Regina Navarro Lins

Relação homem/mulher: parceria ou dominação

Regina Navarro Lins

15/04/2017 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso da internauta cujo marido fica com todo o seu salário alegando que ela não sabe economizar. Ele ganha três vezes mais que ela, mas insiste em que ela tem que pagar a casa onde mora. Nem o 13º ele deixa com ela. Ela diz que não falta nada em casa, mas que está muito cansada com essa situação.

O que mais me chamou a atenção neste post foram os comentários com ataques à internauta. Alguns exemplos:

“Esta corretíssimo, por que o do homem tem de entrar todo na casa e da mulher gastar com ela? Fora o salão e essas situações q mulher precisa como salão de beleza, entre outras coisas necessárias mesmo… faço isso também com minha esposa e está dentro do normal, mas no caso eu ganho ate 5x mais que ela. Quando ela precisa comprar algo, ela vem e falar comigo e chegamos a um consenso se necessita.”

“Tá na cara que o marido só fez isso porque a esposa é consumista e gasta dinheiro com bobagem. Ela mesma admite que já estourou o cartão de crédito. Depois a família é obrigada a ficar pagando juros do cartão e vai faltar comida em casa. Aliás, a leitora diz que não falta nada em casa, então tá reclamando do quê? Tem sorte de ter um marido que sabe administrar as finanças da família e não deixa ela fazer dívidas.”

“Conheço casos assim e sinceramente é questão de responsabilidade. A mulher gasta tudo que tem e que não tem e prejudica a família, uma hora, depois de cometer tantos erros, alguém tem que tomar uma atitude drástica. E acho hilário esse assunto virar matéria, quando a regra é o salário do homem ser comido pela mulher, e esta contribuir muito menos em casa ainda assim.”

Uma internauta, entretanto, se indignou:

“Digo primeiramente que o assunto está pautado de forma muito descuidada ao não alertar que a prática deste marido é um crime tipificado no inciso IV do artigo 7º da Lei 11.340/2006 como violência patrimonial (“qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades”). Muitas mulheres vivem essa realidade cotidianamente, que se manifesta duplamente violenta porque aparece socialmente como um “cuidado”, uma forma de “ajudar” a mulher, que é infantilizada (“não sabe lidar com dinheiro”) ou desqualificada (“perdulária”, “gastadeira”) enquanto é roubada no âmbito de uma relação íntima de afeto. Em segundo lugar, orientaria a vítima e todas as que lerem esse post a buscar apoio especializado e usar a Lei Maria da Penha.”

A história da mulher é a da luta contra a opressão. Há cinco mil anos, desde que o patriarcado se instalou, as mulheres sofrem todo tipo de constrangimento familiar e social.

O patriarcado é uma organização social baseada no poder do pai, e a descendência e parentesco seguem a linha masculina. As mulheres são consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação. Superior/inferior, dominador/dominado. A ideologia patriarcal dividiu a humanidade em duas metades, acarretando desastrosas consequências.

É evidente que a maneira como as relações entre homens e mulheres se estruturam — dominação ou parceria — tem implicações decisivas para nossas vidas pessoais, para nossos papéis cotidianos e nossas opções de vida.

Da mesma forma, influencia todas as nossas instituições, valores e a direção de nossa evolução cultural, se ela será pacífica ou belicosa.

Apoiando-se em dois pilares básicos — controle da fecundidade da mulher e divisão sexual de tarefas — a sujeição física e mental da mulher foi o único meio de restringir sua sexualidade e mantê-la limitada a tarefas específicas.

O filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) diz em seu livro “O Casamento e a Moral” que esse antagonismo entre os sexos impede uma amizade e um companheirismo verdadeiros, fazendo com que a relação entre homem e mulher se deteriore. As relações conjugais têm sido de condescendência de um lado e obrigação de outro, cheias de desconfianças, ressentimentos e temores.

Pesquisa realizada em fevereiro de 2014 com 1258 pessoas, de ambos os sexos e de todas as classes sociais, concluiu que o Brasil é um país machista para 75% dos brasileiros.

Outro estudo, feito no fim de 2013, e que ouviu 1500 homens e mulheres de todas as regiões do país, mostrou que 43% dos homens entrevistados acreditam que quem deve cuidar da casa é a mulher; 89% consideram inaceitável que as mulheres não mantenham o lar em ordem e 69% deles não querem que elas saiam com amigos sem os parceiros.

A maioria dos homens, ainda submetidos à ideologia patriarcal, ou seja, machista, não conseguem estabelecer intimidade emocional com suas parceiras ou amigos. Para estes a intimidade é vista como um sinal de fraqueza.

Mas não há dúvida de que as mentalidades estão mudando; muitos homens já compreenderam que a virilidade tradicional é bastante arriscada e cada vez mais aceitam que atitudes e comportamentos sempre rotulados como femininos são necessários para o desenvolvimento de seres humanos.

A consequência é a gradual destruição de valores tidos como inquestionáveis no que diz respeito ao amor, ao casamento e à sexualidade, trazendo a perspectiva do fim da guerra entre os sexos e o surgimento de uma sociedade onde possa haver parceria entre homens e mulheres.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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