra mim mesma que não ia mais transar sem amor….não suporto esse sentimento de vazio. Meu arrependimento é grande!”

Muitas mulheres, apesar das evidências em contrário, ainda se esforçam para se convencer de que sexo e amor têm que caminhar sempre juntos. Os homens nunca pensaram assim e jamais isso foi cobrado deles. Quando uma mulher diz que não consegue transar com um homem se não houver muito amor entre eles, na maioria das vezes ela está apenas repetindo o que lhe ensinaram, impossibilitada de perceber os seus próprios desejos.

Não há motivo para o sexo não ser ótimo quando praticado por duas pessoas que sentem atração e desejo uma pela outra. No caso de Maira a frustração e o vazio têm muito mais a ver com uma expectativa não satisfeita do que com o sexo em si. A questão é que, como o sexo não é visto como natural, costuma-se misturar as coisas e se busca algo mais do que prazer: continuidade da relação, namoro ou casamento. Mas isso não é à toa.

Desde que o homem descobriu que participa da procriação, mantém sob controle a sexualidade da mulher. E isso aconteceu há 5000 anos, quando ele ficou obcecado pela certeza da paternidade, para só deixar a herança para os filhos legítimos. No século 19 chegou-se a criar teorias para sustentar que a mulher não gostava de sexo, que seu único prazer era satisfazer o marido e cuidar dos filhos.

É claro que, da década de 60 para cá, com todo o movimento de liberação sexual, essas ideias caíram por terra. Hoje, todos sabem que homens e mulheres têm a mesma necessidade de sexo, e que a mulher pode ter tanto prazer quanto seu parceiro. Contudo, curiosamente, a maioria das pessoas finge não saber.

Se uma mulher foge ao padrão de comportamento tradicional, ou seja, não esconde que gosta de sexo, é inacreditável, mas ainda corre o risco de ser chamada de galinha ou de piranha. As próprias mulheres participam desse coro, ajudando a recriminar as outras, que conseguiram romper a barreira da repressão e exercem livremente sua sexualidade. Não é nenhuma novidade, mais uma vez os próprios oprimidos lutando para manter a opressão.

Entretanto, para o homem, fazer sexo com uma mulher no mesmo dia em que a conhece é considerado natural, ele até se valoriza por isso. Há os que se dizem liberais, sem preconceitos, nada moralistas. Será? Para se ter certeza, é só perguntar o que elas acham da mulher que transa com um homem no primeiro encontro.

O sexo, quando vivido sem medo ou culpa, pode levar a uma comunicação profunda entre as pessoas. A maioria das mulheres se recusa a fazer sexo no primeiro encontro, mas não por falta de desejo. É a submissão ao homem, ou seja, a crença de que tem que corresponder à expectativa dele.

A partir daí inicia-se uma encenação, onde o script é sempre o mesmo: o homem pode fazer sexo, a mulher não. Ele insiste, ela recusa. O tesão que os dois sentem é igual, mas ele continua insistindo e ela continua dizendo não. Ela acredita que, se ceder, ele vai desvalorizá-la e não vai se dispor a dar uma continuidade à relação. Vai sumir logo depois que gozar. E o pior é que muitos homens somem mesmo.

A luta interna entre os antigos e os novos valores não está concluída. Alguns se sentem obrigados a depreciar a mulher, que sentiu tanto desejo quanto eles, e não fingiu. “Ora, ela deveria saber resistir mais bravamente”, pensam. Submissos ao modelo imposto, funcionam como robôs, aceitando que seja determinado com que mulheres podem namorar ou casar.

Afinal, em que encontro a mulher pode fazer sexo com um homem? No segundo, terceiro, sexto? Qual? O grau de intimidade que você sente na relação com uma pessoa não depende do tempo que você a conhece. Além disso, o prazer sexual também independe do amor ou do conhecimento profundo de alguém. Para um sexo ser ótimo basta haver muito desejo e vontade de curtir. E uma camisinha no bolso, claro.

Estamos vivendo um momento de transição, em que os antigos valores estão sendo questionados, mas novas formas de viver e pensar ainda causam medo pelo desconhecido. Há os que sofrem por se sentir impotentes para fazer escolhas livres, mas o fim de muitos tabus a respeito do sexo é só uma questão de tempo.


Uma paixão complicada
Comentários 18

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae


Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da internauta que ama o marido, mas não para de pensar na sua melhor amiga. Sente medo de ir viver essa paixão e se arrepender, teme os preconceitos e prejudicar os filhos.

Acredito que podemos amar várias pessoas ao mesmo tempo. Não só filhos, irmãos e amigos, mas também aqueles com quem mantemos relacionamentos afetivo-sexuais. E podemos amar com a mesma intensidade, do mesmo jeito ou diferente. Acontece o tempo todo, mas ninguém gosta de admitir. A questão é que nos cobramos a rapidamente fazer uma opção, descartar uma pessoa em benefício da outra, embora essa atitude costume vir acompanhada de muitas dúvidas e conflitos.

Na história relatada acima há um complicador: o amor por outra mulher, alvo ainda de preconceitos. Embora muitos internautas tenham sugerido que o marido vai adorar ter as duas mulheres com ele, em nenhum momento constatamos que o triângulo amoroso está nos planos dela. Outros internautas afirmam que ela, por não conseguir parar de pensar na amiga, não ama o marido.

Estamos tão condicionados pelo mito do amor romântico, que aceitamos como verdade inquestionável o conjunto de ideais e expectativas construídas para reger esse tipo de amor. Ao fazer com que todos acreditem ser impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo, o modelo de amor imposto na nossa cultura torna inquestionável a conclusão: “se ele ama outra é porque não me ama”. É muito difícil encontrar alguém que admita que o amor pode ser vivido fora de uma relação fechada entre duas pessoas, apesar de muita gente viver na prática essa experiência.

O psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa afirma em seus livros que “somos por tradição sagrada tão miseráveis de sentimentos amorosos que havendo um já nos sentimos mais do que milionários, e renunciamos com demasiada facilidade a qualquer outro prêmio lotérico (do amor)”. E essa ideia se desenvolveu a partir da crença de que somente através da relação amorosa estável com uma única pessoa é que vamos nos sentir completos e livres da sensação de desamparo. Não é à toa que exigimos que o outro seja tudo para nós e nos esforçamos para ser tudo para ele. Mesmo à custa do empobrecimento da nossa própria vida.

Voltando à questão da paixão que a internauta relata sentir pela amiga, a antropóloga Margareth Mead declarou: “Acho que chegou o tempo em que devemos reconhecer a bissexualidade como uma forma normal de comportamento humano. É importante mudar atitudes tradicionais em relação ao homossexualismo, mas realmente não deveremos conseguir retirar a carapaça de nossas crenças culturais sobre escolha sexual se não admitirmos a capacidade bem documentada (atestada no correr dos tempos) de o ser humano amar pessoas de ambos os sexos.”

E Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, que elaborou um profundo estudo sobre o tema compara a afirmação de que os seres humanos são heterossexuais ou homossexuais às crenças de antigamente, como: o mundo é plano, o sol gira ao redor da terra. E pergunta: “Será que a bissexualidade é um ‘terceiro tipo’ de identidade sexual, entre a homossexualidade e a heterossexualidade — ou além dessas duas categorias? Ou será que é uma coisa que, de cara, põe em questão o próprio conceito de identidade sexual? Por que, em vez de hétero, homo, auto, pan e bissexualidade, não dizemos simplesmente ‘sexualidade’? E será que a bissexualidade não tem algo fundamental a nos ensinar sobre a natureza do erotismo humano?”