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Regina Navarro Lins

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Muito usado para justificar feminicídio, ciúme é sempre tirano e limitador

Regina Navarro Lins

16/03/2019 04h00

Ciúme foi usado como justificativa para violência contra a mulher mais de 50 mil vezes, de acordo com o TJ-GO. Foto: Getty Images

Em São Paulo, das 364 denúncias de feminicídio protocoladas pelo MPSP entre março de 2016 e março de 2017, 30% delas tiveram como justificativa "ciúme, sentimento de posse ou machismo". Em Goiás, o TJ-GO informa que há mais de 67 mil processos em tramitação relacionados à Lei Maria da Penha. Dentre eles, a palavra "ciúme" foi usada mais de 50 mil vezes em atos judiciais, despachos e sentenças.

Não há dúvida de que a relação amorosa entre homens e mulheres sempre foi prejudicada pelo ciúme. Inicialmente o do homem estava ligado ao medo de falsificação da descendência — dar o próprio nome e criar um filho que não fosse seu. Esse temor serviu para justificar a extrema violência que as mulheres sofreram nas sociedades patriarcais. Para elas, que só podiam exprimir dedicação e obediência, esse sentimento era proibido de se manifestar, caso existisse.

Não são poucos os que defendem a existência do ciúme nas relações amorosas. A maioria acredita que ciúme é prova de amor. Mas de qualquer forma o ciúme é sempre tirano e limitador. Sua origem é cultural, mas é tão valorizado, há tanto tempo, que passou a ser visto como parte da natureza humana. Mulheres que buscam refúgio em abrigos para mulheres agredidas relatam quase invariavelmente que seus maridos fervem de ciúme.

Num estudo sobre mulheres espancadas, muitas das quais necessitaram de cuidados médicos, a mulher típica relatava que o marido "tenta limitar meu contato com amigos e família" (a tática da ocultação); "insiste em saber onde estou a todos os momentos" (a tática da vigilância) e "me xinga para me rebaixar e para que eu me sinta mal a respeito de mim mesma" (a tática de minar a autoestima).

O ciúme dos homens coloca as mulheres em risco de serem assassinadas. O psicólogo americano Vincent Miller acredita que em alguns casos o ciúme se torna negro e perigoso, numa erupção vulcânica súbita de ansiedade de abandono, que algumas pessoas mantêm contida enquanto possuem o controle sobre seus parceiros.

Um não se sentir dono do outro, as pessoas saberem que estão juntas por prazer e não por qualquer outro motivo, só enriquece a relação. Mas muitos acreditam que, numa relação amorosa, só controlando o outro há a garantia de não ser abandonado. Existem pessoas que preferem até abrir mão da própria liberdade, desde que seja um bom argumento para controlar a liberdade do parceiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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