Regina Navarro

Há benefícios na relação extraconjugal?

Regina Navarro Lins

Imagem de uma mulher com dois homens

Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso da mulher que voltou a sentir desejo sexual pelo marido depois que começou um relacionamento extraconjugal. Ela se considera muito mais feliz agora.

“Ter um caso faz bem ao casamento.” É o que diz a socióloga inglesa Catherine Hakim. Em seu novo livro ela explica porque as relações extraconjugais tornam os casais mais felizes. Essa ideia não é fácil de ser aceita. Afinal, um dos pressupostos da nossa sociedade é o de que o casal monogâmico é a única estrutura válida de relacionamento sexual humano, sendo tão superior que não necessita ser questionado.

Na verdade, colocamos tanta ênfase nisso, que uma discussão séria sobre o assunto dos relacionamentos alternativos é muito rara. Entretanto, as sociedades que adotam a monogamia têm dificuldades em comprovar que ela funciona. Ao contrário, parece haver grandes evidências, expressas pelas altas taxas de relações extraconjugais, de que a monogamia não funciona muito bem para os ocidentais.

Nos países com menor taxa de divórcio, os casos extraconjugais são mais aceitáveis e praticados. Catherine Hakim compara os Estados Unidos com a Europa. No primeiro, onde não se tolera a mínima escapada, metade dos casamentos termina em divórcio.

Na Europa, há uma cultura de que a exclusividade sexual no casamento não é tão importante assim. Isso explicaria porque na Espanha e na Itália, a taxa de divórcio fica em torno de 10%. Nesses países, os estudos revelam a alta incidência de casais em que cônjuges já tiveram um ou mais casos durante o relacionamento.

Nem todos aceitam o argumento de que o ser humano é “predestinado'' à monogamia e desenvolvem outras formas de relacionamento livremente escolhidas. Em 1976, o psicoterapeuta e escritor Roberto Freire tomou como base a letra da música de O Seu Amor, de Gilberto Gil, para a discussão da sua proposta de amor libertário.

O seu amor
ame-o e deixe-o livre para amar
O seu amor
ame-o e deixe-o ir aonde quiser
O seu amor/ame-o e deixe-o brincar
ame-o e deixe-o correr
ame-o e deixe-o cansar
ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
ame-o e deixe-o ser o que ele é

Na música de Gil, é ressaltada a ideia de que o verdadeiro ato de amor é o que garante a quem amamos a liberdade de amar, além e apesar de nós e de nosso amor. Freire acredita que apesar de muita gente considerar que essa ideologia amorosa é pura utopia, quase todos sonham com essa possibilidade.

“Pessoalmente é tudo o que desejo: o meu amor, tanto meu sentimento quanto a pessoa que amo, além de amá-los apenas do jeito que gosto, deixo-os livres para amar do jeito que gostam, até mesmo além e apesar de mim. Procuro pessoas que também amam assim. Tem sido difícil, mas acabo sempre por encontrá-las. É fascinante, assustador, maravilhoso, doloroso, prazeroso, novo, imprevisível, incontrolável, rico, maluco, romântico, caótico, aventureiro.”, diz ele.

O psicanalista W.Reich afirmava que nunca se denunciará bastante a influência perniciosa dos preconceitos morais nessa área. E que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual.

Apesar de todos os ensinamentos estimularem que se invista toda a energia sexual em uma única pessoa — marido ou esposa —, homens e mulheres são profundamente adúlteros. Talvez seja hora de se começar a questionar se fidelidade tem mesmo a ver com sexualidade.