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Regina Navarro Lins

Não são poucos os homens que sentem prazer com a estimulação do ânus

Regina Navarro Lins

17/09/2016 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o "Se eu fosse você"

A questão da semana é o caso da internauta cujo namorado dá indicações de gostar de ser penetrado com dedo ou vibrador. Ele se entrega. Ela quer confirmar que isso não tem nada a ver com o fato de ser gay ou não.

O sexo anal é talvez a mais execrada de todas as formas de sexo. Os gatos lambem, os cachorros cheiram, mas a maior parte dos humanos trata o ânus como se fosse uma das partes mais malignas do corpo. Seu uso na relação sexual é um tabu em muitas culturas, inclusive na nossa.

Na França, antes da revolução (1789), essa prática levava à morte na guilhotina e na Inglaterra, no século 17, era considerada como crime e a condenação podia ser prisão perpétua ou pena de morte.

Por mais incrível que pareça, no século 20 as punições ao sexo anal continuaram. No estado de Indiana, EUA, em 1965, houve o caso de um homem, que foi preso por fazer sexo anal com a esposa. Ela, depois de uma briga, assinou uma declaração acusando o marido de ter cometido "o detestável e abominável crime contra a natureza".

Embora a mulher tenha mudado de ideia e tentado retirar a acusação, não tinha mais direito legal de fazê-lo. O marido foi condenado a 14 anos de prisão. Teve direito a um novo julgamento, mas passou três anos preso antes que ele acontecesse.

Em 1990, 17 estados americanos ainda mantinham na ilegalidade o sexo anal consensual. Em 1988, na Georgia, Estados Unidos um homem foi condenado a cinco anos de prisão por ter confessado que fez sexo anal com a esposa, com o consentimento dela.

Mas curioso mesmo é o que acontecia, na Roma antiga, há 2500 anos. Na noite de núpcias, o noivo se abstinha de tirar a virgindade da noiva em respeito a sua timidez e por isso praticava o sexo anal com ela.

Em muitas épocas da história da humanidade o sexo anal foi considerado pecado. Entretanto, independente das proibições legais ou morais, as pessoas sempre o praticaram.

Não são poucos os homens que sentem prazer com a estimulação anal e se preocupam ou deixam suas parceiras preocupadas com isso.
A seguir, alguns relatos que ouvi no consultório ou que recebi por e-mail.

"Eu e minha esposa compramos um vibrador para usarmos nas nossas relações. A principio ela tinha vontade de, quando eu a penetrasse anal, sentir o vibrador na sua vagina, mas com o tempo ela começou a usá-lo em mim. Passamos a gostar da brincadeira, e a partir daí ele passou a ser só meu. Às vezes, sou eu que peço para que ela o coloque em mim. Depois vem aquele grilo: será que não estou fazendo uma coisa imoral, muito extravagante… sei lá. Na verdade estou gostando da brincadeira, e isso não tem nada a ver com desejo homossexual. Só sinto vontade com ela, jamais fantasiei estar com um homem na cama. Será que tem algo errado em mim?"

"Tenho 21 anos, sou homem e heterossexual… Sou daqueles que se diz "cabra macho" não gosto de frescuras, não curto novela, e amo mulheres acima de tudo! Porém eu acho que eu sinto prazer na região anal. Eu sempre quis me descobrir sexualmente, saber quais são meus limites, até aonde eu vou etc… Não cogito de forma nenhuma ter uma relação sexual com outro homem, realmente não tenho interesse. Minha história e entre eu e uma mulher. Eu queria saber como eu faço para iniciar uma conversa com a minha namorada sobre esse assunto, eu tenho quase certeza de que ela é mente aberta(até demais kkk) mas tenho medo da reação dela ao pedir para ela me tocar na região anal, para eu experimentar."

"Estou preocupado com as sensações que tive quando transei a última vez com minha namorada. Não tenho e nunca tive tesão por homens. Adoro mulheres. Mas uma coisa está me intrigando. Ontem, quando estávamos na cama, ela acariciou meu ânus e isso me deu enorme prazer. Fiquei com muito mais tesão do que já estava. Nem dormi direito essa noite; será que sou um gay enrustido?"

Preocupação desnecessária. Para Freud, a libido se desenvolve em fases. Na infância o prazer se desloca por algumas áreas do corpo, que passam a ter a primazia como zonas erógenas.

A fase oral é a primeira, e aproximadamente entre dois e quatro anos vem a seguinte, a fase anal. A zona erógena é a mucosa do ânus, onde a criança sente prazer na estimulação durante a defecação.

Na vida adulta, a estimulação anal é muito excitante para homens e mulheres, que, mesmo sem penetração, muitas vezes se tocam nessa área durante o ato sexual.

Mas são poucos os homens que não se retraem quando a mulher tenta introduzir o dedo ou apenas acariciar seu ânus. O pavor de se imaginarem homossexuais faz com que percam a oportunidade de experimentar uma nova sensação de prazer.

Ter prazer com a estimulação anal não significa absolutamente homossexualidade. Homossexualidade se caracteriza pela escolha do objeto de amor — uma pessoa do mesmo sexo — e nunca pela área do corpo que proporciona prazer.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 12 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda”, “O Livro do Amor” e "Novas Formas de Amar". Atende em consultório particular há 45 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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