Regina Navarro Lins

Desejo sexual culpado

Regina Navarro Lins

Ilustração: Lumi Mae

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso do internauta, casado há 20 anos, cuja esposa não tem mais interesse por sexo, mas lhe disse para procurar outras mulheres com esse objetivo. Ele diz não saber se, mesmo com o incentivo dela para se satisfazer sexualmente, estaria sendo infiel.

Há dois mil anos, os desejos sexuais são condenados com rigor. Só para se ter uma ideia a que ponto isso chegou, o grande movimento de fuga para o deserto em busca da pureza sexual , entre os séculos 3 e 5, é um bom exemplo.

Milhares de homens e mulheres torturavam seus corpos na tentativa se livrar de pensamentos sexuais e consequentemente se livrar de algo terrível que derivaria de tais pensamentos: a danação eterna.

Numa coleção de máximas dos religiosos do deserto há o caso de um jovem monge atormentado por sonhos sexuais, que se dirige a um monge idoso:

“Peço-lhe que me explique como é que você nunca foi perseguido pela luxúria.”

O velho monge lhe responde:

“Desde o tempo que me tornei monge nunca dei, a mim mesmo, a minha porção de pão, nem de água, nem de sono. Atormentando-me como me tenho atormentado pelo apetite para com essas coisas, por meio das quais somos alimentados, não tenho sido submetido à sensação dos ferrões da luxúria.”

Poucos monges conseguiram se livrar como ele dos seus desejos sexuais. Todos suportavam as mesmas durezas, mas mesmo assim continuaram sofrendo contínuas fantasias eróticas.

Diante dessas exigências, tão distantes da natureza humana, nem sempre o controle emocional era mantido. Há relato dos gritos de um monge, numa crise descontrolada, que para satisfazer seus desejos seriam necessárias dez mulheres.

Voltando ao nosso internauta, que se sente culpado com a possibilidade de satisfazer seus desejos. Como a maioria das pessoas, ele associa fidelidade à exclusividade sexual. E isso pode ser um grande equívoco.

Penso que a fidelidade está no sentimento que se nutre pelo outro e nas razões que sustentam a relação. Os termos fiel/infiel e mais ainda a palavra traição talvez não sejam apropriados para caracterizar relações extraconjugais.

Estamos no século 21. Muitos homens e mulheres exigem exclusividade de seus parceiros, e consideram inadmissível que sintam desejo sexual por outra pessoa.

O principal motivo que leva as pessoas a exigir “fidelidade” é que na relação amorosa estável se cria uma situação de dependência emocional, sendo comum se depositar no outro a garantia de não ficar só. O medo da solidão e do desamparo leva ao controle.

Mas, na realidade, todos são afetados por estímulos sexuais novos, vindo de outras pessoas que não os parceiros fixos. Esses estímulos existem e não podem ser eliminados.

Quando um dos parceiros abre mão de seus desejos por alguém, por consideração ou pela obrigação de “fidelidade”, o resultado pode ser desastroso.

As restrições que muitos têm o hábito de se impor por causa do outro ameaçam bem mais uma relação do que uma “infidelidade”.

Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. O parceiro que teve excessiva consideração tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a se considerar vítima.

É comum desenvolver uma irritação pelo outro, responsabilizando-o por suas frustrações. Isso sem contar que o parceiro, mesmo sem saber, terá uma dívida eterna pela concessão feita.

Quando a “fidelidade “não é natural nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a própria relação.

Sobre a autora

Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews. Nasceu e vive no Rio de Janeiro.

Sobre o blog

A proposta deste espaço interativo é estimular a reflexão sobre formas de viver o amor e o sexo, dando uma contribuição para a mudança das mentalidades, pois acreditamos que, ao se livrarem dos preconceitos, as pessoas vivem com mais satisfação.

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