Regina Navarro Lins

Casamento sem sexo

Regina Navarro Lins

04/02/2017 07h00

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso do internauta de 37 anos, casado há 15, que está infeliz porque sua esposa nunca quer fazer sexo; sempre dizendo estar cansada ou com dores. Ele já pensou em se separar, mas não quer se afastar das filhas de dez e seis anos. Já conversou e explicou, mas nada muda. Sente-se humilhado por ter que ficar pedindo e implorando sexo.

“O casamento é para as mulheres a forma mais comum de se manterem, e a quantidade de relações sexuais indesejadas que as mulheres têm que suportar é provavelmente maior no casamento do que na prostituição.”, afirmou o filósofo inglês Bertrand Russell.

A maioria das mulheres, depois de algum tempo de casamento, faz sexo sem nenhuma vontade. Esse sexo indesejado, por obrigação, é vivido também por mulheres economicamente independentes, que não necessitam do marido para mantê-las.

A dependência emocional acaba sendo tão limitadora quanto a financeira. Ambas podem conduzir a uma vida sexual pobre e medíocre. Imaginar-se sozinha, desprotegida, sem um homem ao lado, é percebido como insuportável.

A atração sexual acaba por vários motivos: rotina, falta de mistério, brigas e inclusive pela obrigação de exclusividade. Nas relações estáveis o sexo se torna, em muitos casos, tão tedioso quanto qualquer outro aspecto da relação.

Dor de cabeça, cansaço, preocupação com trabalho ou família são as desculpas mais usadas. As mulheres tentam tudo para postergar a obrigação que se impõem para manter o casamento.

Quando o marido se mostra impaciente, não tem jeito, a mulher se submete ao sacrifício. Ninguém fica sabendo. Comentar o assunto significa admitir o que se tenta negar.

Socialmente, é difícil acreditar que aquele casal jovem, com tanta energia e manifestações de carinho entre si não vive uma sexualidade plena. Em muitos casos, a escassez de sexo progride até a ausência total.

Míriam, uma moça de 29 anos que atendi no consultora, era diretora de uma grande empresa. Casada há três anos, amava muito o marido; não conseguia imaginar a vida sem ele. Era seu melhor amigo, o companheiro com quem partilhava muitos interesses: teatros, shows e viagens nos fins de semana. Tinham muitos amigos.

Ela gostava quando ficavam juntos, abraçados ternamente, ele fazendo cafuné na sua cabeça. Mas, ao primeiro sinal de um carinho mais sexual, usava algum pretexto para se afastar. Não desejava fazer sexo com ele de jeito nenhum. Só a ideia já lhe desagradava. Não falava com ninguém sobre isso. A família e os amigos os viam como exemplo de um casamento perfeito.

Vencido o constrangimento inicial, Míriam falou sem parar durante toda a sessão. Ouvi seu relato sem interrompê-la. Combinamos uma segunda entrevista para a semana seguinte. Horas depois, telefonou desmarcando. Suponho ter se assustado com o que escutou de si mesma.

No casamento ou em qualquer relação estável, observa-se o conflito entre a diminuição do desejo sexual e o aumento da ternura e companheirismo entre os parceiros.

Não é raro encontrarmos casais que, apesar de viverem juntos, têm na ausência total do desejo sexual a tônica da relação. E por mais que se esforcem, não adianta: a atração sexual não pode ser imposta.

Assim, numa relação estável, o sexo acaba se tornando um hábito ou um dever. Embora menos frequente, a ausência do desejo sexual também ocorre no marido em relação à mulher.

A maioria dos casamentos é regida por leis e regras que limitam não só o sexo, mas a própria vida. Há inúmeras cobranças como tarefas, comportamentos, horários. Um se mete nas questões do outro com palpites, exigências e críticas. O sexo é o que temos de biológico mais ligado ao emocional e com certeza é afetado.

“O enfraquecimento do desejo sexual pode não ser definitivo. Ele deixa de ser passageiro e se torna permanente se os parceiros não perceberem a tensão ou o ódio recíproco, e também se rejeitarem como absurdos os desejos sexuais sentidos por outras pessoas. A repressão desses impulsos traz consequências desastrosas para a relação entre duas pessoas.”, diz o psicanalista da primeira metade do século 20 Wilhelm Reich.

Só é possível encontrar uma saída discutindo-se esses fatos com franqueza e sem preconceitos. É condição essencial reconhecer como natural o interesse sexual por outras pessoas: “Ninguém pensaria em condenar alguém por não querer usar a mesma roupa durante anos, ou por não querer comer todos os dias o mesmo prato.”, conclui Reich.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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