Regina Navarro

Casamento: quando o homem é submisso

Regina Navarro Lins

Comentando o “Se eu fosse você…''

A questão da semana é o caso do marido submisso à mulher. Ao contrário do que parece, é grande o número de homens que dependem emocionalmente de suas mulheres, entregando a elas a administração integral da vida e dos próprios desejos. A expressão máxima da submissão do homem à mulher pode ser ilustrada na cena inacreditável a que assisti, alguns anos atrás, em casa de amigos. Um casal, casado há 40 anos, conversava animadamente em grupos separados. Ele, um bem sucedido advogado, elegante e discreto, contava histórias de sua recente viagem. Quando foi servido o jantar, todos foram à mesa. E a cada momento, antes de pôr a comida no prato, ele se virava para a esposa e perguntava baixinho: “Julieta, eu gosto?” É claro que a dependência masculina não se mostra necessariamente tão óbvia, se apresentando, na maioria das vezes, de forma bem mais sutil.

Homens e mulheres têm um papel a desempenhar. Os meninos, para serem aceitos como machos, têm que corresponder ao que deles se espera numa sociedade patriarcal — força, sucesso, poder. Não podem falhar nem sentir medo. Um bom exemplo inesquecível do estereótipo do supermacho, durante tanto tempo prestigiado, foi ilustrado, há alguns anos, na propaganda dos cigarros Marlboro.

O personagem representa o homem duro, solitário porque não precisa de ninguém, impassível, viril a toda prova. Afeto, emoção? Nem de longe se percebe. Onde se esconde, então, toda a fragilidade e dependência que observamos, na intimidade, em muitos homens? Sem dúvida, perseguir o ideal masculino gera angústias e tensões, sendo necessário então usar uma máscara de onipotência e independência absoluta. Por isso, parece adequada a afirmação de que “quando cai a máscara descobre-se um bebê que treme”. Mas por que tudo isso?

Quando pequeno, o menino tem com a mãe um vínculo intenso, que deve ser rompido precocemente para que ele se desenvolva como homem. Permanecer muito perto da mãe só é permitido às meninas. Para os meninos isso significa ser maricas ou filhinho da mamãe. Os amigos e os próprios pais não perdem uma oportunidade de deboche ou piada a qualquer manifestação de sujeição à mãe. O desejo de ser cuidado, acalentado, dependente é recalcado. Na vida adulta os homens escondem a necessidade que têm das mulheres mostrando-se auto-suficientes e desprezando-as. Tentam se convencer de que elas é que precisam deles, da sua proteção. Negando, assim, seus próprios impulsos de dependência, se sentem mais fortes e poderosos.

Contudo, quando o homem se sente atraído por uma mulher, dois sentimentos contraditórios o assaltam. Por um lado, o desejo de intimidade, de aprofundar a relação. Por outro, o temor de se ver diante do seu próprio desamparo e do desejo de ser cuidado por uma mulher. Talvez isso explique por que tantos homens que resistem ao casamento, optando por uma vida livre, em um determinado momento se casam e se tornam submissos, dependentes e dominados pela mulher.